Até ao dia das eleições legislativas, 30 de janeiro, a Líder vai publicar diariamente as opiniões e contributos de várias personalidades a quem foi lançado o desafio de responderem à pergunta: O que precisamos mudar? Homens, mulheres, jovens, seniores, caucasianos, negros, crentes e não crentes, qualquer que seja a orientação sexual terão a sua opinião […]
Até ao dia das eleições legislativas, 30 de janeiro, a Líder vai publicar diariamente as opiniões e contributos de várias personalidades a quem foi lançado o desafio de responderem à pergunta: O que precisamos mudar?
Homens, mulheres, jovens, seniores, caucasianos, negros, crentes e não crentes, qualquer que seja a orientação sexual terão a sua opinião na Líder e serão capa.
Na Líder a capa é de todos.

Mafalda Rebordão é Account Manager na Google European Headquarters
O que queremos para Portugal? Uma questão que nasce do verbo “querer” (que significa ter vontade ou intenção de fazer algo), e que me leva à resposta honesta: o que quero para Portugal, pessoalmente, é que possamos passar do querer ao fazer.
A minha geração está desiludida. A geração de jovens portugueses acredita que há cada vez menos oportunidades de progressão de carreira no seu país e encontra cada vez menos reconhecimento ou incentivos para ficar. A Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) publicou os resultados do estudo sobre “Os jovens em Portugal, hoje” e concluiu que um terço dos jovens tenciona emigrar. Não é uma surpresa do ponto de vista económico: o mesmo estudo revela que 3 em cada 4 jovens recebe menos de 950€ por mês e cerca de metade tem um contrato instável. E apesar de eu defender a escolha de uma carreira, empresa ou país com o sentido de propósito acima da remuneração, qualquer jovem ou trabalhador merece (e tem o direito de) ser recompensado pelo seu trabalho e tempo.
Paradoxal este país, que parece, a meu ver, não investir em criar e redesenhar oportunidades de vida e progressão de carreira para os jovens, e que, contudo, forma tantos profissionais brilhantes.
O nosso país é o berço de 7 unicórnios: fundados por empreendedores ambiciosos que construíram empresas desde o zero até aos 38,6 mil milhões de dólares (em conjunto). Em todos os países em que estudei, senti que a nossa educação e formação em hard skills e competências analíticas era muito superior. Estudei na Universidade canadiana, HEC Montréal e na dinamarquesa, Copenhagen Business School e a universidade onde me senti mais desafiada foi na universidade Portuguesa onde estudei (e acabei por lecionar), Nova School of Business and Economics. A Nova SBE ocupa a posição 23 no ranking mundial do Financial Times e apresenta uma taxa de empregabilidade de 91% após 3 meses de conclusão do mestrado. Estes dados provam que a educação é necessária e urgente mas não suficiente (porque Portugal não consegue reter o talento jovem).
Nas empresas em Portugal pelas quais passei, tive contacto com muitos profissionais de excelência que me ensinaram a gerir a minha carreira de forma intencional, mas que me fizeram perceber que continua a existir pouca consciência coletiva e drive em relação ao mercado de trabalho enquanto transação de negócio e agente de mudança da vida da sociedade portuguesa.
Em suma, tanta excecionalidade com ADN português e tão poucas oportunidades em território nacional. Quero advogar, com base na minha experiência, que em Portugal não temos falta de talento, instituições capazes de nos munir das skills necessárias ou mesmo falta de espírito empreendedor. Temos falta de reconhecimento, desburocratização para criação de oportunidades e falta de incentivos para atração de talento (e investimento). Se queremos crescer enquanto país e evitar que os jovens continuem a procurar oportunidades fora de Portugal, tal como eu fiz, precisamos de mudar (desde as comunidades, ao ecossistema empresarial, da intervenção política às escolas e universidades).
Comecei a trabalhar aos 19 anos (no meu primeiro estágio de verão) e ao longo dos últimos 5 anos contactei com a cultura corporativa portuguesa desde as empresas PSI 20 às startups, de multinacionais às maiores empresas dos Estados Unidos (como a Google em Dublin, onde trabalho atualmente). Estas são duas das lições que aprendi, que me demonstraram que Portugal tem um potencial astronómico mas que tem, por agora, pouco espaço para os jovens que querem, e fazem acontecer:
- A educação é, de facto, “a melhor arma para mudar o mundo”.
Acredito que a minha educação e as instituições de ensino pelas quais passei e nas quais ensinei, foram decisivas para o meu sucesso pessoal e profissional. A educação não pode, em nenhum país, independente da orientação e escolhas políticas da democracia, deixar de ser uma prioridade. Uma educação que permita aos jovens pensar, desafiar o status quo e conhecer o mundo que os rodeia, é o primeiro passo para uma sociedade e uma economia prósperas. Não acredito em crescimento económico sem educação (e em Portugal, de acordo com o mesmo estudo da FFMS, pouco mais de um terço dos jovens até aos 25 anos estão no ensino superior).
Pensamento crítico, conhecimento e empoderamento, são na minha ótica, das ferramentas mais importantes para fazer crescer uma economia. Uma sociedade mais educada pode fazer mais: ter um papel mais ativo nas políticas do país (como votar, por exemplo, uma vez que os jovens entre os 18 e os 30 anos são quem menos se desloca às urnas em Portugal); procurar reformas progressistas (a última grande reforma educativa no país aconteceu em 1989); construir uma sociedade mais diversa (que não imobiliza com base em género, por exemplo, promovendo carreiras em que mulher e homem podem atingir igual remuneração em igual trabalho); investir (ensinando os jovens a criar riqueza e a gerir as suas finanças pessoais) ou desenvolver mais as áreas de STEM (atribuindo bolsas para investigação científica). E apesar de os últimos dois anos terem sido particularmente desafiantes para os jovens (com um mercado de trabalho em crise, jovens que perderam o emprego, viram as suas áreas e empresas em layoff, foram impedidos de praticar os seus desportos, ficaram afastados da família e amigos e proibidos de viver os seus sonhos), continuam a existir oportunidades. Continuam a surgir iniciativas que qualificam os jovens a custo zero, faculdades que os colocam em contacto com empresas e lhes oferecem propostas de trabalho antes da conclusão dos estudos, bolsas de estudo, escolas a ganhar prémios de robótica e ciência e a reinventarem o seu modelo para se adaptarem à realidade e chegar a todos (independentemente do extrato social), e tantas outras ações (e não apenas intenções!).
Queremos, por isso, que Portugal aposte na educação e queremos apostar na busca individual (para além da coletiva) da educação. Porque como defendia Herbert Spencer, “o objetivo da educação não é apenas conhecimento mas ação”.
- A diversidade e representatividade sociais interessam.
Sou facilitadora de um programa na empresa em que trabalho, que mostra através de dados muito expressivos, que equipas diversas são mais efetivas e aptas para resolver problemas. É urgente fazer desta a realidade comum e não excecional. Argumentei em várias ocasiões, que no mundo atual, completamente polarizado, possamos sentir fadiga em relação a temas como o feminismo mas, ainda que estejamos perante um progresso notável, há muito a fazer. Portugal tem uma pontuação de 0,44 no Índice de Diversidade de Género (que compara países e empresas). Este valor representa menos 0,12 pontos que a média europeia e menos 0,30 pontos que os 45 melhores países. Apenas 6% das empresas em Portugal têm uma mulher no Conselho de Administração.
Sofremos de estereótipos inconscientes e sistémicos, que nos levam a recrutar de forma injusta, não promover ou reconhecer com base em preconceitos.
Agora, aos 24 anos, conseguiria enumerar dezenas de profissionais portugueses de excelência (mulheres e homens), que se tornaram role models para mim, e me ensinaram tudo o que sei sobre como gerir a minha carreira, como impactar as organizações ou a minha comunidade. Na verdade, muitos dos profissionais com quem tive a oportunidade de trabalhar, tornaram-se meus mentores.
Construí uma rede de networking sólida que me permitiu capitalizar nas hard skills e aproximar-me da realidade do mercado de trabalho, desenvolvendo as soft skills que são essenciais para o sucesso num mundo corporativo tão competitivo. Cresci, enquanto profissional, rodeada de mulheres e homens que admiro, e que nunca me fizeram sentir que ser uma mulher jovem me colocava, de alguma forma, um rótulo. Em todas as equipas das empresas com as quais trabalhei em Portugal, senti que o facto de trazer novas ideias e desafios para a mesa, acrescentava valor e que existia uma busca pela diversidade de opiniões, género, background, etnia.
Contudo, este está longe de ser o melhor proxy da realidade corporativa em Portugal. Queremos um Portugal que não só aceita, como promove e potencia a diversidade no ecossistema empresarial e fora do mesmo. Queremos um Portugal em que cada cidadão consegue recordar o nome de muitas mulheres e homens com perfis únicos, em diversas áreas, e que se tornam role models e exemplos para a sociedade no geral, e para os jovens em particular. Queremos um Portugal em que cada jovem que entra no mercado de trabalho faz parte de equipas que representam a sociedade (porque a representatividade é necessária).
Portugal é um país repleto de pessoas extraordinárias, mas que PRECISA de criar mais oportunidades para que essas pessoas escolham ficar. Precisamos que, no futuro, os 7 unicórnios (e não apenas 1) possam estabelecer a sua sede em Portugal.
Precisamos que os jovens encontrem uma remuneração que lhes permita, seja qual for o seu objetivo de vida (criar património, começar
o seu próprio negócio, viajar, formar família, …), concretizá-lo. Precisamos de celebrar e reconhecer os portugueses que nos quadros de investimento públicos e privados, estão a fazer acontecer. Precisamos de celebrar a diversidade. Por isso mesmo, em resposta à pergunta, o que eu quero para Portugal é uma geração de jovens que não desista, que faça perguntas, que se rodeie de pessoas que as inspire e que acima de tudo encontre oportunidade para fazer acontecer.



