A digitalização de tudo e de todos é uma realidade incontornável, acelerada exponencialmente pela pandemia de Covid-19, a partir de 2020, e pelos cada vez maiores desenvolvimentos tecnológicos a que assistimos. Hoje, multiplica-se o número de projetos que já nascem digitais, com modelos de negócio de sucesso. E, em paralelo, todas as empresas, de todos […]
A digitalização de tudo e de todos é uma realidade incontornável, acelerada exponencialmente pela pandemia de Covid-19, a partir de 2020, e pelos cada vez maiores desenvolvimentos tecnológicos a que assistimos. Hoje, multiplica-se o número de projetos que já nascem digitais, com modelos de negócio de sucesso. E, em paralelo, todas as empresas, de todos os setores de atividade, terão de avançar com processos de transformação, assumindo-se cada vez mais como organizações digitais, pois só assim garantirão a sua existência e o seu êxito neste novo mundo que está em construção.
A esta realidade, comum a todos os mercados, acresce no caso nacional a forte e crescente apetência que o país regista enquanto hub preferencial de atração de investimentos em centros de competências de base tecnológica de grupos internacionais, vindos não só da Europa, mas de todos os cantos do mundo. O florescente ecossistema empreendedor, associado às infraestruturas de comunicações de ponta, à grande qualidade dos recursos humanos e à estabilidade do país são fatores considerados determinantes.
Não é por isso de estranhar que se registe uma acentuada falta de talento especializado em TIC. Esta realidade já era reconhecida há muito por todos, até porque a escolha de profissões ligadas às tecnologias de informação e comunicação (TIC) desde sempre registou níveis abaixo do desejável, sobretudo por parte das jovens estudantes portuguesas, mas assume neste momento uma relevância verdadeiramente crítica.
Os dados do Índice de Digitalidade da Economia e da Sociedade (DESI) de 2022 mostram uma evolução positiva em termos de diplomados e especialistas em TIC em Portugal. Assim, os diplomados em TIC representavam 2,6% do total de diplomados em 2020, face aos 2,2% dois anos antes. Ainda assim, estávamos abaixo dos 3,9% da média europeia. Já os especialistas representavam 4,7% da percentagem de pessoas com emprego entre os 15 e os 74 anos em 2021, acima dos 3,5% de 2019 e da média europeia de 4,5% do ano passado. As mulheres representavam no nosso país 21% de todos os especialistas TIC, acima dos 19% da média da Europa.
Nos últimos anos, multiplicaram-se os cursos nas áreas TIC. A rede nacional de Politécnicos, por exemplo, tem conseguido atrair mais jovens para as áreas TIC, não só através de cursos superiores mais virados para a prática, como também através dos Cursos Técnicos Superiores Profissionais (CTeSP), onde já existem muitas opções tecnológicas. Estas formações levaram a uma crescente e inevitável aproximação entre a Academia e as empresas TIC, no sentido de dar resposta às necessidades concretas do mercado em termos de talento, à medida que as organizações se vão digitalizando e adotando soluções tecnológicas de ponta, que levam à extinção de muitos postos de trabalho, graças à crescente automatização, e à criação de necessidade de talento muito mais especializado.
Um bom exemplo desta aproximação e das sucessivas parcerias que vão sendo anunciadas é a iniciativa “Seeds for the Future”, da Huawei, que resulta de uma estratégia de empoderamento das comunidades académicas, consideradas como um dos mais importantes veículos de crescimento e prosperidade da sociedade. Lançado a nível internacional em 2008, este projeto já alcançou mais de 12 mil estudantes em todo o mundo.
Tendo como mote a valorização do talento, a iniciativa é dedicada a alunos do ensino superior das áreas TIC, dando-lhes a oportunidade de contactar com a realidade do trabalho nas TIC e de conhecerem algumas das tecnologias mais inovadoras, como 5G, Inteligência Artificial, Cloud e IoT. Para tal, os participantes integram atividades como visitas virtuais, mentorias com especialistas e debates. Foi aliás neste contexto que conheci o grupo de participantes nacionais deste ano: 20 estudantes (10 rapazes e 10 raparigas) de 13 instituições de ensino superior distribuídas por todo o território nacional, elevando para 100 o número total dos que já participaram neste programa em Portugal.
Programas como este são essenciais para captar o interesse dos jovens para as áreas tecnológicas mais disruptivas, num processo que deve começar cedo no processo educativo. Não é por acaso que o Governo pretende avançar com a introdução do pensamento computacional, a partir deste novo ano letivo, como uma das capacidades a desenvolver pelos alunos de todo o ensino básico na disciplina de Matemática. É uma pequena semente que certamente dará frutos no futuro, no sentido dos nossos jovens ganharem capacidades de raciocínio lógico e computacional e de terem pensamento crítico ao longo do ensino obrigatório.
Há ainda mais caminhos na formação de talento qualificado em TIC, até porque enfrentamos, tal como a Europa, um problema demográfico grave. Tendo em conta que muitos postos de trabalho estão em mutação, em resultado da aceleração tecnológica, o nome do jogo tem de ser ainda a requalificação. Há uma clara necessidade de recursos tecnológicos e um conjunto alargado de pessoas desempregadas ou em situação de subemprego.
Programas como o UPskill, um projeto da APDC em parceria com o IEFP e a Academia, fazem este ‘casamento’ e permitem que as empresas aderentes ao programa contratem, no final do processo, as pessoas com as qualificações certas para as suas necessidades em concreto. Afinal, não nos podemos esquecer que as necessidades de talento TIC são transversais a todas as empresas e setores de atividade. E que os players globais têm o país cada vez mais na mira, o que só pode ser bom para a nossa economia!


