Cerca de um em cada cinco portugueses estava em risco de pobreza antes da pandemia, e essa proporção ter-se-á agravado com a crise. Ademais, segundo estudo promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, uma quantidade significativa de pobres trabalha: 32.9% têm vínculo efetivo e trabalho regular, e 26.6% têm trabalhos precários. Este é um indicador […]
Cerca de um em cada cinco portugueses estava em risco de pobreza antes da pandemia, e essa proporção ter-se-á agravado com a crise. Ademais, segundo estudo promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, uma quantidade significativa de pobres trabalha: 32.9% têm vínculo efetivo e trabalho regular, e 26.6% têm trabalhos precários. Este é um indicador claro da precaridade e da miserabilidade de muitos salários.
O estudo promovido pela Fundação FMS também aponta para a “reprodução intergeracional da pobreza”: quem nasce em família pobre tem grande probabilidade de vir a ser pobre. Fernando Diogo, coordenador do estudo, referiu que “a maior parte das situações de pobreza em Portugal são pobreza tradicional, porque persistente ao longo da vida dos indivíduos e porque há uma tendência forte para se reproduzir entre gerações”. O estudo sugere, ainda, que a pandemia traz mais “regressados à pobreza” do que “novos pobres”. De outro modo: a pandemia aumentou a probabilidade de alguém que já foi pobre voltar a sê-lo.
Esta evidência permite extrair algumas ilações. Primeira: se a pobreza se reproduz nas famílias, e se a pandemia afeta mais negativamente os já mais fragilizados, então é um mito a tese de que a condição de cada um na vida depende fortemente do mérito. O berço em que se nasce, que nada tem a ver com mérito ou demérito, influencia amplamente o que cada um de nós alcança na vida.
Segunda ilação: uma razão frequentemente usada para justificar o nanismo dos salários é a fraca qualificação do trabalhador. É um argumento com diversas fragilidades. Por um lado, não há nenhuma razão divina, nenhuma força sobrenatural que impeça a valorização e melhor remuneração dessas funções, incluindo o trabalho manual. Muitos destes trabalhadores pouco qualificados realizam tarefas de grande valor social – algumas sendo mesmo essenciais para a sobrevivência dos trabalhadores qualificados. Durante a pandemia, teríamos (literalmente) morrido de fome e sede se não tivéssemos fruído das atividades desses trabalhadores essenciais. Por outro lado, é praticamente impossível às pessoas pouco qualificadas, com míseros salários, investir na educação e qualificação – delas próprias e dos seus filhos. O argumento usado para tentar legitimar o seu baixo salário acaba por reforçar a ofensa à sua dignidade. Essas pessoas sentem-se culpadas por não serem qualificadas – mas não dispõem de instrumentos para expiarem ou se livrarem dessa culpa. Não lhes basta o padecimento com a fraca qualificação – também se lhes requer que carreguem a culpa.
Terceira ilação: as empresas que se autopromovem como arautos da responsabilidade social deveriam fazer jus a essa narrativa, remunerando de modo mais apropriado e apoiando a qualificação dessas pessoas. Muitas empresas não têm capacidade para aumentar salários. Mas muitas outras têm-na. Naturalmente, é preciso fazer escolhas. E, já agora, importa prestar mais atenção a alguma evidência empírica que um dos recentes agraciados com o Nobel da Economia produziu acerca (da subida) do salário mínimo.

Por Arménio Rego, LEAD.Lab, Católica Porto Business School

