Washington, Gilead

A invasão do Capitólio, em Washington, foi um acontecimento chocante. A ideia de que os acontecimentos deste tipo podiam ter lugar numa Venezuela mas não nuns EUA foi contrariada por uma realidade que já nem sequer surpreende. Na verdade, os anos da Presidência Trump foram o prelúdio para este trágico final: um constante desafio às instituições através de uma política de polarização – que quase resultava como ele queria.

Os acontecimentos merecem algumas linhas de reflexão. A mais importante tem a ver com um facto consabido mas tomado como uma possibilidade abstrata: a democracia é um processo, não um estado. Precisa de ser defendida dos seus inimigos e constantemente melhorada. Nenhum país está acima desta necessidade porque nenhuma democracia é eterna.


Livros recentes, de que é exemplo Povo vs Democracia de Yascha Mounk (Lua de Papel), ajudam a compreender que aquilo que damos por adquirido é, na verdade, mais frágil do que pensamos. As cenas da presidência Trump podiam bem ser o prelúdio da América/Gilead distópica de uma série como Diário de uma Serva.

Outro facto: é preocupante o facto de os EUA, pilar fundamental da ordem ocidental liberal, terem passado a transmitir, com regularidade, uma péssima imagem de si próprios. Os EUA têm na verdade comunicado a imagem de uma república das bananas onde o carisma de algum Alcazar se pretende acima das instituições e das suas regras. Joe Biden poderá ajudar a corrigir o mal. Mas anotemos: o que acontece aos outros também nos pode acontecer a nós.

 

 


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

 

 

Artigos Relacionados: