O Natal transformou-se em tempo de comprar. Mas pode também ser um tempo para pensar em assuntos sérios. Aqui me debruço sobre um desses temas. As moscas-da-fruta que habitam ambientes agrestes, nos quais as possibilidades de sobrevivência são menores, reproduzem-se mais cedo e geram maior quantidade de ovos por fêmea. Eis a razão: antes que […]
O Natal transformou-se em tempo de comprar. Mas pode também ser um tempo para pensar em assuntos sérios. Aqui me debruço sobre um desses temas. As moscas-da-fruta que habitam ambientes agrestes, nos quais as possibilidades de sobrevivência são menores, reproduzem-se mais cedo e geram maior quantidade de ovos por fêmea. Eis a razão: antes que morram, tratam de gerar descendentes. É uma lógica assente na necessidade de reproduzirem os seus genes e deixarem prole. Parece que os humanos têm comportamento similar. A quem ficar chocado com esta afirmação sugiro que se coloque uma questão: porque a maternidade precoce é maior entre as classes economicamente mais desfavorecidas? A resposta habitual envolve imputações pejorativas: essas pessoas são pobres precisamente porque são desprovidas de importantes atributos de caráter, não se autorregulam, procuram fruir o presente e não refletem devidamente sobre as consequências das suas decisões. A ciência sugere que essas imputações são, na melhor das hipóteses, incompletas. Eis o que foi escrito num artigo científico sobre a relação entre puberdade e pobreza:
“Viver para o presente é uma adaptação condicional resultante do baixo controlo dos impulsos, a qual é mais provável em nichos pobres com menores e menos previsíveis recursos socioeconómicos e de segurança (…). Consequentemente, em tais ambientes, o início mais precoce da puberdade pode estar associado a processos neuro-cognitivos que estimulam decisões impulsivas arriscadas, aumentando as probabilidades de atividade sexual mais frequente e iniciada mais precocemente, juntamente com outros aspetos relacionados com um maior investimento em esforços de acasalamento (…)”.
Os ambientes experienciados pelas crianças oriundas de contextos pobres reduzem as suas possibilidades de desenvolvimento cerebral e cognitivo, com consequências para as suas decisões na juventude e na idade adulta. Os pobres têm vidas mais curtas. Inconscientemente, tomam decisões que lhes permitem fruir o presente, pois o futuro é mais incerto. Estas pessoas são, pois, mais impulsivas e iniciam a atividade sexual mais cedo. Atuam como se, sendo a vida mais curta, importasse vivê-la mais rapidamente. Têm mais filhos, pois esta é uma forma inconsciente de aumentaram as possibilidades de transmitirem os seus genes às próximas gerações.
Ao longo do processo evolutivo, os seres humanos desenvolveram mecanismos adaptativos que continuam a influenciar o modo como se comportam atualmente. Esses mecanismos afetam, até, a biologia humana – algo verificável, por exemplo, na puberdade mais precoce entre as meninas de contextos mais pobres. Biologicamente, o organismo destas meninas antecipa-se, dada a maior probabilidade de morrerem antes de alcançarem a idade reprodutora. Diferentemente, as pessoas e as sociedades em condição económica mais favorável têm menos filhos, e têm-nos mais tarde, porque as ameaças à sobrevivência dos seus genes são menores. Com vidas mais longas, sabem que podem ainda viver parte significativa da vida acompanhando os netos.
A complexidade do tema não se compadece com considerações tão sumárias. E cada leitor ou leitora disporá de exemplos que contrariam o argumento aqui apresentado. Portanto, desejo apenas dar conta de que devemos ser mais cautos e sensatos quando rotulamos as pessoas. A tendência para culparmos os pobres pela sua conduta menos prudente e responsável pode representar, para eles, uma dupla penalização. Além de padecerem das inerências da pobreza, são acusados de que a sua condição é culpa sua. Como sociedade, temos o dever moral de adotar medidas que minorem a pobreza. Daqui não decorre que devamos desresponsabilizar as pessoas – pobres ou ricas – pelos seus atos. Mas parece necessário que as políticas económicas e as decisões de gestão contemplem maior respeito pela dignidade de pessoa humana e pela condição desfavorável que muitas pessoas experienciam.
Eis o que o Reverendo Peter J. Gomes, professor na Universidade de Harvard, sugeriu na Harvard Business Review (setembro de 2001): que os ricos sejam bondosos com os pobres para que estes não desenvolvam a inveja e ímpetos de violência, e que os pobres honrem o trabalho dos ricos porque estes são capazes de fazer algo para o bem-comum que os pobres estão impossibilitados de realizar. O que ele sugere é, pois, um contrato social entre ricos e pobres – contrato que, do seu ponto de vista, tem sido minado por uma forma de capitalismo profundamente individualista e egoísta. Agora, antes que o/a leitor/a recuse estas reflexões, sugiro que não procure matar o mensageiro. E, por fim, um desejo: que o Pai Natal das compras conviva com o Menino Jesus do amor.

Por Arménio Rego, LEAD.Lab, Católica Porto Business School
