Há por aí uma narrativa que procura mitigar a gravidade da invasão da Ucrânia com uma alegada humilhação a que a Rússia teria sido submetida após a queda do Muro de Berlim e a implosão do Império Soviético. Nuno Severiano Teixeira, Professor Catedrático na Universidade Nova de Lisboa, especialista em História Militar e Relações Internacionais, […]
Há por aí uma narrativa que procura mitigar a gravidade da invasão da Ucrânia com uma alegada humilhação a que a Rússia teria sido submetida após a queda do Muro de Berlim e a implosão do Império Soviético. Nuno Severiano Teixeira, Professor Catedrático na Universidade Nova de Lisboa, especialista em História Militar e Relações Internacionais, ex-Ministro da Defesa e da Administração Interna, tem desmontado a tese. A Rússia manteve o poder de veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas, recebeu ajuda técnica e económica dos EUA e da Europa, e foram-lhe criadas condições para a sua integração no sistema internacional. Fez parte do G8 – até ter anexado a Crimeia. Ao longo das décadas, sempre vimos Putin sentado, no mesmo palco, em companhia dos líderes das maiores potências. Os antigos satélites da URSS que aderiram à NATO fizeram-no de livre vontade, para escaparam à tirania. Tinham razões para isso, confirma-se agora mais do que nunca. E jamais fizeram bullying aos vizinhos.
Portanto, a Rússia e o seu autocrata impiedoso não foram humilhados – sentiram-se humilhados. Esse sentimento não é, de modo algum, argumento ético suficiente para justificar a barbaridade putiniana. Trump também se sentiu humilhado pela derrota eleitoral. Mas não podemos aceitar que o seu hiper-narcisismo desonesto o tenha conduzido a propalar a mentira de que a eleição lhe foi roubada. André Ventura, que se sente humilhado quando lhe apontam dislates racistas e xenófobos, torna-se malcriado e adota o papel da vítima. O PCP, que se sente humilhado pelas críticas dirigidas à sua cobarde e hipócrita posição sobre o conflito agora em curso, aponta as baterias acusatórias aos seus “inimigos”. Recorde-se que os dois eurodeputados do (anti-imperialista!) PCP votaram contra a resolução do Parlamento Europeu que condenou a invasão da Ucrânia, colocando-se do mesmo lado da barricada de extremistas da direita. Putin, que se sente humilhado pela resistência corajosa do povo ucraniano, mantem (e, quem sabe, agravará) a sua toada violenta. Eu, que sou o melhor professor deste Mundo e do outro, também me sinto humilhado por uma pergunta de um aluno a que não sei responder. Por isso, reprovo-o. O CEO da minha empresa, que se sentiu humilhado quando dele discordei, despediu-me.
O facto de alguém se sentir humilhado não é justificação para os seus atos agressivos e violentos. Caso contrário, teríamos de legitimar o sentimento de humilhação desenvolvido por líderes que não gostam de ser contrariados quando humilham os outros. Para vivermos em comunidade, com alguma paz, precisamos de acordar princípios de sã convivência, e atuar em conformidade. Argumentos de poder, força e grandeza imperial não são eticamente legítimos para justificar violações dos direitos humanos e da dignidade dos povos – mesmo quando esses argumentos são repetidos vezes sem conta e se transformam na nova normalidade. A literatura que ao longo de anos foi sendo publicada sobre Putin mostra que estamos perante um líder muito pouco recomendável. Humilha, sem qualquer pudor, mesmo alguns dos membros da sua entourage. Humilha violentamente um país soberano. Mente descaradamente. É nutrido por pulsões imperialistas. É o vértice de uma cleptocracia. Continua a ser apoiado por milhões e milhões dos seus concidadãos. Como podemos legitimar o seu sentimento de humilhação? Não sejamos anjinhos – nem com ele, nem com qualquer pequeno ou grande ditador que, na vida política ou na empresarial, usa a nossa fraqueza física e moral para nos agredir. Temamos tanto o ditador quanto os que, ativa ou passivamente, lhe acalentam a alma sórdida.
Este artigo foi publicado na edição de primavera da revista Líder
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