“Apesar de o teatro não ser a única arte com dimensões políticas, ele oferece um fórum único para o político, ao envolver o público numa realidade social perceptível, embora efémera, através do funcionamento das suas convenções” Amelia Howe Kritzer, no livro Political Theatre in Post-Thatcher Britain Desde as suas origens, na Grécia Antiga, o teatro […]
“Apesar de o teatro não ser a única arte com dimensões políticas, ele oferece um fórum único para o político, ao envolver o público numa realidade social perceptível, embora efémera, através do funcionamento das suas convenções”
Amelia Howe Kritzer, no livro Political Theatre in Post-Thatcher Britain
Desde as suas origens, na Grécia Antiga, o teatro vive do questionamento e do desafio às noções tradicionais de verdade e realidade. Intérpretes representam situações inventadas, ficcionais ou partindo da realidade concreta, que ressoam com o público, suscitando-lhe reacções, ou “verdades”, emocionais, a que Samuel Taylor Coleridge se referiu como “a suspensão voluntária da descrença (…), que constitui fé poética”. Isto sugere que a verdade não é apenas uma questão de factos objectivos, mas também de experiências e percepções subjetivas.
Em constante jogo de espelhos entre realidade e ficção, entre realismo e expressionismo, entre experiência directa e mediatizada, entre reflectir os tempos e empurrá-los para diante, o teatro vive de dicotomias, que são também matéria dramatúrgica e cénica, criando conflitos que impulsionam a acção.
Hoje, toda a nossa realidade parece tomada por dicotomias inescapáveis, e se algumas são operativas, muitas tornaram-se sinónimo de incomunicabilidade e polarização, reduzindo a pessoa à sua pertença tribal, em que o diálogo desaparece, adversários se tornam inimigos e toda a nuance é trucidada pelo imediatismo. A hipermediatização de todo o espaço, público e privado, e a monetização da nossa atenção promovida pela revolução capitalista digital têm minado a relação entre percepção e realidade, entre verdade e mentira. Parafraseando Mark Twain, não deixamos que os factos se oponham aos nossos sentimentos. Em opção, criamos “factos alternativos”. Se essa é matéria central ao teatro, não parece que devamos organizar a nossa sociedade com base nela, pois a suspensão da descrença não deve ser universal. Conseguirá uma Humanidade cada vez mais individualista e desigual, acicatada pelo medo, de doom scrollers viciados em dopamina e gratificação instantânea, dar conta do recado quanto ao “estado a que chegámos”?

E o teatro?
De cada vez que junta um conjunto de pessoas numa sala ou numa praça para assistir a um espetáculo ou participar numa obra, o teatro cria a sua própria realidade. O teatro é realidade artística mas também social, ao convocar a empatia, a curiosidade e a generosidade de públicos e participantes para com eles próprios e para com o acto teatral. Ao desafiar as expectativas dos públicos e subverter convenções culturais, o teatro pode abrir espaço para novas maneiras de pensar e perceber o mundo. Ele permite que as pessoas experimentem realidades alternativas e imaginem possibilidades de outra forma impossíveis. O teatro pode servir como um espelho, distorcido ou não, da sociedade, reflectindo suas contradições, conflitos e complexidades. Ao confrontar os públicos com essas realidades, ficcionadas ou não, desconfortáveis ou não, o teatro convida-nos a validar ou questionar as nossas próprias crenças e preconceitos, contribuindo para um diálogo mais amplo sobre verdade, falsidade e a natureza da realidade. O teatro desafia-nos para experiências não previamente digeridas e “algoritmizadas” à exaustão. Teatro é liberdade e conhecimento. E estas são ainda as melhores armas que temos contra o medo. O teatro contém por isso antídotos para uma realidade opressiva, alienante, que nos isola dos nossos pares e nos confina a câmaras de eco cada vez mais estreitas. E não é isso político? Não é necessária uma peça de teatro “sobre” política para que o acto teatral o seja.
Por muito que a percepção que dela há já tenha visto melhores dias, a política é, na realidade, atividade nobre e necessária. O nosso contrato social, a organização da nossa polis, tantas vezes sob ameaça, exige-nos política, políticas e políticos. Numa sociedade democrática como a que queremos manter, todos somos políticos e a política reflecte quem somos. Assumamos assim o papel político de cada pessoa e de cada instituição, também as teatrais, promovendo a democracia e o diálogo e rejeitando a incomunicabilidade e o medo.
Se houve momento nas nossas vidas em que o teatro foi necessário, esse momento é, então, agora. Uma assembleia humana em torno de um objecto artístico parece-me um bom ponto de partida. O teatro pode mudar tudo. Não tem de, mas pode. Porque, sem ele e sem tudo o que representa, poderemos sempre questionar-nos, como faz o músico Perry Farrell em Pets, da banda Porno for Pyros:
Will there be another race
To come along and take over for us?
Maybe martians could do better
than we’ve done
We’ll make great pets!
Nota: Artigo escrito segundo a antiga ortografia
Este artigo foi publicado na edição de verão da revista Líder com o tema de capa A Grande Questão: Verdadeiro ou Falso?. Subscreva a Líder aqui.

