Em mais uma crónica excelente no Financial Times, Gideon Rachman, autor de A Era do Homem Forte (Vogais), defende uma tese interessante: a de que a Rússia, bem necessitada de um De Gaulle, recebeu afinal uma cópia pálida de Ivan, o Terrível. Vale a pena considerar o tema por alturas de maio, o mês em […]
Em mais uma crónica excelente no Financial Times, Gideon Rachman, autor de A Era do Homem Forte (Vogais), defende uma tese interessante: a de que a Rússia, bem necessitada de um De Gaulle, recebeu afinal uma cópia pálida de Ivan, o Terrível. Vale a pena considerar o tema por alturas de maio, o mês em que a Rússia celebra, com pompa e circunstância, o dia da vitória. Mas qual o legado dessa vitória, a da II Guerra Mundial?
A tese de Rachman é a de que o general francês percebeu várias coisas importantes. Primeiro, num mundo pós-imperialista, a França deveria abrir mão da Argélia em vez de a querer manter a todo o custo. Segundo, a França nunca poderia deixar de ser grande mas o significando de grandeza não é exclusivamente territorial. Terceiro, numa sociedade moderna, a grandeza passa pelo soft power e pela admiração. A França é admirada pela cultura, o desporto, a gastronomia, a sofisticação. Putin, ao invés, atuou como um imperialista de outros tempos.
A De Gaulle é muitas vezes apontado um traço autoritário. Mas a verdade é que sempre respeitou as regras do jogo democrático, incluindo a mais importante de todas: a transmissão do poder na senda de processos eleitorais. Putin segue o exemplo de Estaline, que considerava que, mais importante do que a maneira como a pessoas votavam, era saber quem contava os votos e como os contava. Infelizmente para o mundo, este tipo de político parece estar na moda, como o próprio Rachman tem explicado. Para melhor compreender a mente russa volto a recomendar o excelente Guerra ou Paz de Mikhail Shishkin.
