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Home Notícias Saúde Saúde em Portugal: desigualdades persistem e mais de metade dos portugueses recorre à automedicação

Saúde

Saúde em Portugal: desigualdades persistem e mais de metade dos portugueses recorre à automedicação

Saúde em Portugal: desigualdades persistem e mais de metade dos portugueses recorre à automedicação

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14 Janeiro, 2026 | 9 minutos de leitura

Em 2025, as barreiras no acesso a cuidados de saúde em Portugal continuam a situar-se acima dos níveis pré-pandémicos, com um impacto particularmente acentuado nas populações socioeconomicamente mais vulneráveis. Adicionalmente, mais de metade dos portugueses já recorreu à automedicação, o que revela desigualdades no acesso a cuidados de saúde.

As conclusões são dos relatórios Acesso a Cuidados de Saúde 2025 e Automedicação em Portugal: Práticas, Determinantes e Perfis Comportamentais, que caracterizam as escolhas feitas pelos cidadãos desde o momento em que sentem a possibilidade de doença, identificando barreiras no acesso a cuidados de saúde e discutindo as implicações para a equidade e eficiência do sistema de saúde. Analisam ainda a forma como os residentes em Portugal gerem, no quotidiano, episódios de doença através do recurso à automedicação.

Os investigadores da Nova SBE Pedro Pita Barros (detentor da Cátedra BPI | Fundação ‘la Caixa’ em Economia da Saúde, no âmbito da Iniciativa para a Equidade Social, uma parceria entre a Fundação ‘la Caixa’, o BPI e a Nova SBE) e Carolina Santos são os autores de ambos dos relatórios.

 

Mais episódios de doença, sobretudo entre jovens e populações vulneráveis

A investigação sobre o acesso aos cuidados de saúde parte da análise dos episódios de doença e revela que, em 2025, 45,5% dos inquiridos reportaram ter tido pelo menos um episódio de doença (um aumento de 3,2 pontos percentuais face a 2023, aproximando-se do máximo registado em 2015 – 46,3%). Embora a probabilidade de ocorrência de episódios de doença aumente com a idade, no período em análise observou-se uma atenuação do gradiente etário provocada por um aumento significativo da incidência de episódios de doença entre os grupos mais jovens (em particular no grupo 15 e os 29 anos, onde a proporção de indivíduos que se sentiram doentes subiu para 36,7%, mais 11,4 pontos percentuais do que em 2023). Este agravamento foi especialmente significativo entre mulheres em situação socioeconómica mais desfavorável.

Paralelamente, mantém-se um forte gradiente socioeconómico na ocorrência de episódios de doença com 67% dos indivíduos do escalão económico mais desfavorecido (vs 39% entre os escalões mais favorecidos) a reportarem ter sofrido um episódio de doença.

 

Aumenta o recurso à automedicação e diminui a procura de ajuda profissional

Em 2025 a percentagem de indivíduos que ao sentirem-se doentes não recorreram a ajuda profissional no sistema de saúde, aumentou, passando de 11,26% em 2023 para 14,26% em 2025. Entre os indivíduos que, ao sentirem-se doentes, optam por não recorrer a auxílio profissional, 76,4% optaram pela automedicação (sobretudo com base em experiências anteriores com problemas de saúde semelhantes) e cerca de 23,6% preferiram aguardar pela melhoria dos sintomas.

Estes dados cruzam-se com o relatório sobre automedicação, que explica que mais de metade da população residente em Portugal continental (51,85%) já recorreu à automedicação em algum momento da sua vida. O estudo – baseado num inquérito realizado em dezembro de 2022 junto de 1.066 indivíduos com 15 ou mais anos – revela que a automedicação é uma prática generalizada.

Entre os indivíduos que se automedicaram, cerca de sete em cada dez (68,85%) referiram que, na experiência mais recente, o problema de saúde ficou resolvido sem necessidade de recorrer posteriormente a cuidados de saúde profissionais. A automedicação é utilizada sobretudo para tratar sintomas de gripe ou constipação (53,05%) e dores de cabeça (21,12%), mas estende-se também a problemas mais sensíveis, como ansiedade, depressão, asma ou outras doenças crónicas, o que levanta preocupações acrescidas.

Apesar da taxa global de sucesso, o relatório mostra que níveis mais elevados de confiança na automedicação estão associados a menor probabilidade de sucesso, sugerindo que o excesso de confiança pode conduzir a decisões menos adequadas.

 

Baixa perceção de gravidade, tempos de espera e custos afastam cidadãos dos cuidados de saúde

A decisão de não procurar cuidados de saúde é maioritariamente justificada pela perceção de baixa gravidade do problema, mantendo-se também os tempos de espera como uma das razões mais frequentemente apontadas (à semelhança do observado em 2023 no relatório Acesso a Cuidados de Saúde 2025).

De entre a população que recorre a serviços de saúde, os indivíduos com 65 ou mais anos são o grupo que apresenta uma maior probabilidade de recorrer ao sistema de saúde (refletindo uma maior perceção de risco de problema sério) e, à semelhança de anos anteriores, a ocorrência de problemas inesperados mantém-se como o principal motivo que leva à procura de cuidados de saúde.

As barreiras financeiras continuam a constituir o principal entrave ao acesso a cuidados de saúde em Portugal, com um acentuado gradiente socioeconómico, particularmente no acesso à medicação. Os indivíduos em situação de maior privação económica apresentam uma probabilidade significativamente superior de não adquirir toda a medicação necessária ao tratamento de um episódio de doença. Este diferencial agravou-se nos últimos anos: enquanto em 2023 a diferença face aos escalões socioeconómicos mais favorecidos era de 40 pontos percentuais, em 2025 aumentou para 51 pontos percentuais.

Os indivíduos dos escalões socioeconómicos mais baixos apresentam também maior probabilidade de não recorrer a consultas ou serviços de urgência por motivos financeiros. Ainda que este gradiente tenha diminuído entre 2023 e 2025 (passando de 21 para 11 pontos percentuais), a existência de barreiras financeiras no acesso a cuidados de saúde sugere que as barreiras financeiras vão além das taxas moderadoras, cuja eliminação progressiva não foi suficiente para eliminar estas desigualdades.

 

Barreiras financeiras e organizacionais continuam a condicionar o acesso ao SNS

Os resultados mostram ainda que os medicamentos prescritos continuam a representar a principal rubrica de despesa suportada pelos cidadãos, na sequência de uma ida aos cuidados de saúde primários do SNS ou de um serviço de urgência do SNS, e mais de metade dos indivíduos em situação de maior privação económica reportaram não conseguir adquirir toda a medicação necessária, evidenciando que as necessidades de saúde não satisfeitas continuam a estar fortemente associadas a barreiras financeiras persistentes.

No que respeita às barreiras não financeiras, entre 2023 e 2025 registou-se um aumento significativo da probabilidade de cancelamento de consultas e exames por iniciativa do prestador. Em 2025, verifica-se um acentuado gradiente socioeconómico nos cancelamentos de consultas e exames com a probabilidade a variar entre 2,65% nos escalões socioeconómicos mais favorecidos e 19,76% no escalão mais desfavorecido. «Este padrão não deverá, contudo, ser interpretado como discriminação ativa do SNS, uma vez que poderá resultar, por exemplo, de desigualdades territoriais na disponibilidade de recursos humanos em saúde», referem os investigadores.

No que respeita à utilização dos serviços de saúde, entre 2022 e 2025 registou-se uma diminuição da probabilidade de recorrer exclusivamente ao SNS: embora este continue a ser a principal resposta para a larga maioria da população, o recurso exclusivo ao SNS passou de 88% em 2023 para 82% em 2025.

Os cuidados de saúde primários continuam a ser os mais procurados no SNS, sendo de destacar o aumento significativo da utilização da linha SNS 24 resultante do programa “Ligue antes, salve vidas” que não só ajudou a reduzir a procura por urgências no SNS como não provocou um aumento das idas às urgências privadas, tendo incrementado o recurso aos cuidados primários do SNS e a consultas no setor privado.

Este padrão é consistente com os dados aferidos que mostram que 34,40% dos inquiridos já recorreram à linha SNS 24 em algum momento para aconselhamento ou orientação em saúde: menos de metade (47,87%) foi encaminhada para um serviço de urgência hospitalar do SNS, 23,36% foram direcionados para os cuidados de saúde primários do SNS e 23,34% receberam indicação para permanecer em casa e monitorizar os sintomas. Importa ainda salientar o elevado grau de adesão às recomendações fornecidas – 96,9% dos indivíduos encaminhados para as urgências hospitalares efetivamente recorreram a este serviço e 83,58% dos que foram encaminhados para cuidados de saúde primários deslocaram-se à unidade indicada.

 

Menos médicos de família no SNS agravam desigualdades e reforçam recurso ao privado

O relatório evidencia ainda desafios estruturais persistentes. A cobertura por médico de família no SNS diminuiu de forma significativa, passando de 91% em 2019 para 79% em 2025, com desigualdades claras em função da condição socioeconómica e da região de residência. A escassez de médicos de família afeta de forma mais pronunciada os indivíduos pertencentes a escalões socioeconómicos mais desfavorecidos, bem como os residentes no Algarve, na Grande Lisboa e no Centro Litoral.

Esta realidade tem contribuído para um maior recurso a soluções no setor privado: em 2025, a probabilidade de um indivíduo ter médico de família no setor privado ascendia a 14,79%, mesmo após controlo pelas características socioeconómicas da população e pela cobertura no SNS. Perante um episódio de doença, os indivíduos com médico de família no privado apresentam uma maior probabilidade de recorrer exclusivamente a cuidados de saúde nesse setor, influenciando de forma estrutural os padrões de acesso e utilização dos cuidados de saúde.

Por último, a análise da perceção de cuidados prestados com dignidade, compaixão e respeito revela melhorias significativas na população com 80 ou mais anos. Em 2025, a probabilidade deste grupo etário reportar uma experiência positiva ascendeu a 85%, o que representa um aumento de 15 pontos percentuais face a 2023. Ainda assim, em termos globais, os níveis de satisfação com a humanização dos cuidados de saúde permanecem abaixo dos registados nos períodos pré-pandémico e pandémico.

Redação,
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