O modelo tradicional de inovação fechada na banca está a esgotar-se. De acordo com um estudo da KPMG, num setor onde a velocidade tecnológica supera a capacidade de adaptação isolada das instituições, as parcerias deixam de ser complementares e passam a estruturais.
«A Inteligência Artificial deixou de ser um tema experimental para se tornar um fator decisivo para a competitividade no setor bancário», afirma Rui Gonçalves, Head of Technology Consulting da KPMG em Portugal. Para o responsável, os bancos que não conseguirem desenvolver ecossistemas de parceria em torno desta tecnologia «arriscam-se a perder relevância, tanto junto dos clientes como no mercado».
Esta perceção é corroborada por outro estudo da consultora, o Banking Technology Survey 2025, segundo o qual 74% dos executivos bancários planeiam expandir as suas redes de parceiros nos próximos um a três anos. Mais de metade admite, ainda, estar a explorar novos tipos de alianças para acelerar a inovação, ganhar escala e alcançar novos segmentos de clientes.
Inteligência Artificial ainda concentrada no back-office
Apesar do discurso sobre transformação, a aplicação prática da Inteligência Artificial na banca continua, em grande medida, limitada a funções internas. Automação de processos, deteção de fraude, monitorização de compliance e previsão financeira são hoje os principais casos de uso.
Ainda assim, os resultados começam a ser visíveis. O Banking Technology Survey revela que 70% dos líderes bancários nos Estados Unidos já reportam poupanças significativas de custos associadas à implementação de soluções de IA nos seus ecossistemas operacionais.
Para a KPMG, estes ganhos representam apenas uma parte do potencial da tecnologia.
Do front-office à experiência do cliente
O verdadeiro impacto da Inteligência Artificial, defende o estudo, surgirá quando a tecnologia for aplicada de forma consistente nas áreas de contacto com o cliente. A utilização de IA no front-office poderá permitir experiências mais personalizadas, apoio mais proativo e o desenvolvimento de novos produtos e serviços financeiros.
A área dos pagamentos surge como um dos principais vetores dessa mudança. Segundo o relatório Alliance or obsolescence, apenas 6% dos bancos utilizam atualmente soluções de pagamento baseadas em Inteligência Artificial. No entanto, a KPMG estima que esse valor possa atingir os 58% no prazo de um ano.
Esta aceleração ocorre num contexto de crescente entrada de empresas tecnológicas e grandes retalhistas no espaço financeiro, com propostas digitais integradas e altamente convenientes, aumentando a pressão competitiva sobre os bancos tradicionais.
Clientes disponíveis para maior personalização
Do lado da procura, os dados apontam para uma abertura significativa à utilização de dados pessoais para efeitos de personalização. O estudo indica que 54% dos consumidores gostariam que o seu banco utilizasse os seus dados para oferecer experiências mais ajustadas, desde recomendações de produtos até apoio mais próximo na gestão financeira.
Para a KPMG, esta recetividade reforça a necessidade de investir em ferramentas de personalização suportadas por Inteligência Artificial e em parcerias que tragam dados, modelos analíticos e competências especializadas que muitas instituições não detêm internamente.
Inovação com controlo de risco
A consultora alerta, no entanto, que a aceleração tecnológica implica riscos acrescidos. O estudo identifica cinco prioridades críticas para os bancos que avancem para modelos de ecossistema baseados em Inteligência Artificial: o reforço da gestão de risco de terceiros, o alinhamento das práticas de cibersegurança com parceiros, a melhoria da governação e qualidade dos dados, o acompanhamento da evolução regulatória — incluindo o novo enquadramento europeu para a Inteligência Artificial — e a definição de protocolos específicos de compliance e auditoria para sistemas baseados nesta tecnologia.
Será neste equilíbrio entre inovação, parcerias e controlo que se jogará a relevância futura do setor bancário.


