A edição de 2026 da Leading People – International HR Conference, realizada no Centro Cultural de Cascais sob o mote 'Human Experience: From Workforce to People Force', trouxe para o centro do debate a necessidade urgente de reformular o paradigma organizacional. Num mundo onde tecnologia, empatia, longevidade profissional e bem-estar coexistem, uma questão ganha cada vez mais força: os locais de trabalho são apenas espaços físicos ou devem transformar-se em experiências humanas?
No momento ‘Para lá do Escritório’, a jornalista Rita Rugeroni Saldanha sentou-se à conversa com Jos Duchamps, Managing Director do Procos Group, para analisar o impacto desta transição acelerada e os desafios que se colocam hoje aos gestores e diretores de Recursos Humanos.
Beyond The Office: Are We Designing Workplaces Or Human Experiences?
O fim do escritório como mera plataforma de trabalho
Segundo Jos Duchamps, «o conceito tradicional de escritório está obsoleto». Há 30 anos, as organizações dependiam de um espaço físico centralizado porque era lá que se concentravam as ferramentas necessárias para os trabalhadores do conhecimento: o telefone, os arquivos, as máquinas de escrever (e mais tarde os computadores) e, acima de tudo, a própria informação e os colegas.
Com a aceleração tecnológica ditada pela pandemia da COVID-19, todas estas componentes tornaram-se acessíveis a partir de qualquer lugar. O desafio atual dos Recursos Humanos passa, por isso, por criar novos modelos que sejam suficientemente dinâmicos e atraentes para justificar a deslocação dos colaboradores.
«O escritório já não é aquela plataforma [tradicional], mas tornou-se, ou deveria tornar-se, uma plataforma para as pessoas colaborarem», explicou o Managing Director do Procos Group, apontando para a urgência de transformar estes locais em «plataformas comunitárias» de partilha e coesão estratégica.
O paradoxo híbrido e a barreira tecnológica
Um dos maiores desafios identificados pelas lideranças atuais prende-se com o chamado «paradoxo híbrido» — o equilíbrio ideal entre dar autonomia à organização e garantir o cumprimento das metas estratégicas. Encontrar esse «ponto perfeito» exige, de forma inevitável, a adoção de novas tecnologias, uma área onde Duchamps ainda deteta alguma relutância, tanto por parte dos profissionais de RH como da gestão de instalações (facility management).
Para ilustrar a eficácia da tecnologia na gestão de espaços modernos, o engenheiro partilhou o exemplo da sede do banco BNP Paribas em Bruxelas. O edifício dispõe de 4000 postos de trabalho para um universo de 8000 colaboradores que operam num modelo híbrido. Sem uma infraestrutura tecnológica totalmente integrada para gerir os fluxos diários, o espaço tornar-se-ia inviável caso todos decidissem comparecer ao mesmo tempo.
O impacto financeiro da gestão estratégica de espaços
Duchamps recorreu a uma célebre frase de Winston Churchill, proferida em 1943 durante a reconstrução da Câmara dos Comuns, para sublinhar a importância da arquitetura no comportamento humano: «Na verdade, nós moldamos os edifícios e, depois, os edifícios moldam-nos a nós.»
Para além do impacto cultural e do bem-estar das equipas, a gestão estratégica de instalações assume um peso financeiro crítico. Olhando para o cenário de Lisboa, o responsável apresentou dados expressivos sobre o potencial de otimização:
Universo: Cerca de 300 000 profissionais de colarinho branco trabalham em escritórios comerciais na área de Lisboa (excluindo os setores da educação e governamental).
O Cenário Híbrido: Assumindo que 50% destes profissionais trabalham remotamente dois a três dias por semana, seria possível prescindir de 50% dos seus postos de trabalho físicos.
A Poupança: Esta redução traduz-se em menos 75 000 postos de trabalho. Multiplicando pelo custo médio de manutenção de cerca de 6000 euros por metro quadrado/ano, a poupança anual estimada para as empresas da região de Lisboa poderia alcançar os 450 milhões de euros.
«A gestão de instalações deve subir de nível e falar diretamente com o CEO para demonstrar que é capaz de apoiar os objetivos da organização muito mais do que faz hoje», afirmou.
Projeto ADOFF: o escritório como um sistema dinâmico
Com vista a criar soluções flexíveis para esta nova realidade, o Procos Group integra atualmente o Adaptive Office (Projeto ADOFF), uma iniciativa de investigação com a duração de três anos que terminará em 2028. Apoiado pelo programa europeu ITEA (Information Technology for European Advancement), o consórcio reúne oito parceiros da Bélgica e de Portugal focados em reimaginar o escritório moderno a partir de três eixos fundamentais:
O Layout: Adaptar os espaços físicos às expectativas das novas gerações (nativos digitais entre os 20 e os 30 anos), privilegiando áreas de encontro e colaboração.
O Controlo: Integrar sistemas de gestão de edifícios inteligentes capazes de ajustar fatores como a humidade e a temperatura em tempo real, consoante a ocupação do piso.
O Impacto Pessoal: Desenvolver «casulos» (cocoons) de trabalho individuais. Em parceria com uma empresa de iluminação, o projeto testa painéis de teto inclináveis e sistemas de luz personalizados que comunicam através de aplicações, adaptando-se ao estado anímico e à tarefa do colaborador.
A recolha contínua de dados nestes ambientes de teste visa fechar o ciclo de decisão, transformando o escritório tradicional num sistema dinâmico e em constante evolução. Adicionalmente, o projeto estuda a integração de avatares e Inteligência Artificial como ferramentas complementares de interação para responder aos hábitos de comunicação das novas gerações.
As competências do líder do futuro
Instado a partilhar a sua visão sobre as competências essenciais para as lideranças de Recursos Humanos num ecossistema cada vez mais tecnológico, Jos Duchamps destacou a transição da mera gestão de processos para uma cultura de mentoria (coaching).
Num contexto global fortemente condicionado pelas exigências de cibersegurança e pelo isolamento corporativo, o engenheiro defende que os futuros líderes terão de demonstrar flexibilidade e capacidade de abertura ao exterior. A criação de centros de inovação partilhados entre diferentes empresas surge, na ótica do especialista, como o caminho indispensável para romper barreiras e potenciar a inovação organizacional.
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Tudo o que aconteceu na Leading People está disponível na Líder TV – em www.lidertv.pt e nos canais 165 do MEO e 560 da NOS.
Além disso, à chegada, todos receberam a mais recente edição da revista Líder. Dentro do tema de capa – Condição Humana – encontram-se reflexões, entrevistas e artigos que aprofundam o debate deste dia.


