“In order to burn out, a person needs to have been on fire at one time.” Ayala Pines, Psicóloga e Investigadora António Horta Osório, Marisa Matias e Vanessa Fernandes. O que têm em comum um executivo da banca, uma deputada e uma atleta de alta competição? São testemunhos de quem assumiu ter atingido o limite. […]
“In order to burn out, a person needs to have been on fire at one time.”
Ayala Pines, Psicóloga e Investigadora
António Horta Osório, Marisa Matias e Vanessa Fernandes. O que têm em comum um executivo da banca, uma deputada e uma atleta de alta competição? São testemunhos de quem assumiu ter atingido o limite. São pessoas que publicamente mostraram o seu lado vulnerável, indissociável da condição humana, mas que, ainda hoje, se esconde. Num momento em que a saúde mental está no centro das atenções do Mundo global, ainda são poucos os que assumem o lado frágil e legítimo da natureza humana.
Insónias, cansaço extremo, o corpo a chegar ao limite da sua capacidade física e psíquica, sofrimento emocional e depressão. São vários os sinais e definições de stress, mas numa frase, Cary Cooper, uma das autoridades mundiais em stress ocupacional, define como uma situação que “ocorre quando a pressão excede a capacidade da pessoa em lidar com a mesma”. E quando a pressão se torna incomportável, entra-se em rutura, em burnout.
A síndrome de burnout ganhou destaque pela Organização Mundial de Saúde ao ser incluído na sua classificação internacional de doenças, em 2019, como um fenómeno ocupacional, isto é, por “culpa” do trabalho e não de uma condição médica. Pelas piores razões, no início de 2021, Portugal ocupava o primeiro lugar de um ranking que avaliou o risco de burnout nos 26 países da União Europeia. Dados da Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho, referem que um em cada quatro trabalhadores europeus sofre de stress no local de trabalho, e que um em cada cinco, de estado grave de fadiga física e emocional (burnout).
As manifestações já existem antes de se chegar à situação limite, com o aumento da libertação de hormonas de stress, do ritmo cardíaco, da tensão arterial e muscular, medo, tensão, ansiedade, fúria e a diminuição da capacidade cognitiva. Acontecimentos inesperados, intensos e conflituais induzem o stress, bem como o sentimento de ameaça ou desafios pessoais que decorrem de tomadas de decisão difíceis e esforços excessivos. Em três perfis distintos, de personalidades, ocupações e desempenhos profissionais a Líder mostra três pessoas que hoje têm em comum uma clara consciencialização dos seus limites e sabem que não estão sozinhas no seu testemunho.
“Não se pode estar para sempre no pico da performance “
António Horta Osório, 57 anos
Novembro de 2011, oito meses após ter assumido o cargo de CEO do Lloyds Banking Group, António Horta Osório anuncia que iria fazer uma pausa do trabalho por fadiga. A notícia caiu como uma bomba no meio executivo de topo – um líder de excelência sucumbia ao cansaço extremo, apesar dos elogios à sua performance na árdua tarefa que lhe coube. Uma restruturação profunda da instituição que dirigia e que implicou o corte de 15 mil postos de trabalho e o fecho de mais de 600 balcões em todo o mundo. O desafio era de tal ordem, que, no limite, deixou de dormir.
“Era um problema constante na minha cabeça, o que me levou a dormir cada vez menos. E dormir cada vez menos levou-me à exaustão, até deixar de vez de dormir”, refere num testemunho que em 2020 partilhou com a BBC. E durante oito semanas parou. Essa experiência pessoal levou-o a reavaliar a importância da saúde mental para os 65 000 funcionários do banco.
“Tive vantagem no sentido de ter passado por uma experiência pessoal que me ajudou a ser mais sensível, mas não acho que seja necessário. Aprendi da pior maneira. Pelo menos uma em cada três pessoas passa por um problema de saúde mental ao longo da vida. É muito mais comum do que se imagina”, afirma.
Hoje, a sua aprendizagem passa por saber que “não se pode estar para sempre no pico da performance”, sendo essencial o equilíbrio entre períodos de alta intensidade com fases de descanso, como “ter férias para pensar em coisas diferentes e regenerar o corpo e a mente”. Para o executivo, o sono é a chave para garantir uma performance equilibrada e por um período longo, devendo por isso ser “protegido”. E deixa ainda o alerta para as empresas que ignoram as questões da saúde mental, pois correm o risco de “destruir a vida e a família dos seus funcionários”.
Em junho de 2021 saiu do Lloyds, terminando um ciclo de 10 anos enquanto líder e mentor de uma operação que se revelou um sucesso. Na sua carta de despedida, publicada em abril de 2021, o atual Diretor não-executivo da Fundação Champalimaud, enaltece a necessidade de conhecer os objetivos bem como os limites de cada um. “Aprendi da maneira mais difícil que nenhum de nós é invencível”, acrescentando ainda que “somos mais fortes quando temos uma avaliação honesta das nossas forças e fraquezas”.
“Assustei-me quando percebi que podia não recuperar as minhas capacidades cognitivas”
Marisa Matias, 45 anos
“A sensação que tenho é que, quando foi a campanha das Europeias de 2019, eu já não estava bem”. Não sendo capaz de identificar o primeiro momento em que percebeu os sintomas de burnout, Marisa Matias, eurodeputada do Bloco de Esquerda, partilhou em outubro de 2021 a sua experiência de ter chegado ao limite das suas capacidades físicas e psíquicas.
Uma ansiedade e um desconforto generalizado, ataques de pânico e a sensação que ia morrer. As insónias também surgiram, chegando a dormir quatro a cinco horas por dia.
Na iniciativa “Labirinto – Conversas sobre Saúde Mental”, do Observador em parceria com a FLAD, Marisa Matias fala pela primeira sobre o seu caso pessoal, em que percebeu que algo já não estava bem no verão de 2019. Para além de uma enorme ansiedade, sentia-se “bloqueada”, incapaz de “controlar as pernas ou os braços”. Pensou tratar-se de um problema neurológico grave. Até que os ataques de pânico começaram a acontecer todas as semanas. Como descreve, “de repente, o coração dispara, falta de ar, dor, um aperto no peito. É mesmo a sensação de que acabou.”
Quando, por conselho de uma colega, procurou ajuda psiquiátrica, diz ter-se sentido “descontente por ter demorado tanto tempo a identificar os sintomas”. E por isso, quando foi feito o diagnóstico, “já estava numa situação extrema”. O tratamento passava por medicação, e pelo maior desafio de todos: parar de trabalhar. A sua vida era, até então, exclusivamente centrada na sua atividade. Quando fez terapia não tinha resposta sobre o que fazia nos seus tempos livres.
Hoje reconhece que essa paragem foi absolutamente necessária, pois no momento do diagnóstico apercebeu-se que as suas próprias capacidades cognitivas estavam comprometidas. “Assustei-me quando percebi que podia não recuperar as minhas capacidades cognitivas”, desabafa. Após alguns meses de recuperação, pouco tempo depois surgem as eleições à Presidência da República, a que se candidatou com o consentimento médico.
Hoje, Marisa Matias refere o sono e o tempo de descanso para “recuperar e esvaziar a cabeça”, como um ponto de honra na sua vida. “Passei a ter tempo para mim, para ler, estar com amigos e família”, diz a eurodeputada que nas redes sociais partilhou a razão pela qual quis assumir o seu caso. “Hesitei muito se devia ou não falar dos problemas que enfrentei há mais de um ano com um esgotamento. Decidi fazê-lo porque é urgente normalizar o debate sobre a saúde mental e combater o preconceito. Ninguém está sozinha”, escreveu.
“De repente deixei de saber onde estava”
Vanessa Fernandes, 36 anos
Jogos Olímpicos de Pequim, 2008, Vanessa Fernandes conquistou a primeira (e única) medalha do triatlo português, prova em que alinhou já com o diagnóstico de depressão. “De repente deixei de saber onde estava. Era tudo ou nada. Tu entregares a tua vida ao Mundo”, diz hoje quando se refere ao dia 18 de agosto de 2008, minutos antes de começar uma das provas mais duras do desporto olímpico de alta competição.
A curta-metragem “72 horas antes”, realizada por Miguel C. Saraiva, e partilhada pelo Youtube em outubro de 2021, mostra o “lado negro”, a história real de uma jovem que no limite das suas forças mentais e físicas chegou ao pódio doente.
Tudo começou quando tinha 16 anos e se mudou para o Centro de Alto Rendimento no Jamor, onde trabalhava das seis da manhã às oito da noite, entre treinos e aulas. O aproveitamento escolar acabou por ficar penalizado, o foco era correr mais e Vanessa achava que nunca era suficiente. Até os períodos de descanso, aos fins-de-semana, quando ia a casa dos pais, eram mal vistos pelos treinadores.
“Se perderes peso consegues correr mais”, ouvia e assim perdia quilos para ganhar segundos. Com isso começaram os distúrbios alimentares, com episódios bulímicos constantes. As expetativas sobre si eram enormes, e Vanessa sentia a pressão dos treinadores, de toda a instituição e até povo português. A mensagem que sempre ouvia era a de que era preciso “sofrer, sofrer, sofrer” e até “sofrer até morrer”. Sentia a responsabilidade sobre os seus ombros, tinha de ganhar. Colocou a meta de ir aos Jogos Olímpicos, cortar a meta e ganhar a medalha, “se morrer a seguir está tudo bem”, afirma.
Envolta num secretismo, em que os episódios de choro e de comer compulsivamente já se tornavam cada vez mais frequentes, competiu mesmo assim. Hoje admite que “aquilo que eu permiti fazer a mim própria também foi o que permiti que os outros me fizessem”, quando diz que durante esses momentos decisivos teve de manter uma capa quando sabia que por dentro estava destroçada.
“Para ser a melhor do Mundo tens de aparentar estar sempre top – não se pode dar parte fraca”, e assim Vanessa chegou ao limite – “é literalmente acabar com a vida”, diz a triatleta que hoje assume ter sido “escrava do próprio sucesso”.
No dia da competição, ganha pela australiana Emma Snowsill, Vanessa Fernandes contou com o importante apoio da mãe e explica como foi capaz de atingir o pico da sua performance e ganhar a medalha de prata: “Entras num espetáculo, no modo perfeito de uma máquina de competição. És o Deus, és invencível, és o maior.” A seguir foi internada.
Hoje, treze anos depois, diz: “Olho para isso como um grande caminho de acordar para o meu próprio desenvolvimento pessoal. A escolha está sempre em ti. A seguir vem vida”. Depois do sucesso olímpico, Vanessa Fernandes voltou aos Jogos no Rio, em 2016, como suplente na maratona, tendo, no ano seguinte, tentado o seu regresso ao triatlo.
Por Rita Saldanha
Fontes: Observador, Expresso, Público, BBC, Youtube
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