Os países com maiores disparidades de rendimentos tendem a apresentar pior desempenho num índice de indicadores sociais e de saúde da população. O índice incorpora variáveis como homicídios e crime violento, abuso de drogas, abandono escolar precoce, maternidade juvenil, esperança média de vida, mortalidade infantil, obesidade e doença mental. Por exemplo, a esperança média de […]
Os países com maiores disparidades de rendimentos tendem a apresentar pior desempenho num índice de indicadores sociais e de saúde da população. O índice incorpora variáveis como homicídios e crime violento, abuso de drogas, abandono escolar precoce, maternidade juvenil, esperança média de vida, mortalidade infantil, obesidade e doença mental. Por exemplo, a esperança média de vida é menor nos países mais desiguais. O crescimento das desigualdades também parece estar associado a maior polarização política. Keith Payne, professor de psicologia na Universidade da Carolina do Norte, e autor de um livro sobre como a desigualdade desestabiliza as sociedades, escreveu:
“A desigualdade afeta as nossas ações e os nossos sentimentos do mesmo modo sistemático e previsível, repetidamente. Torna-nos míopes e propensos para comportamentos arriscados, dispostos a sacrificar um futuro certo por uma gratificação imediata. Inclina-nos para tomar decisões autodestrutivas. Faz-nos acreditar em coisas esquisitas, apegando-nos supersticiosamente mais ao mundo que desejamos do que ao que temos perante nós. A desigualdade afasta-nos, entrincheirando-nos em campos diferentes, não apenas económicos, mas também ideológicos e raciais, erodindo a nossa confiança nos outros. Gera stresse e torna-nos menos saudáveis e felizes”.
Como se explica o impacto negativo da desigualdade acentuada sobre a saúde dos cidadãos e o capital social das sociedades? Porque tantos líderes políticos e instituições como o Fórum Económico Mundial, o Banco Mundial e as Nações Unidades descrevem essa desigualdade como um dos problemas mais importantes do nosso tempo e um dos que suscita mais custos sociais, políticos e económicos? A resposta parece assentar nos menores níveis de coesão, confiança e relacionamentos sociais saudáveis. Pode também ser explicada pelos comportamentos de risco das classes mais pobres, ao compararem-se com os cidadãos cujas vidas são incomensuravelmente mais abastadas – riscos esses que contribuem para reforçar a desigualdade.
Em sociedades muito desiguais, numerosas pessoas desenvolvem sentimentos de desamparo e experienciam stresse. Essas pessoas revoltam-se e praticam atos violentos. Têm menos possibilidades de cuidar devidamente de si próprios e das suas famílias. Não vislumbrando possibilidades de um futuro atraente, tomam decisões mais impulsivas que permitem auto-gratificação imediata – embora problemáticas para o seu futuro. Experienciam sentimentos de exclusão e rejeição, e maior sofrimento social. Nascendo em ambientes familiares problemáticos, e sentindo-se apeados de oportunidades de ascensão social e económica, os cidadãos mais pobres dessas sociedades muito desiguais reproduzem as histórias de vida dos seus pais. Alguns sucumbem à oportunidade de fruir de melhores condições materiais através de negócios ilícitos – que podem, aliás, observar nas práticas de familiares e amigos.
Os cidadãos com mais elevados rendimentos, por seu turno, adotam comportamentos de recusa e afastamento social: nas suas mentes, pobreza equivale a criminalidade. Encaram a pobreza como consequência de comportamentos incivilizados e violentos, e não estes como consequência daquela. Protegem-se com “arame farpado”. Nestas sociedades fragmentadas, fazem-se atribuições mútuas enviesadas e perigosas que agravam o fosso social e económico. Os mais favorecidos encaram a pobreza material das pessoas desfavorecidas e os respetivos comportamentos ilícitos como resultantes da pobreza de caráter – e não das condições socioeconómicas em que essas pessoas nascem e crescem. Simetricamente, atribuem a sua própria condição material ao mérito, à força de caráter e aos seus virtuosos hábitos de vida – e subestimam o papel do berço (da “lotaria ovariana”, diria Warren Buffett) em que nasceram.
Os mais desfavorecidos, por seu turno, imputam intenções malévolas e comportamentos oportunísticos aos cidadãos mais abastados. Também ambicionam aceder a ganhos alcançados pelos mais favorecidos. Ao observarem grandes desigualdades, sentem-se mais atraídos por decisões arriscadas que esperam permitir-lhes alcançar benefícios que os mais favorecidos experienciam. O que ocorre com o gasto excessivo em raspadinhas, um jogo a que são especialmente atreitos os mais pobres, é porventura o fruto dessa tentação. Naturalmente, muitos perdem as “apostas” – o que reforça a desigualdade.
Todos conhecemos casos particulares que escapam às probabilidades que acabo de discutir. Mas a tendência é a descrita e merece ser considerada no desenho de políticas sociais, económicas e empresariais. Francamente: parece-me claro que esta evidência deveria ser incorporada nas discussões sobre o salário mínimo. As utopias igualitaristas são perigosas. Mas os perigos (e a indignidade) das grandes desigualdades também não deveriam ser subestimados.

Por Arménio Rego, LEAD.Lab, Católica Porto Business School
