No volume que assinalou o cinquentenário do célebre ensaio de Milton Friedman (“A responsabilidade social das empresas é aumentar os lucros”), Martin Wolf escreveu: “As corporações devem jogar as regras do jogo. Mas devem ser impedidas … de escrevê-las. Não espero que façam, na esfera pública, o que é correto fazer. Mas gostaria de impedi-las […]
No volume que assinalou o cinquentenário do célebre ensaio de Milton Friedman (“A responsabilidade social das empresas é aumentar os lucros”), Martin Wolf escreveu: “As corporações devem jogar as regras do jogo. Mas devem ser impedidas … de escrevê-las. Não espero que façam, na esfera pública, o que é correto fazer. Mas gostaria de impedi-las de fazerem o que é errado. Fazer as coisas certas é tarefa dos cidadãos”. É provável que os paladinos da maximização do valor para o acionista subscrevam este ponto de vista – para então argumentarem que, respeitadas as regras do jogo, cabe aos gestores focarem-se nos interesses dos acionistas. Esta conceção padece de três limitações.
Primeira: o perfil dos donos das grandes corporações modernas há muito deixou de corresponder ao que Friedman discutia: o capitalista que, sozinho ou em parceria, arrisca o seu dinheiro num empreendimento que pretende que seja bem-sucedido. O “investimento” de alguns acionistas de companhias modernas é simplesmente instrumental e oportunista. Esses investidores podem não ter qualquer interesse na sustentabilidade da empresa e desejar apenas mais-valias de curto-prazo. Em geral, estes acionistas podem transacionar os títulos sem qualquer restrição. Poder-se-ia afirmar que, sendo donos das ações, não o são da empresa. Conceder-lhes o estatuto de “proprietários”, no sentido convencional do termo a que Friedman aludia, é problemático. Eis o que escreveram dois académicos da Harvard Business School: “Numa economia bem ordenada, os direitos e os deveres estão associados. Conceder aos acionistas os direitos de propriedade e, ao mesmo tempo, isentá-los das suas responsabilidades abre a porta ao oportunismo, ao logro e ao mau uso dos ativos da empresa. O risco é menos preocupante quando os acionistas não procuram exercer influência sobre as maiores decisões corporativas, mas é agudo quando o fazem. O problema torna-se ainda mais claro quando os donos temporários de grandes blocos de ações procuram reconfigurar o board da empresa, mudar a gestão, ou reestruturar as suas finanças com o fito na valorização das ações, apenas para vendê-las de seguida e mudarem para outro alvo sem terem de responder pelo impacto da sua intervenção na empresa ou noutros stakeolders”.
Gerir com o foco na subida da cotação das ações não equivale a gerir em prol do bem da empresa. Portanto, ao remunerar acionistas simplesmente focados no retorno financeiro, a empresa drena recursos que, por não serem investidos em inovação, ou em investigação e desenvolvimento, conduzem ao empobrecimento ou à quebra do potencial sustentável da empresa. À luz do paradigma, puro e duro, do capitalismo de acionista, os gestores cumprem o seu “dever” perante os acionistas de oportunidade – mas descuram os efeitos sobre a empresa e stakeholders como os empregados ou as comunidades.
Segunda limitação: os acionistas podem ser movidos por objetivos muitos diversificados e fragmentados. Alguns desejam a maximização do retorno financeiro do seu investimento, no curto-prazo. Mas outros são movidos por uma lógica de longo-prazo e genuinamente preocupados com o impacto da empresa no ambiente, nos empregados e nas comunidades. Alguns são mais propensos ao risco – enquanto outros são mais avessos. A categoria “acionista” não é, pois, um monobloco de entidades e pessoas com os mesmos interesses e preferências – pelo que faz pouco sentido tomar a maximização do retorno acionista como o farol predominante das decisões de gestão. Qual retorno? Qual acionista?
Terceira limitação: a sustentabilidade da empresa depende, fortemente, do “investimento” de longo-prazo feito na empresa por empregados, fornecedores, clientes, financiadores e mesmo comunidades. Muitas empresas devem o seu sucesso à qualidade, à massa cinzenta, ao empenhamento dos seus trabalhadores. Se estes abandonarem a empresa, esta poderá tremer. Os gestores poderão contratar novos empregados altamente qualificados, mas não poderão adquirir o capital social e o conhecimento tácito que, ao longo de anos, os anteriores empregados haviam desenvolvido.
Também os fornecedores e os financiadores de uma empresa podem ser maiores “investidores” de longo-prazo numa empresa do que muitos acionistas de oportunidade que estão apenas interessados em realizar mais-valias de curto-prazo. O mesmo pode ser afirmado a propósito das comunidades que investem na criação de condições – fiscais, educacionais, infraestruturais – para que uma empresa prospere, crie e mantenha emprego, e dinamize a comunidade local. Em suma: se queremos sustentabilidade, convém que os argumentos sejam sustentáveis.
