A novafala

Têm-se multiplicado, no estrangeiro e depois por cá, os manuais sobre como devemos escrever e falar. A Universidade de Manchester, no seu Guide to Inclusive Language, diz, por exemplo que é aceitável dizer “parent” ou “guardian” mas não “mother” ou “father”. A ideia é, supostamente, estimular a inclusão. Contra a inclusão nada tenho, antes pelo contrário. Já em relação a estas listas, as coisas são diferentes. A ideia, além de bastante estranha, é orwelliana: controlamos a maneira como as pessoas falam para controlar a maneira como elas pensam e como se comportam (a novafala orwelliana). Isto, além de fazer lembrar o regime do Khmer Vermelho, que de facto trocou pais e mães por guardiões, é desrespeitoso para os “progenitores” e uma grosseira violação do mais elementar bom senso. Mãe só temos uma, guardiões podemos ter muitos.

Vejo aqui dois perigos. Primeiro, a ideia de controlar a maneira de pensar dos outros assemelha-se aos regimes totalitários em que somos obrigados a pensar da maneira correta. A maneira correta é, bem entendido, a de quem manda. O segundo perigo é que pode sair o tiro pela culatra e tanta inclusão pode gerar forças de sinal contrário. Tanta correção torna mais atraentes os que se revelarem capazes de ir contra a linguagem dominante. Isso confere-lhes poder. Pensemos em Trump.

Como atuar: usando linguagem respeitadora de toda a gente, não alinhar em modas e deixar cada um viver a sua vida como muito bem lhe apetecer – inclusive comunicando em novafala. A linguagem é um processo humano que evolui com a comunidade. Forçar a adoção desta “novafala” por ser a única forma “realmente democrática” de falar parece-me um gesto antidemocrático. Geremos práticas inclusivas para resolver os problemas da inclusão. Começar pela linguagem esperando que ela altere a realidade é orwelliano e infrutífero. As palavras têm valor (per)formativo mas não chegam para alterar a realidade. Por isso, se não for pedir muito, podemos deixar as pessoas falarem como quiserem sem as obrigarmos a andar por aí com o guia das palavras certas na mão?


Por Miguel Pina e Cunha, Diretor da revista Líder

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