De há um ano para cá, a vida tomou novas rotinas, o trabalho e a escola adotaram a linguagem virtual e assim, ganhando tempo para o desenvolvimento de vacinas e controlo dos serviços e recursos de saúde, o mundo foi vivendo múltiplos estados de confinamento, entre a solidão e o isolamento, com efeitos inequívocos sobre […]
De há um ano para cá, a vida tomou novas rotinas, o trabalho e a escola adotaram a linguagem virtual e assim, ganhando tempo para o desenvolvimento de vacinas e controlo dos serviços e recursos de saúde, o mundo foi vivendo múltiplos estados de confinamento, entre a solidão e o isolamento, com efeitos inequívocos sobre o modo como sentimos. O que antes era visto como um problema social principalmente associado aos mais velhos, e ao processo de envelhecimento, foi enquadrado como um problema de saúde pública que poderia afetar pessoas de qualquer idade.

As consequências e os efeitos psicológicos deste tipo de isolamento/quarentena já foram alvo de estudos no passado e esta Pandemia veio enfatizar os pré-existentes níveis elevados de solidão e isolamento social. Ansiedade, stress, angústia, solidão, medo e tristeza são alguns dos sintomas mais comuns identificados pela comunidade médica e científica entre as pessoas que passam pelo processo.
Numa rápida resposta a esta preocupação iminente de compreensão dos efeitos psicológicos da Pandemia, o jornal científico Lancet publicava em fevereiro de 2020 o artigo de revisão: “The psychological impact of quarantine and how to reduce it: rapid review of the evidence”. Foram analisados 24 artigos (de uma base de dados de cerca de 3000) sobre o impacto psicológico da quarentena, que na sua maioria relataram efeitos psicológicos negativos, incluindo sintomas de stress pós-traumático, confusão e raiva. Os fatores de stress incluíam o medo da infeção, frustração, tédio, desinformação, perdas financeiras e estigma. No geral, esta revisão sugere que o impacto psicológico da quarentena é amplo, substancial e pode ser duradouro. Os investigadores do artigo concluem que privar as pessoas da sua liberdade para um bem público geral é frequentemente controverso e deve ser observado com atenção.
Solidão e isolamento social – um novo normal?
Após um ano de vida em estado pandémico são ainda escassos os estudos com peso científico significativo sobre o seu impacto no bem-estar psicológico e a evidência de quais os grupos mais afetados pela solidão e isolamento social. Contudo, alguns estudos começaram a ser publicados no início de 2021, como o liderado pela investigadora Katie Davies e publicado em janeiro no The Lancet Healthy Longevity: “Will the pandemic reframe loneliness and social isolation?”. A investigação usa dados do Estudo Longitudinal de Envelhecimento feito ao longo de 14 anos sobre a população inglesa com mais de 50 anos para mostrar que a solidão e o isolamento social são muito mais complexos e têm uma importância para a saúde e o bem-estar muito maior do que é percecionado. Além de mudar a natureza das ligações sociais, a Pandemia também alterou a perceção de solidão e isolamento social e veio desafiar a visão estereotipada do solitário ou isolado. O artigo refere a oportunidade que existe agora para construir uma maior empatia, compaixão, cuidado e preocupação para com a aqueles que vêm experimentando a solidão e o isolamento social.

Usando um questionário dirigido a uma amostra de 300 adultos, com idades entre os 18 e os 84 anos, o estudo “The effects of social isolation on well-being and life satisfaction during pandemic”, quis perceber os efeitos do isolamento social na população adulta nos EUA. Publicada na revista Nature, em janeiro de 2021, esta investigação documentou a prevalência do isolamento social durante a Pandemia, bem como os vários fatores que contribuem para que indivíduos de todas as idades se sintam mais ou menos isolados enquanto são obrigados a manter o distanciamento físico por um longo período de tempo. A investigação sugere que o isolamento social tem um peso significativo na perceção de qualidade de vida das pessoas, e que as medidas de distanciamento para reduzir a disseminação da SARS CoV-2 tiveram maior impacto nos jovens adultos. O isolamento social foi associado a um nível baixo de satisfação com a vida em todos os domínios, stress relacionado com o trabalho, menor confiança nas instituições como o Governo e organizações, risco de infeção e aumento do uso de substâncias como forma de enfrentar a realidade. As consequências sobre o bem-estar psicológico são significativas, sendo o stress e o isolamento social fatores de risco para a saúde e função imunológica. O estudo refere o prolongamento destes efeitos generalizados enquanto a incerteza do vírus persistir.
Escapar ao isolamento
Cristina Queirós, Professora da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, aponta numa publicação da referida instituição em abril de 2020 que “dar significado ao tempo” é uma estratégia a seguir, assim como a adoção de rotinas. Além de manter uma rotina saudável, a Docente diz que este é um bom momento para fazer as tarefas adiadas no passado: “Aprender alguma coisa que a pessoa gostava de fazer e que agora tem a oportunidade. Estabelecer diferença entre os dias de trabalho e o fim-de-semana. Tentar fazer parte de uma equipa, voluntários da comunidade, para as pessoas sentirem que estão a contribuir, e não ter um impacto psicológico tão grande”. A Sociedade Portuguesa de Psicanálise tem uma linha ativa de apoio nacional que fornece apoio psicológico e psiquiátrico para adultos e crianças, disponível no número: 300 051 920.
Por Rita Saldanha

