A automação de processos nas empresas tem evoluído de forma bastante rápida ao longo dos últimos anos, impulsionada pela inteligência artificial (IA) e pela necessidade crescente de eficiência e otimização, passando da Robotic Process Automation para a Intelligence Process Automation. Contudo, estamos neste momento, a assistir a uma nova evolução: a incorporação de agentes inteligentes, […]
A automação de processos nas empresas tem evoluído de forma bastante rápida ao longo dos últimos anos, impulsionada pela inteligência artificial (IA) e pela necessidade crescente de eficiência e otimização, passando da Robotic Process Automation para a Intelligence Process Automation. Contudo, estamos neste momento, a assistir a uma nova evolução: a incorporação de agentes inteligentes, capazes de conceber e executar tarefas de forma autónoma, libertando os seres humanos para outras tarefas. Estes sistemas, que fazem parte do que chamamos de Agentic Process Automation (APA), prometem revolucionar a forma como as empresas operam, abrindo um novo horizonte de produtividade e também de competitividade.
A transição para estes sistemas deve-se a três principais fatores. Em primeiro lugar, a explosão de sistemas de IA generativa, que possibilitou um rápido avanço na chamada IA tradicional. Em segundo lugar, o desenvolvimento dos Large Language Models (LLMs), que conferem aos agentes a capacidade de compreender e gerar texto, interagindo de forma bastante natural. Por fim, a crescente pressão para se automatizarem processos como forma de gerar uma maior eficiência operacional. Apesar deste avanço, a adoção generalizada de IA nas empresas ainda enfrenta desafios significativos em muitos mercados, e Portugal não é exceção.
A nível global, muitos setores empresariais ainda estão a explorar as possibilidades oferecidas pela IA – que se continuam a multiplicar à medida que a tecnologia evolui. De acordo com o relatório Ascendant, embora a adoção da IA em Portugal esteja a crescer, as organizações ainda enfrentam desafios como a falta de competências internas, a integração de infraestruturas tecnológicas adequadas e a criação de modelos eficientes de governação de dados. Cerca de 39% das empresas refere que a falta de infraestrutura tecnológica e a ausência de modelos adequados de gestão de dados se traduzem em barreiras críticas para a implementação plena da IA. Além disso, a escassez de profissionais qualificados continua a ser um dos principais obstáculos, com 34% das organizações a destacar a necessidade de mais talento especializado.
Genericamente falando, estes desafios são semelhantes aos enfrentados a nível global e indicam que, apesar do entusiasmo que se vive em torno da IA e do seu potencial, muitas empresas nacionais ainda estão a dar os primeiros passos rumo à adoção de soluções mais avançadas e integradas. Contudo, à medida que a transformação digital avança, espera-se que essas barreiras sejam superadas com o aumento de iniciativas de formação e a criação de estratégias mais robustas para integrar a IA nos processos empresariais.
Para que a IA e os agentes inteligentes possam criar real valor nas organizações, acredito que seja necessário dar-se três passos essenciais. O primeiro envolve a adaptação das empresas à nova realidade digital, com foco na formação de competências (upskilling e reskilling) e parcerias estratégicas com intervenientes tecnológicos que possam facilitar essa transição. O segundo passo é a reestruturação dos processos empresariais, de modo que possam integrar de forma sinérgica a IA e os agentes inteligentes com o capital humano. Trata-se de algo que requer uma abordagem holística, onde não se aplica a IA aos processos existentes, mas redesenham-se esses mesmos processos, de forma a maximizar o impacto da colaboração entre humanos e máquinas. Por fim, acredito que o terceiro passo seja o de garantir que a experimentação com IA, através de provas de conceito, resulte em soluções práticas e escaláveis que possam gerar um valor tangível para a empresa.
A adoção dos agentes inteligentes apresenta-se como a fronteira tecnológica que promete descomplicar a automatização, tornando-a mais ágil e autónoma. Ao contrário dos sistemas tradicionais de automação, que dependem de regras predefinidas e requerem monitorização, estes agentes têm a capacidade de tomar a iniciativa, colaborar com outros sistemas e adaptar-se em tempo real a novas situações. Confere às empresas uma vantagem competitiva significativa, permitindo-lhes responder de forma mais rápida e eficaz às mudanças do mercado.
A verdade é que a incorporação de IA no tecido empresarial vai muito além do entusiasmo inicial a que assistimos. Tal como acontece em qualquer revolução industrial, o verdadeiro valor da tecnologia só se materializa quando as empresas estão preparadas para aplicá-la de forma concreta, estratégica e escalável. A “revolução cognitiva” de que tanto se fala com a IA não será plenamente realizada até que as organizações reconheçam o seu potencial disruptivo e o integrem de forma coerente com os seus objetivos de negócio.
Estamos, sem dúvida, numa nova era da automação onde esta, capacitada por agentes inteligentes e pelos avanços na IA generativa, pode transformar radicalmente as operações empresariais. No entanto, o sucesso desta transformação vai depender da capacidade das empresas para se adaptarem, inovarem e criarem valor real a partir da tecnologia, passando da experimentação à produção e da visão à ação.


