Desenvolvimento e Sustentabilidade são termos antagónicos. Desenvolvimento está subjacente a progresso, economia, riqueza, exploração, consumo. Sustentabilidade, do latim sustentare, significa suportar, defender, cuidar, conservar. Só em 1992, a noção de “desenvolvimento sustentável” entra no léxico comum, formalizada e preconizada pelas Nações Unidas após o relatório de Brutland, publicado em 1987. É a primeira vez que […]
Desenvolvimento e Sustentabilidade são termos antagónicos. Desenvolvimento está subjacente a progresso, economia, riqueza, exploração, consumo. Sustentabilidade, do latim sustentare, significa suportar, defender, cuidar, conservar.
Só em 1992, a noção de “desenvolvimento sustentável” entra no léxico comum, formalizada e preconizada pelas Nações Unidas após o relatório de Brutland, publicado em 1987. É a primeira vez que se liga a economia ao ambiente, mas será na atual década que esta ligação tem de ser assumida como novo paradigma de desenvolvimento.
As questões de sustentabilidade e a valorização de uma nova economia, espelhadas no Pacto Ecológico da Comissão Europeia e no último Manifesto de Davos 2020, saído do Fórum Económico Mundial, terão de ser centrais na criação de um novo modelo económico.
A única forma radical em mudar de paradigma exige uma nova filosofia de inovação ao nível das políticas de desenvolvimento estratégico, governamentais e empresarias. Isto requer competências transversais e incentivos financeiros e, sobretudo, maior sensibilidade e responsabilidade por parte da sociedade. Mas a motivação da coresponsabilidade social só será alcançada com estratégias criativas de comunicação e diálogo com a sociedade.
É importante reconhecer que o crescimento económico não pode ser alcançado num Planeta em crise ecológica e sustentado por um povo doente. Quando se alteram paisagens quebram-se as relações entre espécies. As pragas, os fogos e as infeções podem surgir de forma abrupta. Estas respostas, próprias dos sistemas naturais, negam a noção simples e sedutora de que, dentro de algum espaço limitado, quaisquer que sejam as tensões que infligirmos à natureza, estará tudo bem.
Há muito que os cientistas avisam que a desflorestação incessante, a perda e degradação de habitats, o uso e abuso de monoculturas intensivas, o comércio ilegal de espécies selvagens, o consumo de animais e o aumento da densidade populacional urbana, facilitam as pandemias. A situação pandémica atual evidenciou esta realidade: a saúde, a pobreza e o subdesenvolvimento estão intimamente ligados aos problemas ambientais.
Quer isto dizer que o aumento de consumo e o crescimento económico à custa de recursos naturais são limitados. É um engano pensar que se pode continuar a manter uma economia à base do turismo, à custa de maior urbanização e degradação dos ecossistemas naturais. Mas é também um engano julgar que o investimento e desenvolvimento em monoculturas, mesmo tecnologicamente exploradas, para a produção intensiva de bens (alimentares e outros) não altera o ambiente. Esta crise pandémica veio acelerar a necessidade de se desenvolverem novos valores e de se escrutinarem as ligações entre produção e questões ambientais.
Neste momento, há alterações globais que se fazem sentir e que estão a alterar o padrão de vida da sociedade e, em particular, a sua sensibilidade para com estas realidades. O aumento de temperatura e a seca não é mais uma previsão. No séc. XXI as catástrofes naturais, ocorridas num determinado local, afetam a economia global e as epidemias ou surtos virais acabam por corromper o equilíbrio instalado, realçando o Planeta como um todo.
Os registos geológicos indicam que novos períodos interglaciares se aproximam, mas os dados arqueológicos apontam também o impacte do Homem nos ecossistemas ao longo dos últimos 50 mil anos. Quer isto dizer que o Homem aumentou e acelerou os fenómenos naturais. A descarbonização da economia não é necessária, é urgente.
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Pode ler o artigo completo na edição de primavera da revista Líder.

Por Maria Amélia Martins-Loução, Bióloga, Professora catedrática de Ciências ULisboa, Presidente da Sociedade Portuguesa de Ecologia e membro do Comité do Projeto de Sustentabilidade da Green Media


