As redes e a Primavera Árabe

Tem sido assinalada a passagem de dez anos sobre a ocorrência da Primavera Árabe. Foi um acontecimento que muitos seguiram com a esperança de que o mundo árabe pudesse abraçar uma nova era de democracia. E aplaudimos o papel das redes sociais como forças de libertação, capazes, no limite, de fazer cair ditadores.

Hoje sabemos mais. Sabemos que as redes também podem fazer cair democracias. As redes sociais abriram a comunicação de massas de forma não intermediada. Ao fazê-lo permitiram novas formas de mobilização social. As opiniões passaram a valer todas o mesmo. Isso parecia positivo. A verdade é que o tempo tem mostrado que as redes são usadas fundamentalmente, como tem sido dito, para pertencer e não para compreender. O resultado está à vista: uma polarização das opiniões que não admite espaço para dialogar com o outro.


A política identitária passa por aqui: quem não está comigo está contra mim. E quem está contra mim está a pensar mal. Todo este processo é tudo menos favorável ao aprofundamento da democracia, em que se respeita genuinamente a opinião alheia. Na política das redes aparece mais quem fala alto e quem dispara a matar, largando os soundbytes mais sonoros. Quando os media tradicionais convidam os mais desbocados para opinadores trazem para dentro do sistema a lógica das redes, agravando o círculo vicioso. Não se sabe onde o caminho acaba mas o extraordinário romance M – o Filho do Século, de Antonio Scurati (ASA) sobre a ascensão de Mussolini, mostra o processo extremista em andamento, nesse tempo ainda sem o extra das redes. Continuando com Scurati, num mundo de extremismos à esquerda e à direita, a única opção é rejeitar ambos. Até porque eles se tocam.

 


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

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