Fazer passeios turísticos, visitas guiadas pode ser um verdadeiro embuste, tempo perdido, ir ao engano. Mas há também verdadeiros milagres que acontecem onde menos os esperamos. Fui visitar Vidago e fiquei onde já há muitos anos queria ficar, no Palácio Vidago, inaugurado no dia seis de outubro de 1910, já em tempo republicano, sendo ainda tudo nele de pendor monárquico. Um edifício histórico que nasce na confluência da Monarquia com a República, um edifício fronteira instalado numa região onde a Natureza é quem manda, quem põe e dispõe.
A Natureza a mandar em Trás-os-Montes e na Ucrânia a soarem as sirenes que empurram homens, mulheres, crianças e os mais velhos para bunkers improvisados onde a cidade os permite. Recebo uma mensagem de uma mulher ucraniana que me diz que a cidade está tomada pelos russos, mas os pais estão em segurança, na cave da casa.
O Daniel, o nosso guia, conduz o seu carro pacificamente, como se não pretendesse incomodar as árvores, as ervas rasteiras, as flores amarelas que cheiram a Carnaval. Vai contando histórias e rindo. As ovelhas não se compram ao quilo, o melhor vinho é o que tem maior grau alcoólico, as pessoas tratam melhor os visitantes do que os seus vizinhos.
Mais uma notificação, desta vez a CNN diz-nos que a cidade vizinha de Kiev está a ser severamente bombardeada pelos russos, os ucranianos resistem.
Retomo a viagem e já estamos a caminho de Cubas para ir ver os dois únicos habitantes desta aldeia que tem, apesar de tudo, boa Internet. O casal de idosos não tem nada a temer. O cavalo de trabalho que pasta no terreno contíguo à sua casa tem fortes músculos, não serve para montar, é um bicho de trabalho – ajuda os dois habitantes daquela aldeia.
Seguimos caminho e volto ao telemóvel. Parece que há abertura para a Ucrânia e a Rússia negociarem, mas os bombardeamentos não cessam, a guerra engrenou e não parece saber parar. Há muitas fragilidades, muitas vulnerabilidades nestas negociações.
Saídos de Cubas, o Daniel insiste em mostrar-nos uma proeza da Natureza, um cavalo gigante. Andamos mais alguns quilómetros, várias curvas, subidas e descidas e lá chegámos. Tivemos sorte, ele estava a pastar a uma boa distância, a que nos permitia ver a sua pujante envergadura muscular, a sua crina sumptuosa e até uma réstia de baba pegajosa e grossa que lhe escorria da boca. Uma baba enorme e bamboleante que se confundia com uma corrente de aço. O cavalo era mesmo um achado. Ficámos ali a ouvir os melros e a ver o cavalo. Depois retomámos o caminho de regresso ao hotel, agora com o coração apertado pela ameaça nuclear de Moscovo. Putin largou a bomba da intimidação, do bullying ao mais alto nível. O Mundo passa agora a temer um confronto nuclear.
Com este aperto, sigo o Daniel que nos vai mostrar uma coisa que diz ser outro milagre da Natureza, uma coisa que nunca vimos, que nos vai espantar para sempre. Intimidada pela ameaça nuclear, e curiosa pelo milagre a que ia assistir, segui o Daniel até ao local onde uma árvore tinha deglutido um sinal de trânsito. O milagre tinha acontecido, a Natureza tomou de assalto a obra humana que sinalizava o perigo de passagem de gado. A Natureza não se engana e engole a obra humana se esta lhe atrapalha o seu doce fluir. A luta do Homem contra a Natureza é, por isso mesmo, quase sempre inglória. Na vã gloria de mandar, o Homem, em alternativa, empreende a luta homem a homem, ou, na mais hipócrita e vil versão, a luta com recurso a armas e apetrechos que lhe permitem a observação cobarde da destruição perpetrada à distância.
Um dia a Natureza também engolirá Putin e todos os que creem na sua superioridade ideológica. O núcleo da questão não está no núcleo da Terra, na energia nuclear, mas na mais funda e poderosa energia humana que resulta da sublime relação entre o Homem e a Natureza. O Daniel guiou-nos no sentido dessa relação e apontou-nos a única saída possível para a guerra.
Este artigo foi publicado na edição de primavera da revista Líder
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Há algumas semanas que a Líder deu o briefing para os conteúdos desta edição. O tom do texto que enviou aos colunistas soava a futuro, a temas importantes e muito relevantes. À volta da sustentabilidade, claro, que é o tema que o Mundo deve trabalhar – todos os dias e em todas as decisões – para conseguirmos continuar a ter um Planeta em que se consiga viver.
O primeiro trimestre trouxe uma boa colheita de livros. Na área da liderança e gestão, dois lançamentos sobressaem. Por um lado, Unicórnios Portugueses, de Ana Pimentel (Lua de Papel). Estas empresas, ditas unicórnios, são fundamentais para rejuvenescer a economia portuguesa. Ana Pimentel ajuda a compreender a emergência de empresas como a Feedzai, Farfetch, Talkdesk e OutSystems. O livro é um manual de inspiração para quem está habituado a ler sobre empresas de outras partes do mundo. Aguardamos uma segunda edição com estes e novos casos.

Na Harvard Business Review Press, Marcus Buckingham publica, este abril, Love + Work: How to find what you love, love what you do, and do it for the rest of your life. Buckingham é um autor de best sellers que se assume como um psicométrico apaixonado por factos. Aqui, todavia, enceta uma viagem pessoal e qualitativa pelo domínio do uso das forças pessoais que promovem o propósito e a excelência. Como ele refere, a excelência sustentada é impossível na ausência de loveless jobs. Na mesma editora dois outros destaques.
No novo A New Way to Think, que resume vários textos do autor, encontramos alguns dos desafios e comparações entre algum modelo dominante e inadequado e uma melhor opção defendida pelo autor. Eis a questão: estaremos a repetir práticas erradas apenas por uma questão de trabalhosa inércia?



Se quer ter a sua experiência real, pelo menos uma vez na vida, poder sentir-se rei ou rainha, experimente ir ao mais recente hotel no Palácio de Versalhes. Le Grand Contrôle (edifício que dá o nome ao hotel) foi contruído em 1681 por Jules Hardouin-Mansart, o arquiteto favorito de Luís XIV. Acolheu a elite política europeia, embaixadores e artistas, escritores e cientistas do século das Luzes. Foi restaurado há seis anos, para se transformar num hotel único e oferecer aos seus hóspedes uma verdadeira experiência real.




