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Denise Calado

Esta guerra vai pôr fim à era de Putin

31 Março, 2022 by Denise Calado

Desde que a Guerra na Ucrânia começou, José Milhazes tem sido uma presença constante nos ecrãs de televisão. O português que viveu 38 anos na Rússia, onde estudou e se casou, conhece como ninguém aquele país e o modo próprio de ser russo. Também conhece a maneira especial como se lidera, tão geneticamente comprometida com autoritarismos czaristas. José Milhazes considera que esta guerra porá fim à era de Putin e aponta as quatro alternativas que deitarão ao chão o homem que a Europa e o Mundo mais temem neste momento.

 

 Catarina G. Barosa | Fotos: DR

 

Tendo vivido tantos anos na Rússia, tendo estudado na Rússia, tendo feito a maior parte da sua vida na Rússia, conseguiu identificar algum modo próprio de ser líder naquele país?

Ser líder naquele país obedece ao princípio ou à fórmula “quero, posso e mando” e, se possível, com o menor controlo que possa existir, ou seja, a liderança é muito pessoal. A liderança na Rússia faz muito lembrar o feudalismo; temos o suserano e temos os súbditos. Então, o suserano concede aos súbditos direitos, consoante a sua fidelidade, e isto foi e continua a ser uma constante da história da Rússia.

Mas há exceções?

Claro, há pequenas exceções. Há o caso de Mirkhail Gorbatchev, que tentou destruir este sistema, embora também sofresse um pouco de tentar centralizar nele próprio o poder. Por exemplo, um dos erros que ele cometeu foi, em vez de fazer com que o Parlamento o elegesse Presidente da União Soviética, deveria ter feito isso em eleições gerais, ou seja, legitimar-se através das eleições. Ele receou que não havia condições para que a maioria das pessoas o apoiasse. Agora, todos os outros dirigentes foram autoritários, mesmo olhando para Boris Yeltsin, foi também um dirigente tipicamente autoritário: é ele que manda, que dá ordens, que demite, que nomeia, que faz o que quer. Embora no caso dele com uma certa cobertura democrática, mas, nós vemos por exemplo que, quando entra em confronto com o parlamento russo em 1993, em setembro, acaba por bombardear o parlamento, ou seja, isto é um Presidente que foi democraticamente eleito e que se considerava um grande democrata.

Parece que há uma genética autoritária?

Exatamente, e que eu penso ter origem na política bizantina. É uma política muito concentrada na corte, à volta do tal suserano, do czar, onde não existe sociedade civil.

Apesar de o povo russo ser muito fiel ao ser líder, porque há essa tradição da fidelidade, como identificou e muito bem, é um facto que também há muitos momentos de insurreição na história da Rússia, também se mataram czares, por exemplo.

Isso é um dos mitos muito divulgados da história da Rússia, mas, se formos ver ponto por ponto, percebemos que não é assim. Por exemplo, Pedro III, marido de Catarina II, foi assassinado num golpe de estado dentro da corte. Paulo I, filho de Catarina II, foi assassinado também durante um golpe palaciano, ou seja, aqui não há massas populares, nem revoltas.

Depois temos outro fenómeno que é muito próprio já do século XIX, que é o terrorismo político na Rússia: Alexandre II, talvez um dos mais competentes czares na história da Rússia, o homem que libertou os camponeses da servidão da gleba, acabou por morrer à 12.a tentativa de assassinato por terroristas populistas; Alexandre III, que lhe sucedeu, teve o mesmo destino; Nicolau II, o último, foi derrubado por um levantamento popular provocado, entre outras coisas, pela campanha desastrosa na Primeira Guerra Mundial.

Mas nesse caso foi o povo.

Isso do povo é a chamada revolução comunista, não foi o povo que a fez, foi uma elite revolucionária que a fez em nome do povo. Se formos a ver as forças que participam nela, não são as massas populares que vieram para a rua e decidiram instaurar o comunismo, foram as elites.

Quando há revoluções, rebeliões ou insurreições, elas partem sempre de grupos muito delimitados que não são representativos do povo saudosista da antiga União Soviética?

Exato, a população quer estabilidade, mesmo que seja a estabilidade pobre. Por exemplo, porque é que Putin chegou ao poder e foi tão popular? Porque ele prometeu, e trouxe, durante algum tempo, estabilidade. As pessoas viram em Putin o salvador, tanto mais que uma parte da população começou a fazer aparecer uma classe média até aí inexistente. Não falo da oligarquia, os tais 3% da sociedade, falo em 10%, 12% da sociedade, a classe média, que viaja, que já tem um poder de consumo completamente diferente do que tinha na antiga União Soviética, etc. E depois tem aquela população de baixos recursos, a tal saudosista.

E qual a razão de tal saudosismo?

Porque na União Soviética o mínimo estava garantido. O mínimo que muitas vezes só pode ser considerado mínimo em regimes como aqueles: não há desemprego, porque o Estado criava artificialmente empregos; podia-se estudar, e isso permitia, por exemplo, a muita gente subir na escala social, depois tinha de entrar no partido para continuar. Tinha uma assistência médica que não era moderna, mas que era efetivamente universal, quer dizer, dentro das possibilidades do sistema. Claro que havia hospitais para as elites e havia hospitais para o povo normal. Havia uma desigualdade que estava sempre presente. E havia sempre o dinheirinho para a vodka, enquanto há dinheirinho para a vodka esquecem-se todas as amarguras da vida.

Em troco disso hipotecaram a sua liberdade de expressão, hipotecaram muitas outras liberdades, não será?

Olhe, isto entre nós falando, não são só os russos que hipotecam.

Claro, a liberdade é um contrato que estamos sempre a fazer e a desfazer.

Ora nem mais. E sabemos que há sociedades que em nome do bem-estar estão dispostas a perdoar tudo aos políticos. O principal é que não os chateiem, que os deixem-nos viver, ter o carrinho, a casinha, e pronto, se assim for, não há problema nenhum. Ou seja, isso também aconteceu na Rússia; apareceu essa classe média que no século XX, nunca tinha tido as oportunidades como as que teve, agora. Claro que a partir de agora as coisas vão mudar, mas as pessoas sentiam-se já com um certo conforto, segurança, capacidade de comprar objetos com os quais, antes, não se podia sonhar. Efetivamente, isto são as coisas pelas quais as pessoas podem facilmente votar num papagaio se o papagaio for o candidato. Da minha experiência, acredito muito pouco nas chamadas massas populares, porque são aquelas que hoje rezam e abençoam Putin, e amanhã penduram-no de cabeça para baixo.

Depende da situação do estômago.

Nem mais, porque isso da chamada consciência cívica é muito diferente de país para pais. Há países onde essa consciência é enorme, não duvido, por exemplo, a Finlândia e outros países em que se sente que a consciência cívica é uma coisa real. Agora, em muitos outros países, por exemplo os países latinos, é muito o “deixa andar”, isto está bom.

São as necessidades básicas que comandam os destinos políticos dos países.

Nesse sentido eu estou de acordo.

Há uma clara divisão ou separação de poderes na Rússia entre poder político, o poder económico, e poder judicial, ou está tudo misturado?

Na Rússia há só um poder, é o poder de Putin. Aquilo é mesmo uma pirâmide só que é uma pirâmide invertida em que a base é Putin. Se nós retirarmos o Putin da base, vai tudo por água abaixo.

Mas ele não está sozinho. Quem são as figuras que estão com Putin?

São os oligarcas que enriqueceram nos anos 90, que juraram fidelidade a Putin, que o ajudaram a roubar e a desviar dinheiro. Há os chamados cilabiqui, são pessoas que trabalham, agentes de segurança. Ou seja, serviços secretos, de onde saiu Putin: forças armadas e polícia, mas, fundamentalmente, serviços secretos. São estas corporações que servem de base de apoio a Putin, e ele vai jogando, com uma ou com outra em função da política que quer realizar. Se, por exemplo as coisas estão a correr mal do ponto de vista económico, ele vai apertar os oligarcas, e faz aquelas cenas de televisão onde humilha um ou outro oligarca para que fique bem claro que quem manda é ele.

Como os humilha?

Num dos últimos conselhos de segurança da Rússia, exatamente aquele que se realizou na véspera da invasão da Ucrânia, Putin reuniu-se com os membros desse conselho: Putin, Primeiro-ministro, Ministro da Defesa, Ministro da Espionagem Interna, Ministro da Espionagem Externa, Ministro dos Negócios Estrangeiros. E então Putin pergunta, um a um, se apoiam o reconhecimento das duas repúblicas separatistas na Ucrânia, e, um a um, vão dizendo se sim ou se não. Quando se levantou o Chefe da Espionagem Externa, começou a hesitar, e Putin pergunta-lhe: “Então, você apoia ou não?” e o Chefe da Espionagem Externa diz “eu claro que apoio a anexação das duas regiões separatistas” e Putin disse: “tenha lá calma que eu ainda não falei nisso. Eu só estava a falar em reconhecer, não em anexar”. Outro exemplo é obrigar um oligarca a assinar um documento perante ele, e no fim dizer: “passe para cá a caneta porque essa caneta é minha”, compreende? Ele, nesse sentido, é brutal. É manipulador.

Tenta demonstrar que tem o domínio sobre os factos e sobre as pessoas.

Exatamente.

É um verdadeiro criminoso, na prática.

É, no fim de contas, uma espécie de “Padrinho”.

Há novos líderes a emergir na Rússia ou não há espaço sequer para que isso aconteça? Há novos líderes que possam emergir e dar uma nova roupagem à Rússia, ou a própria Rússia está condenada ao seu destino autoritário?

Primeiro, esta crise, esta guerra na Ucrânia, pode levar, e eu penso que isso é altamente provável, ao fim da época de Putin. Ou ele é afastado, ou não o deixam participar nas eleições de 2024 para que a elite não perca as eleições, ou porque podem “fazer-lhe a folha”. Também há a quarta alternativa que é, para os que acreditam, se Deus achou que chegou a hora de Putin, leva-o. Para onde, não sei, mas imagino. Agora, Putin faz política de terra queimada, à volta dele não nasce nada. Nada mesmo. Antes de invadir a Ucrânia andou um ano a destruir a oposição, e deixou-a completamente arrasada. O dirigente da oposição está na cadeia, vai lá estar até que Putin saia do poder, porque tem de cumprir ainda mais seis anos.

E não há outros? Ou seja, não há líderes, não há espaço para emergirem líderes que construam o cerco a Putin.

Na corte, se alguém levanta demasiadamente a cabeça, tem um problema. Não se devem destacar como mais inteligentes do que o supremo. Funciona assim. Agora, no caso de mudança brusca em termos de poder, podem surgir figuras até que nós não prevemos, mas que atualmente rodeiam o Putin, mas venha o diabo e escolha.

Pois, exatamente. Ele está rodeado de réplicas da sua própria pessoa.

E não só, também de incompetentes, e de ladrões; de súbditos mais do que obedientes para salvarem a pele e o dinheirinho.

Que dificuldades é que atravessou na Rússia? E que momentos viveu inesquecíveis na Rússia?

A Rússia é um país fantástico. Eu tenho muitos amigos russos, e sofro com eles o momento por que estão a passar. Momentos bons, tive muitos. Por exemplo, a minha mulher, os meus filhos. A minha mulher é da Estónia. Tive momentos de felicidade como jornalista, havia tantos acontecimentos que o jornalista só tinha um problema: ter tempo para dormir. Eu não sou jornalista de formação, sou historiador e fui para o jornalismo por mero acaso. Eu nunca sonhei ser jornalista.

Mas ser jornalista é contar histórias, é falar dos factos, é no fundo fazer a história da atualidade.

Ora nem mais. É o que eu digo. O Fernão Lopes é historiador ou jornalista? Fernão Lopes é um historiador e é assim que deve ser. Bem, mas naquela altura talvez também fosse um bom jornalista.

Os papéis se confundem-se, o historiador tem, também, de respeitar muitas das regras do jornalismo, nomeadamente a verdade, a isenção, entre muitas outras.

E o jornalismo tem de respeitar a História, principalmente quando se trata de análise de conflitos ou de processos de baixo conflito. E esses são momentos de apreensão, não tanto por mim, mas pela família, quando por exemplo se deu o contragolpe que tentou derrubar Mirkhail Gorvachev ou a situação que já falei de outubro de 1993, quando aconteceu o confronto entre o parlamento e o Presidente Yeltsin, na Ucrânia em 2004, e tantos mais.

Foi um homem feliz na Rússia?

Fui, mas com um, “mas”, estive demasiado tempo na Rússia.

Porque é que diz isso?

Estive 38 anos.

Deve sentir-se russo também, certo?

Quer dizer, tenho alguns comportamentos que vêm da sociedade russa e do tempo que eu lá vivi.

Como são os russos?

Os russos são como os portugueses. É uma balda! É uma balda. Quando conhece um russo ele parece feito de gelo, ou uma russa, mas depois é uma balda! Não fazem nada a horas como nós. O espírito, a melancolia, a forma de vida dos russos. Os russos não têm organização nenhuma.

Por isso é que precisam de um líder que os ponha em ordem.

Claro, claro.

Sempre que penso no Rentes de Carvalho penso também em si. Vocês são portugueses que foram viver para outros países, são portugueses que se envolveram no país de uma forma muito profunda. Rentes de Carvalho é sempre um português na Holanda, e a minha pergunta é: o José Milhazes tem a sua identidade misturada ou não?

Tenho, e isso cria-me muitas dificuldades. Quando regressei a Portugal em 2015, tive de começar a andar outra vez, porque eu fazia de Portugal uma ideia romântica. Eu saí de Portugal quando tinha 18 anos, e vinha cá de férias. Ora, de férias não temos tempo para ver as coisas, e quando cheguei cá confrontei-me com um mundo que não esperava que existisse. Portugal estava muito mais moderno e muito mais desenvolvido do que aquele que eu deixei, mas tinha pecados que continuavam absolutamente enraizados, como estavam antes: as cunhas, o corporativismo, a mesquinhez. Eu pensava que já era muito mais cosmopolita, mas nesse campo, não é. Mesmo assim, eu adoro viver em Portugal, e só lhe digo uma coisa, só tive pena de me ter distraído e de ter ficado tanto tempo na Rússia.

Mas é um português russo?

Eu sou um português da Póvoa de Varzim, e aqui o português da Póvoa de Varzim é um português 100%.

Pensa em português ou em russo?

Depende.

E sonha em russo?

Sim. Em russo e em português. Além disso, na minha casa ainda há uma terceira língua que é estónia, que eu não falo, sei algumas coisas, mas é uma língua diabolicamente difícil, mas quando a minha mulher está com os netos ela tenta falar estónio. Tanto é que nós, por vezes e inconscientemente, saltamos de uma língua para a outra, dependendo do tema. Por exemplo os estónios, são um povo muito mais rigoroso, frio, como os alemães. É uma coisa impressionante. Não têm sentido de humor nenhum.

Esta entrevista foi publicada na edição de primavera da revista Líder

Tenha acesso ao dossier Guerra na Ucrânia – Act now for peace aqui.
Subscreva a Líder AQUI.

Arquivado em:Entrevistas

Sustentabilidade como um todo, maior do que a soma das partes

30 Março, 2022 by Denise Calado

Estudar a sustentabilidade enquanto paradoxo e sob um ponto de vista sistémico, como parte de um todo, em que o relógio não para, e temos de ser rápidos mas lentos, atuar urgentemente, mas pensar a longo prazo. Natalie Slawinski é Diretora do Centro de Inovação Social e Sustentável (CSSI) da Gustavson School of Business, da Universidade de Victoria no Canadá, e investigadora associada do estudo do paradoxo na sustentabilidade.

No ensino e na investigação, o foco do seu trabalho está na abordagem da sustentabilidade como uma parte central no negócio das empresas que devem ser responsabilizadas e agir em parceria, sabendo que sozinhas não alcançam o “ser sustentável”.

 

Por: Rita Saldanha e Miguel Pina e Cunha Fotos: DR

 

Quais as principais abordagens a considerar pelas organizações na gestão da sustentabilidade?

A sustentabilidade ainda é hoje considerada como uma parcela do negócio, sobre a qual as organizações calculam o retorno do investimento. A sustentabilidade é, na verdade, muito mais complexa do que isso, principalmente por ser um imperativo e não uma coisa “simpática de se fazer”. Já há uma pressão na sociedade e instituições, quando usamos a linguagem da “emergência”, o que revela a sua importância. Existem uma série de ferramentas que permitem gerir e medir a sustentabilidade, através de números e métricas, e fazer posteriormente o seu report. Não é fácil medir alguns destes indicadores, mas é necessário pois as empresas devem mostrar–se responsáveis perante os seus shareholders e stakeholders. Os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) são a framework indicada para suportar o progresso das empresas, que podem usar os diferentes indicadores para estabelecer e cumprir as suas metas.

 

E é possível alcançar essas metas até 2030?

Enquanto sociedade global, as nossas ações sobre a sustentabilidade têm tido um crescimento exponencial. Há 10 anos organizações e governos falavam disso mas pouco era feito, hoje vemos um progresso incrível. Em relação aos ODS, quando a ONU refere o lugar onde estamos, a mensagem é a de que não é suficiente e é preciso rapidez. As organizações que queiram gerir a sustentabilidade de forma eficaz têm de pensar a longo termo, mas têm de atuar urgentemente, relacionando o curto com o longo prazo. Outra questão é que as organizações não vão conseguir fazê-lo sozinhas, e por isso, precisam de criar parcerias numa colaboração inter-organizacional e entre setores. O assunto é muito maior do que uma só organização e difícil de enfrentar se não colaborarem juntos. E isto leva-nos ao ODS n.º 17 que é o das “Parcerias e meios de implementação” que já ouvi ser o mais difícil de alcançar, pois há muitas barreiras a uma colaboração efetiva.

 

O seu trabalho explora o paradoxo em particular. Como pode a visão paradoxal ajudar à sustentabilidade?

Gosto de falar sobre o paradoxo e vejo-o como uma saída importante da nossa situação atual. Há uma forma redundante de resolução dos problemas, tanto nas empresas, organizações, assim como nas escolas, que se resume ao olhar para a forma mais eficiente de se resolver uma situação. E a forma mais eficiente nem sempre é a melhor. Por vezes temos de enfrentar um problema em toda a sua complexidade, numa abordagem holística, e aí que o paradoxo pode ajudar. Permite-nos viver no desconforto e permanecer nele, e é nessa complexidade que as melhores respostas podem emergir. Não tem mal se não tivermos uma resposta rápida e eficiente, pois esta evita uma “escolha falsa”. Somos ensinados a fazer escolhas, entre A e B, e é nesta base que as organizações constroem as suas práticas, de maneira a chegar à resposta certa. Acontece que, algumas vezes, não há uma única resposta certa, e não temos de escolher entre A e B, podemos antes pensar em ambasas hipóteses. E esse é o posicionamento certo para olhar a sustentabilidade.

 

Porque é o tempo tão importante na gestão da sustentabilidade?

A definição mais universal de sustentabilidade, ou de desenvolvimento sustentável, é atender às necessidades do presente, sem comprometer as gerações futuras. Nesta definição, o papel do tempo está impregnado, temos de agir urgentemente, mas temos de pensar nos efeitos das nossas ações no Planeta. Temos de equilibrar o tempo, falar do curto e do longo prazo, sem ter de escolher entre eles. Temos de ir rápido, mas também devagar para depois acelerar. Há várias dimensões temporais para a sustentabilidade, todas elas críticas.

 

Quais são os principais erros que as organizações estão a cometer nesse campo?

Quando as organizações são redundantes na maneira como gerem os seus negócios e olham para a sustentabilidade, como apenas uma parte da sua estrutura, isso é um erro. Não estão a ver a big picture, e o impacto que têm nas cadeias de valor e abastecimento, bem como oportunidades de colaborar ou endereçar o assunto. Um dos erros que vejo no setor das indústrias poluentes é ver os ativistas como um aborrecimento e não como algo que pode afetar o negócio. E esse impacto não é uma ideia imediata, mas tem efeitos.

 

Qual a vantagem de tratar a sustentabilidade sob a ótica sistémica e promovendo a sua mudança?

O pensamento sistémico ajuda-nos a olhar para o problema no seu todo, e não apenas para uma parte, e a perceber como as coisas estão relacionadas de forma não linear. Daí não são possíveis as soluções simples, temos de adotar uma forma de pensar mais complexa de que a sustentabilidade é maior do que a soma das partes. O benefício de tratar a sustentabilidade de uma ótica sistémica é que temos melhores soluções, e não soluções perfeitas.

 

O que podemos fazer individualmente numa atitude sustentável?

Dada a magnitude dos problemas que enfrentamos há uma tendência de sentirmo-nos sem esperança, e de que só podemos contribuir com coisas pequenas, que não têm peso ou importância. Que diferença faz se for ao supermercado e comprar orgânico se a maioria das pessoas não o faz? Como pode isso influenciar? Mas na verdade, cada pequena ação está a contribuir para um bem maior e, por vezes, não vemos as consequências das nossas ações. Aliás, podemos nunca vir a saber as consequências dos nossos atos, mas isso não é razão para não agir.

Há uma desconsideração sobre o poder da nossa influência, porque não somos apenas indivíduos que fazem boas escolhas de consumo, mas antes trabalhamos em organizações onde somos agentes de mudança e de sustentabilidade. Cada vez mais vejo as pessoas a trabalhar ao nível local, o que é a forma ideal para se ver as consequências das ações e mudanças, o que dá uma grande sensação de empowerment. É motivante e dá esperança. Essa conexão é o motor para as grandes mudanças, que começam por ser pequenas e vão crescendo. Pode não acontecer exatamente da forma como pretendíamos, mas eventualmente alguma coisa vai acontecer. Fazer alguma coisa é melhor do que não fazer nada. Não fazer nada é uma escolha de não ação, e isso não é bom nem ajuda ninguém.

 

E qual o papel das lideranças?

As lideranças motivam os outros a agirem, a envolverem-se na sustentabilidade e em ações positivas que melhoram a vida de outras pessoas, dos ecossistemas e da Natureza. A liderança funciona pelo exemplo aos mostrar que algo que parece ser impossível pode ser feito. É motivar os outros a dar o melhor de si, o que envolve uma postura sustentável, porque o melhor que podemos fazer é viver em harmonia com outras pessoas e com a Natureza. Vejo a liderança de caráter distributivo, em que todos podem ser agentes de mudança e ter um impacto positivo.

 

 

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Ucrânia, o “cesto de pão” da Europa

30 Março, 2022 by Denise Calado

Os cereais fazem parte da alimentação dos homens, dos animais, e são também matéria-prima para muitos produtos como massas, óleos, farinhas, entre outros. É certo, e confirmado pela Irish Farmers Association, que a Ucrânia e a Rússia são os principais exportadores de cereais, representando mais de um quarto das exportações mundiais de trigo.

Se antes as reservas de cereais já escasseavam devido à seca extrema, o conflito veio deteriorar a situação, e, em consequência, os preços de cereais e de outros produtos aumentou de forma rápida. Muitos dos agricultores têm usado os seus tratores não para trabalharem nos seus terrenos, mas para transportar tanques e porta-tropas russos abandonados, avançou artigo do World Economic Forum.

Só na Ucrânia, 42 milhões de hectares estão cobertos por terras agrícolas férteis, e é na região de sudeste onde se concentra grande parte do cultivo de trigo, precisamente, uma das regiões do país que tem sido mais fustigada pelos bombardeamentos. Estima-se que a Ucrânia exporte menos quatro milhões de toneladas de trigo este ano, do que o previsto anteriormente.

Mas o conflito afeta igualmente de forma atroz outros setores. Também combustíveis e fertilizantes têm sido escassos, e novas barreiras logísticas e restrições vieram afetar as exportações da Rússia, que tem sofrido sanções. Note-se que quase um terço dos fertilizantes usados na União Europeia vem da Rússia, também ela principal fornecedora mundial.

Este panorama geral veio trazer impactos nas metas de sustentabilidade para o setor agrícola, sendo que tem surgido o apelo na redução das metas a fim de dar resposta à escassez. A Reuters avança que a União Europeia poderá permitir que agricultores contornem regras de preservação de solos e biodiversidade para poderem plantar culturas para animais em terrenos pousios. No Brasil, tem-se abordado a ideia de permitir a exploração mineira em terras indígenas a fim de sustentar o suplemento de fertilizantes.

As atuais circunstâncias levantam o receio de que a escassez de alimentos conduza à agitação social e a esforços que possam ser prejudiciais ao ambiente, e poderá ser especialmente devastadora para países frágeis ou dependentes das importações. Nesse sentido, a agência alimentar das Nações Unidas tem recomendado aos países que procurem por fornecedores alternativos e diversifiquem a sua produção nacional.

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Como dar continuidade aos serviços em tempos de guerra?

30 Março, 2022 by Denise Calado

Garantir a continuidade de prestação de serviços e negócios torna-se ainda mais desafiante em tempos de crise. Não só as empresas têm investido em planos, como os governos têm procurado por soluções que garantam a continuidade do fornecimento de serviços eletrónicos (e-services), que passam pela formação de empresas, pagamento de licenças e impostos, entre outros, tentando facilitar as interações entre as agências e o público.

Porém, os projetos governais tendem a ser complexos, e nem todos têm uma probabilidade positiva de sucesso. De acordo com um estudo do meio de comunicação sem fins lucrativos The Conversation, apenas um em cada cinco projetos terá sucesso a longo prazo, enquanto um em cada três está condenado ao fracasso. Um dos principais contribuidores para o insucesso destas iniciativas de e-services nos países em desenvolvimento está na abordagem da sua implementação, e na negligência de políticas e processos governamentais que acompanhem a tecnologia.

Andrius Kaikaris, Chief Operating Officer da NRD Companies, grupo global de empresas de Tecnologias de Informação (TI) e consultoria,  no que toca à criação de continuidade nos serviços em situações de crise, revela que conectar os sistemas de TI aos dados das agências governamentais irá permitir “a distribuição de responsabilidades entre as agências quando alguns sistemas falham durante uma crise”, dando o exemplo de, se um dia um sistema de segurança social entrar em colapso, os seus deveres poderão ser assumidos por outra autoridade tributária, assegurando a preservação dos dados e continuidade da prestação de serviço.

Foi nesse contexto de continuidade em tempos de crise que a NRD Companies lançou a plataforma de serviços eletrónicos GxP, centrada no cliente, e capaz de atuar como plataforma autónoma ou como parte de uma solução interinstitucional. Uma das suas principais vantagens é possuir código simplificado, acessível a qualquer funcionário, que poderá lançar os “próprios novos serviços eletrónicos, enquanto serviços existentes podem ser facilmente adaptados para corresponder às necessidades em evolução”, avançou Mindaugas Glodas, Chief Executive Officer da NRD Companies, acrescentando que a plataforma possibilita a disponibilidade imediata de dados, sem a necessidade de contactar outras instituições.

A Continuidade do Planeamento de Operações (COOP) é uma iniciativa que visa garantir a continuidade do desempenho de funções, através da transferência de operações para um local de continuidade alternativo, independentemente das circunstâncias adversas, sejam ameaças tecnológicas, de segurança, naturais, ou causadas por obra humana.

Glodas defende que a cooperação entre instituições e governos não apenas irá agilizar e tornar mais eficientes os processos, como “também proporcionará aos cidadãos serviços eletrónicos que correspondam às suas expectativas mesmo em situações de emergência, incluindo a circulação de populações dentro e fora das fronteiras do país”.

 

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Humilhação – Qual Humilhação?

30 Março, 2022 by Denise Calado

Há por aí uma narrativa que procura mitigar a gravidade da invasão da Ucrânia com uma alegada humilhação a que a Rússia teria sido submetida após a queda do Muro de Berlim e a implosão do Império Soviético. Nuno Severiano Teixeira, Professor Catedrático na Universidade Nova de Lisboa, especialista em História Militar e Relações Internacionais, ex-Ministro da Defesa e da Administração Interna, tem desmontado a tese. A Rússia manteve o poder de veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas, recebeu ajuda técnica e económica dos EUA e da Europa, e foram-lhe criadas condições para a sua integração no sistema internacional. Fez parte do G8 – até ter anexado a Crimeia. Ao longo das décadas, sempre vimos Putin sentado, no mesmo palco, em companhia dos líderes das maiores potências. Os antigos satélites da URSS que aderiram à NATO fizeram-no de livre vontade, para escaparam à tirania. Tinham razões para isso, confirma-se agora mais do que nunca. E jamais fizeram bullying aos vizinhos.  

Portanto, a Rússia e o seu autocrata impiedoso não foram humilhados – sentiram-se humilhados. Esse sentimento não é, de modo algum, argumento ético suficiente para justificar a barbaridade putiniana. Trump também se sentiu humilhado pela derrota eleitoral. Mas não podemos aceitar que o seu hiper-narcisismo desonesto o tenha conduzido a propalar a mentira de que a eleição lhe foi roubada. André Ventura, que se sente humilhado quando lhe apontam dislates racistas e xenófobos, torna-se malcriado e adota o papel da vítima. O PCP, que se sente humilhado pelas críticas dirigidas à sua cobarde e hipócrita posição sobre o conflito agora em curso, aponta as baterias acusatórias aos seus “inimigos”. Recorde-se que os dois eurodeputados do (anti-imperialista!) PCP votaram contra a resolução do Parlamento Europeu que condenou a invasão da Ucrânia, colocando-se do mesmo lado da barricada de extremistas da direita. Putin, que se sente humilhado pela resistência corajosa do povo ucraniano, mantem (e, quem sabe, agravará) a sua toada violenta. Eu, que sou o melhor professor deste Mundo e do outro, também me sinto humilhado por uma pergunta de um aluno a que não sei responder. Por isso, reprovo-o. O CEO da minha empresa, que se sentiu humilhado quando dele discordei, despediu-me. 

O facto de alguém se sentir humilhado não é justificação para os seus atos agressivos e violentos. Caso contrário, teríamos de legitimar o sentimento de humilhação desenvolvido por líderes que não gostam de ser contrariados quando humilham os outros. Para vivermos em comunidade, com alguma paz, precisamos de acordar princípios de sã convivência, e atuar em conformidade. Argumentos de poder, força e grandeza imperial não são eticamente legítimos para justificar violações dos direitos humanos e da dignidade dos povos – mesmo quando esses argumentos são repetidos vezes sem conta e se transformam na nova normalidade. A literatura que ao longo de anos foi sendo publicada sobre Putin mostra que estamos perante um líder muito pouco recomendável. Humilha, sem qualquer pudor, mesmo alguns dos membros da sua entourage. Humilha violentamente um país soberano. Mente descaradamente. É nutrido por pulsões imperialistas. É o vértice de uma cleptocracia. Continua a ser apoiado por milhões e milhões dos seus concidadãos. Como podemos legitimar o seu sentimento de humilhação? Não sejamos anjinhos – nem com ele, nem com qualquer pequeno ou grande ditador que, na vida política ou na empresarial, usa a nossa fraqueza física e moral para nos agredir. Temamos tanto o ditador quanto os que, ativa ou passivamente, lhe acalentam a alma sórdida. 

Este artigo foi publicado na edição de primavera da revista Líder
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The Great Resignation: o que leva as pessoas a demitirem-se?

30 Março, 2022 by Denise Calado

A Grande Demissão (“The Great Resignation”) foi o termo cunhado em maio de 2021 por Anthony Klotz, Professor na Mays Business School do Texas A&M University, para explicar o fenómeno, especialmente visível nos Estados Unidos da América, que levou à demissão voluntária em massa de milhares de colaboradores dos seus empregos. Dados do U.S Bureau of Labor Statistics fundamentam que a taxa de despedimentos atingiu valores históricos, alcançando, só em setembro de 2021, os 3%, o que em média representa três em cada cem indivíduos. Os adultos dos 30 aos 45 anos foram os que deram mais expressão a esta enchente de saídas.

Um estudo recentemente divulgado pela McKinsey, com mais de cinco mil colaboradores provenientes da Austrália, Singapura, Estados Unidos, Canadá e Reino Unido, avança que 40% dos trabalhadores americanos admitem a possibilidade de abandonar no curto prazo o seu emprego, sendo que 64% desses mesmos funcionários garantiu sair mesmo sem ter em vista outro trabalho.

Os dados demonstram que o facto de os funcionários não terem outras opções no imediato não é impedimento para saírem. As pessoas estão cada vez mais resolutas na sua decisão, demonstrando alguma inflexibilidade em potenciais negociações por parte das empresas empregadoras, que lutam para reter os seus talentos.

Não se trata pura e simplesmente de uma forma de desistência. As pessoas estão à procura de melhores condições. Embora aparente ser uma consequência direta da Pandemia, as razões tendem a ser mais complexas e envolvem vários panoramas. Deixou de ser uma questão monetária, daí muitas negociações falharem quando as empresas tentam oferecer maiores benefícios financeiros aos seus colaboradores.

A Pandemia conduziu a um período de grande reflexão individual, fechando-nos nas nossas casas, nas nossas mentes, nas nossas realidades, induzindo a que repensássemos a forma como estamos a viver as nossas vidas. Para uns, o próprio trabalho híbrido acabou por expandir novos horizontes e ser um fator decisivo do querer ir ou ficar. Não só levou a entender que era possível trabalhar através de casa sem comprometer a produtividade, como deu a entender que tal flexibilidade permitia ter mais tempo para a família, para si próprios, evitando gastar horas em deslocações. Em suma, muitos submetem as suas demissões no desejo de encontrar empregos que forneçam maior flexibilidade para trabalharem onde quiserem, quando quiserem, de forma a terem espaço para apostar nas suas relações familiares e pessoais, bem-estar mental e físico.

Para outros, o facto de quererem sair pode ter conotações simbólicas, idealistas. Os colaboradores querem e pedem por algo mais, que vai além da própria empresa. São pessoas que se aperceberam que não eram felizes nos cargos que exerciam e querem, por isso, sair da zona de conforto, para explorar trabalhos novos em áreas que as cativam. São pessoas que, no limite, não se identificam com os valores da empresa e querem trabalhar em organizações que vão ao encontro dos seus próprios valores, sejam eles sociais, ambientais, culturais.

A realidade é que o estado do nosso Planeta e da nossa sociedade é também um fator seletivo. Com a COP26 a relembrar que medidas urgentes são necessárias para atingir as zero emissões e garantir um futuro sustentável, protestos como o #BlackLivesMatter, que vieram relembrar a ainda presente discriminação social, ou o #metoo, que conduziu a uma maior consciencialização sobre assédio, levam os colaboradores a marcar uma posição e a não querer fazer parte de uma empresa cuja cultura não esteja voltada para encontrar soluções aos atuais problemas ou que, pior, estejam a contribuir para que estes ainda existam.

Embora o fenómeno tenha mais expressão nos Estados Unidos, tem também vindo a ser notado na Europa, podendo até vir a ser sentido em Portugal, porém sem a mesma intensidade. Não é de agora que as empresas tentam procurar por soluções e formas de reter os funcionários, o contexto atual veio apenas acelerar as tendências que já se estavam a começar a sentir. Mais do que nunca, os líderes são chamados a conhecer a realidade dos seus colaboradores e a reconhecer que são mais do que uma garantia de realização do trabalho.

 

Fontes: World Economic Forum, McKinsey&Company, Observador

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