O que significa ‘ser um Olímpico’ e o que está em jogo quando se qualificam e preparam as equipas que participam nesta prova? E qual a verdadeira emoção de ter Portugal escrito das costas?. «É uma honra gigante e uma responsabilidade dizer que levamos ‘Portugal’ nas costas, não são só umas letras. Sabemos que estamos a trabalhar para o país, é isso, efetivamente, que sentimos».
As palavras são de Marco Alves, Chefe de Missão da Comitiva Olímpica Portuguesa, com quem a Líder conversou a propósito da 33ª edição dos Jogos Olímpicos (JO) de Verão, a arrancar já na esta sexta-feira, dia 26, em Paris.
Até ao dia 11 de agosto, cerca de 10.500 atletas vão estar a competir pelo pódio e as almejadas medalhas olímpicas, naquele que é o auge de todas as provas desportivas mundiais. Portugal vai estar representado por 73 atletas, num total de 15 modalidades, em que pela primeira vez, há mais mulheres (37) do que homens (36).
Marco Alves é o responsável pela representação nacional, cargo que ocupa, no Comité Olímpico Português, desde os JO de Tóquio 2020 (realizados em 2021), e não é, nem foi, atleta!
A ginástica da logística e o pódio do café!
Por esta altura, Marco Alves já está na Aldeia Olímpica em Paris, onde já chegaram Gustavo Ribeiro (skateaboarding), Marcos Freitas, Tiago Apolónia, Jieni Shao, Fu Yu (Ténis de Mesa) e Filipa Martins (Ginástica).
Na sexta-feira passada, dia 19, viajaram para o Tahiti as surfistas Teresa Bonvalot e Yolanda Hopkins e no sábado os velejadores Eduardo Marques, Carolina João, Diogo Costa e Mafalda Pires de Lima, foram para Marselha.
Até ao final da semana irão chegar as restantes equipas de atletas. A conversa com a Líder aconteceu em junho, e o chefe de missão foi muito claro sobre o seu papel e o do Comité Olímpico. «Os atletas têm de se preocupar em treinar e em competir. Tudo o resto, tudo o que é preciso para que isto aconteça, não pode ser uma preocupação deles, é uma preocupação nossa, com cada uma das Federações Nacionais», enfatiza.
Carregar contentores, transportar barcos, cavalos e centenas de material, implica uma logística complexa. A equipa de canoagem leva o material por terra, tal como o ciclismo. Com o surf a ter lugar na Polinésia Francesa, uma parte da equipa está a mais de 15 mil quilómetros de distância. O tiro com armas de caça também implica outro transporte e deslocações para a atleta Maria Inês Barros, que vai estar a competir a 260 quilómetros de Paris.

Temos de fazer todo este puzzle de preparação sendo que não há um dia para que isto tudo aconteça. Durante todos os jogos, em todos os dias, há coisas a acontecer do ponto de vista quer da chegada, partida e necessidades dos atletas
E ficamos ainda a saber qual é a principal preocupação durante a estadia em Paris – o café! «Uma das coisas mais valorizadas é o café», um bem essencial para a maioria da comitiva dos atletas portugueses.
No momento da entrevista, em meados de junho, Portugal tinha apurados 50 atletas, sendo que o processo de qualificação só terminou a 30 de junho. «Apenas nos primeiros dias de julho teremos a composição final, quer em termos de número de modalidades, atletas e número de oficiais que podemos levar para dar enquadramento a cada destes atletas».
Ou seja, é tudo feito «praticamente três semanas antes de partir para Paris». Daí, o Comité tem de ter vários planos, e preparar, efetivamente, vários cenários que depois podem, ou não, ser concretizados.
As qualificações e a competição
Mérito desportivo é o que garante a qualificação, tal como Marco Alves explica: «Nós conhecemos os nossos atletas, mas muitas vezes não é só com eles que temos contato, também conhecemos os seus adversários. Portanto, temos uma previsão de participação já há bastante tempo, mas só será, efetivamente, conhecida muito próximo da nossa partida».
O número limite, na edição de Países 2024, são 10.500 atletas e não existem cotas por países, mas por modalidades. Usando como exemplo a Seleção Portuguesa de Futebol, e a participação no Euro, nos JO não vão todos ao mesmo tempo, e depois, regressam juntos. «Estamos dependentes das qualificações, do calendário de competição, do número de dias para cada uma das modalidades, porque cada modalidade tem características específicas de quantos dias precisa para se preparar na cidade onde vai competir», explica o Chefe de Missão.
As primeiras qualificações «são normalmente disputadas no ano menos dois dos Jogos». Independentemente do número de atletas, o que é importante perceber é em quantos «eventos de medalha» Portugal vai participar, sendo que no total existem 330 eventos de medalha.
Conforme diz Marco Alves, há uma média de cerca de mil medalhas distribuídas durante os JO, para os 10.500 atletas, sendo que há os que repetem medalhas. Ou seja, mais de nove mil não vão trazer para casa «o mais alto reconhecimento deste mérito desportivo».
Em termos do nível de competitividade da participação da equipa portuguesa, um dos fatores que pesa, relaciona-se com «o número de eventos em que Portugal será representado e que pode efetivamente conquistar algum sucesso», refere. No momento da conversa, Marco Alves traçava o objetivo de Portugal chegar a 66 eventos de medalha, e na verdade, atingiu os 67 eventos de medalha.
Qual a importância deste momento nas carreiras dos atletas e o que sentem os que partem para Paris?
Marco Alves partilha que cerca de 70% dos atletas só participam numa única edição dos Jogos Olímpicos, o que por si representa uma preparação de quatro, oito, doze e, por vezes, até 16 anos para conseguir ir uma primeira vez, e depois não ser possível repetir essa experiência.
Um dado curioso: João Costa é o atleta olímpico português com mais qualificações em JO, com cinco presenças na competição, tendo falhado agora a qualificação para Paris 2024.
Portugal não é só futebol
O futebol é o desporto rei em Portugal, mas por ironia, a equipa não se qualificou. A última vez foi em 2016, no Rio, e tanto para Tóquio como para Paris, a modalidade não garantiu a presença.
«O futebol tem um espaço que conquistou, que é inegável e não seria justo também caracterizarmos o futebol de uma maneira em que não lhe reconhecessemos o devido valor», reitera Marco Alves.
Efetivamente, «há um conjunto de modalidades que pelo facto de não ter uma expressão mediática elevada faz com que as pessoas não tenham conhecimento do que é preciso fazer para chegar aos Jogos Olímpicos».
É muito fácil cairmos naquele discurso de ‘não vai lá ninguém’, e que nós estamos habituados. A questão é as pessoas conhecerem o processo e perceberem o que é preciso fazer em termos destes quatro anos, destes dois anos de qualificação, para conseguir garantir uma qualificação para os Jogos Olímpicos
De modalidade para modalidade as regras são, efetivamente, muito díspares. Há rankings que os atletas têm de cumprir, num conjunto de resultados para marcarem pontos, há outros que têm de ir ao Campeonato do Mundo e ficar nos sete, ou nos 12 primeiros lugares. «E ainda têm de ter uma popularidade grande, na maior parte das modalidades, para poder alcançar esta qualificação para os jogos», partilha.
Comité Olímpico
O papel do Comité Olímpico Português (COP) é o da organização da participação em qualquer evento patrocinado, ou que seja reconhecido, pelo Comité Olímpico Internacional (COI). E há várias missões ao longo do intervalo entre cada edição dos JO.
Festivais olímpicos na região europeia, JO de Inglaterra, jogos europeus, mediterrâneos, num total entre 11 a 12 missões anuais, que decorrem entre o término dos Jogos Olímpicos e os próximos.
Cumpre ao COP cuidar da sua participação e aquilo que é «a preocupação de que os atletas estejam focados no treino e na competição e tudo o resto seja da nossa responsabilidade», e a função do Chefe de Missão é fazer isto acontecer.
Marco Alves assume-se um «apaixonado» pela Aldeia Olímpica, um lugar que explica ser feito de «construções preparadas para os JO, mas após terminarem os Jogos Paralímpicos, começam a ser convertidas para se tornarem habitações comuns».
A Aldeia Olímpica é, para si, «um sítio mágico por ser uma bolha onde os atletas não têm interação com o exterior, e onde se podem ver as maiores referências nacionais, e mundiais, a interagir de uma forma completamente descontraída num ambiente muito informal».
Haver um espaço reservado que albergue os milhares de atletas dá uma dimensão real desta prova. Na sua opinião, «uma das imagens de marca dos Jogos é o facto de haver um lugar para todas as modalidades». Paralelamente à mística, na Aldeia Olímpica «respira-se uma ansiedade, pois cada atleta está ali em competição e tudo está a fervilhar dentro deles».






