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Rita Saldanha

Mês do orgulho LGBTI+: «Quando as pessoas são verdadeiras no trabalho, são melhores» (Cláudia Domingues)

17 Junho, 2024 by Rita Saldanha

Um Mundo cada vez mais diversificado exige a mesma adaptação das empresas, na forma como recrutam, comunicam e vendem. A IKEA é uma destas organizações, com uma abordagem especialmente inclusiva no que toca à diversidade, que vai além da comunicação em datas especiais: está impressa nos valores e cultura da organização.

No mês do orgulho LGBTI+, a Líder conversa com Cláudia Domingues, Diretora de Comunicação da IKEA, a propósito da campanha “Dar abrigo ao orgulho” e sobre a importância da diversidade e inclusão nas empresas e o flagelo do falso ativismo de causas.

Há lugar para a sexualidade e questões de género nas organizações ou deve existir uma separação entre a pessoa que somos e a pessoa do trabalho?

A prática tem-nos provado que estamos no caminho certo, que as pessoas devem sentir-se confortáveis, à vontade e em casa quando estão a trabalhar. Quando as pessoas são verdadeiras no trabalho, são melhores, mais produtivas, mais criativas, e estão mais à vontade, porque não há uma parte da sua vida que têm de esconder.

O que nós acreditamos é que as pessoas não se devem esconder, mas também não têm de falar disso se não quiserem. Tem a ver com poderem entregar aquilo que têm no local de trabalho de uma forma aberta, descontraída e despreocupada. Significa estar numa reunião, começar por perguntar como foi o fim de semana e uma colega nossa poder falar dela e da sua namorada e ser natural, não um problema. Procuramos promover uma cultura de abertura e de segurança para que as pessoas possam ser elas próprias. Ainda há pessoas que não se sentem confortáveis para abertamente falarem do assunto e está tudo bem, isso é da sua dimensão privada. A grande maioria diz-nos que se sente em casa na IKEA, confortável para ser quem é.

 

Como se imprime essa tolerância e abertura no dia-a-dia de uma empresa?

De duas formas principais: primeiro, no recrutamento. Eu diria que uma das grandes forças desta empresa é sermos recrutados de acordo com os nossos valores em primeiro lugar, antes de saber se temos um ótimo currículo ou se andámos numa boa universidade. A primeira entrevista de emprego é sobre valores, no que é que as pessoas acreditam e o que é que mais valorizam. Procuramos pessoas que tenham valores humanistas e de tolerância, que se identificam com os da empresa,

O segundo passo é promover e naturalizar estas conversas, tendo regularmente sessões com partilhas de colegas nossos. A Opus Diversidades vem regularmente falar com os nossos colaboradores sobre o que é ou não integração e proporcionar workshops, dedicados a microagressões, por exemplo. Abrir os olhos e educarmo-nos constantemente para isto é muito relevante.

Com tolerância e abertura, a vida não tem de ser mais complicada do que ela já é. Trazer isto e naturalizar este discurso é muito importante.

Tal como procuramos recrutar pessoas diferentes e diversas, também tentamos falar com pessoas diferentes e diversas. Isto significa diferentes dimensões: género, etnia, pessoas com deficiência, o que for. Fazemo-lo na tentativa de refletir a sociedade tal como ela é: Cores diferentes, alturas diferentes, formatos de corpo diferentes. Outras vezes é para marcar um ponto, chamar a atenção para o tema.

É importante que todas as organizações tenham uma opinião e sejam vocais sobre a causa LGBTI+?

Cada empresa saberá. Achamos que temos um papel de normalização, mas não temos de impor a nossa opinião e visão do Mundo, sobre as outras empresas. O que eu acho que a maior parte das pessoas valoriza é que seja um discurso consistente e coerente e não tomar estes temas por estarem na moda. Aí é algo oco, pouco consistente, e acho que os consumidores percebem.

Devemos inspirar por aquilo que fazemos, dar o exemplo, porque se calhar vai ajudar empresas que estão nesse caminho a sentirem-se mais seguras para o fazer.

Existe um grupo de empresas, ao qual pertencemos, chamado Líderes pela Igualdade, que se junta mais ou menos de três em três meses para discutir temas relacionados com diversidade e inclusão. O tema LGBTI+ é um tema que é consistente com muitas destas empresas que já têm ações muito concretas, acima de tudo internas, e isso é muito interessante.

Como surgiu a campanha “Dar abrigo ao orgulho”?

Ao longo da investigação para a campanha deste ano, um dos dados que mais nos tocou foi saber que há uma sobrerrepresentação de pessoas da comunidade LGBTI+ em situação de sem-abrigo. Pode ser por discriminação no local de trabalho, no sentido de ser mais difícil encontrar emprego, ou até da não aceitação na família. Este foi o grande insight para a campanha “Dar abrigo ao orgulho”, feita em parceria com a Opus Diversidade, que vem na sequência de campanhas de anos anteriores sobre a importância de nos sentirmos livres, seguros e em casa no local de trabalho.

Nós sabemos que a comunidade LGBTI+ sofre diferentes tipos de discriminação e que muitas vezes esconde quem verdadeiramente é socialmente, até em casa. São pessoas que podem não conseguir entregar tudo aquilo que são no local de trabalho.

Achamos que temos a responsabilidade de criar um ambiente mais inclusivo, onde cada um possa ser quem é, sem qualquer tipo de discriminação ou represália. Por isso, ao longo dos anos, temos feito este percurso de chamar e convidar colegas nossos, que são assumidamente da comunidade, a partilharem os seus exemplos, histórias de vida e de integração no local de trabalho. Começámos, como fazemos em todas as nossas campanhas, por dentro, a falar com os nossos colegas, a perceber o que é que empresas e empregadores podem fazer para integrar melhor estas pessoas no local de trabalho. Procurámos apoiar as ONG que estão a trabalhar no terreno, a apoiar as comunidades sem-abrigo, e também patrocinar sessões de formação, que a associação Opus Diversidades vai promover junto dessas entidades.

Para a campanha “Dar abrigo ao orgulho” trouxemos para as lojas um enorme placar onde convidámos os nossos clientes, que iam simplesmente a passar, a deixarem mensagens de apoio e amor, que vão ser impressas numa manta para as pessoas em situação de sem-abrigo. Esta é uma campanha que tem alguma continuidade, por ser um tema que trabalhamos de forma muito consistente ao longo dos anos, de dentro para fora.

 

Como têm sido recebidas as posições e campanhas LGBTI+ pelo público?

Vivemos numa sociedade mais progressista, mas ao mesmo tempo mais polarizada e onde as vozes negativas têm um eco através das redes sociais. Internamente encontramos zero resistência [a estas iniciativas], pelo contrário, há mesmo uma naturalização de que este tema faz parte da nossa agenda.

Exteriormente, começamos a olhar para o nosso número de seguidores e percebemos que na semana do Dia Internacional contra a Homofobia, a Transfobia e a Bifobia perdemos x mil seguidores.

Claro que sentimos esse impacto, mas já sabemos que ele vai chegar, portanto, é preciso estarmos preparados para isso, sermos consistentes e resilientes. Se é algo em que nós verdadeiramente acreditamos, não faz sentido abdicar disso só porque temos um grupo de pessoas que não concorda. Esta é a nossa posição e as pessoas não têm de concordar, acreditamos é que também não têm de discriminar.

 

Que ações LGBTI+ existem direcionadas para os vossos colaboradores?

Na IKEA, temos uma estratégia bastante alargada e consolidada de diversidade e inclusão, que está integrada no nosso negócio e na forma como nós olhamos para tudo, não apenas para os recursos humanos. Começa pela questão da igualdade de género, que é o tema mais antigo e que trabalhamos há mais tempo, de uma forma mais estruturada, acreditando que homens e mulheres devem ter posições e peso equivalentes em termos de liderança e de salários.

Temos também trabalhado de uma forma mais estruturada todo o tema das pessoas com deficiência. Sabemos que é importante integrar esta comunidade no mercado de trabalho, mas também, por sermos um negócio de casa, tentar fazer com que este seja um lugar mais funcional, mais confortável e mais bonito. Temos olhado para este target de clientes que precisam de apoio – e aqui estamos a falar também de pessoas mais velhas – no contexto de uma população que está a envelhecer, que tem algumas necessidades funcionais em casa.

Fomos percebendo, com alguma vaidade, que temos feito um ótimo trabalho nesta área, porque as pessoas vêm ter connosco espontaneamente, a dizer que gostavam de dar a cara e o testemunho, para poderem inspirar outras pessoas e marcas. A questão LGBTI+ é muito emocional para nós, muito próxima, porque percebemos que é um tema privado, difícil de trabalhar, de falar, e que afeta as pessoas, na sua vida profissional e em casa. Todos os anos tentamos aproveitar os momentos mais marcantes do ano, que normalmente têm a ver com datas que são comuns, como o Dia Internacional contra a Homofobia, a Transfobia e a Bifobia, que acontece a 17 de maio. Também ao longo do mês de junho, por ser o mês do Pride e quando o tema é mais discutido e falado de uma forma mais aberta.

Houve uma vontade espontânea de fazer parte de campanhas LGBTI+ que fizemos no passado, o que para nós é muito significativo. Achámos que íamos ter quatro ou cinco pessoas a querer falar do assunto e de repente tivemos 19 pessoas, o que mostrou que se sentem seguras a falar do assunto.

 

Junho é o mês do orgulho LGBTI+ e muitas são as marcas que lançam campanhas e produtos nesta época. O ativismo pode ser pontual e sempre bem-vindo, ou poderá ser visto como um aproveitamento da causa?

Pode ser visto como superficial, pontual e falso até, se não for integrado e verdadeiro naquilo que a empresa acredita, faz e diz.

Eu acho que estes momentos são relevantes para a comunicação porque há uma atenção mediática para o tema. É como vender bolas de Natal no Natal, é aí que se fala do assunto. É aproveitar um calendário mediático para fazer chegar a nossa mensagem de uma forma mais clara, provavelmente mais embalada.

O mês do Pride e o Dia Internacional contra a Homofobia, a Transfobia e a Bifobia são momentos de celebração das conquistas, da liberdade, da tolerância. E isso acontece nesta altura, pelo que os temas se tornam mais visíveis.

 

Arquivado em:Entrevistas, LGBTQIA+

Número de milionários e valor das fortunas está a aumentar e exige novos serviços

17 Junho, 2024 by Rita Saldanha

As fortunas dos high-net-worth individuals (HNWI), pessoas com elevado património líquido, atingiram em 2023 um valor recorde de 86,8 mil milhões de dólares. Da mesma forma, a população dos milionários aumentou para os 22,8 milhões de pessoas a nível mundial (aumento de 5,1%), um número que continua a crescer apesar da volatilidade dos mercados.

Os dados são revelados pelo World Wealth Report 2024 do Research Institute da  Capgemini, que mostra que o ano de 2023 superou o movimento de declínio que caracterizou o ano anterior, e as fortunas e os HNWI regressaram a uma rota de crescimento.

Para o estudo foram considerados os 71 países responsáveis por mais de 98% do rendimento nacional bruto e por 98% da capitalização bolsista a nível mundial e inquiridos mais de três mil HNWI, entre os quais 1.300 ultra-ricos (UHNWI), em 26 grandes mercados nas regiões da América do Norte, América Latina, Europa, Médio Oriente, e Ásia-Pacífico.

Principais tendências em todo o mundo

Em 2023, a região da América do Norte registou o maior aumento das grandes fortunas e do número de milionários em todo o mundo, com um crescimento anual de 7,2% em riqueza e de 7,1% em número de pessoas. Este dinamismo está diretamente relacionado com a resiliência económica, o alívio das pressões inflacionistas e a recuperação do mercado acionista nos EUA registados ao longo do último ano. Esta tendência ascendente, ainda que de forma mais moderada, verificou-se igualmente na maioria dos restantes mercados/regiões, tanto em volume de riqueza como em número de indivíduos:

• O crescimento da riqueza e do número de HNWI na Ásia-Pacífico (4,2% e 4,8% respetivamente) e na Europa (3,9% e 4,0% respetivamente) foi mais modesto;
• A América Latina e o Médio Oriente registaram um crescimento mais incipiente, com o volume das fortunas a aumentar apenas 2,3% e 2,9% respetivamente, e o número de HNWI a crescer 2,7% e 2,1% respetivamente;
• A África foi a única região onde o volume da riqueza dos HNWI e o seu número diminuíram devido à queda dos preços das matérias-primas e ao menor fluxo de investimentos estrangeiros.

Em linha com o número crescente de HNWI, a composição dos ativos nas carteiras de investimentos está a evoluir das fortunas para os chamados ativos de «crescimento». Os primeiros dados de 2024 sugerem a normalização da tendência de afetação de ativos em dinheiro e equivalentes (depósitos, fundos monetários, etc.) agora ajustada a uma fatia de 25% do total do portfolio dos investimentos, contrastando claramente com os 34% observados em janeiro de 2023.  O estudo revela também que dois em cada três HNWI revelaram planear investir mais em private equities em 2024 como forma de aproveitarem potenciais oportunidades de crescimento no futuro.

Transferência de fortunas entre gerações e os novos serviços de valor acrescentado

Os ultra-ricos/multimilionários (UHNWI) detêm agora mais de 34% do volume total das fortunas dos HNWI ainda que representem pouco mais de 1% do total da população mundial dos HNWI, constituindo o segmento mais lucrativo para os gestores de fortunas.  O estudo estima que, nas próximas duas décadas, as gerações mais velhas venham a transferir para as mais jovens mais de 80 mil milhões de dólares.

Um fenómeno que irá impulsionar a procura de serviços de valor acrescentado tanto financeiros (gestão de investimentos e planeamento fiscal), como não financeiros (filantropia, serviços de aconselhamento, passion investments e oportunidades de networking). Esta será uma oportunidade significativa de crescimento para as empresas dedicadas à gestão de patrimónios.

A maioria dos HNWI quer apoio para gerir os enviesamentos emocionais

Mais de 65% dos HNWI revelaram que os enviesamentos emocionais influenciam as suas decisões de investimento, especialmente em certas fases das suas vidas, tais como o casamento, o divórcio e a reforma. E 79% quer que os seus gestores de património os ajudem a gerir estes enviesamentos.

Ao integrarem o comportamento financeiro com a Inteligência Artificial (IA) e usarem estas ferramentas, as empresas de gestão de património passam a poder analisar as reações dos clientes às flutuações do mercado e a sugerir a tomada de decisões baseadas em dados e menos suscetíveis de serem influenciadas por enviesamentos emocionais ou cognitivos. O estudo sublinha também, que os sistemas baseados em IA podem analisar dados e detetar padrões difíceis de identificar à primeira vista, permitindo que os gestores de património tomem medidas proativas para aconselharem melhor os seus clientes.

Segundo a análise, os UHNWI aumentaram o número de relações com as empresas de gestão de fortunas de três em 2020, para sete em 2023. Esta tendência sugere que o setor está com dificuldades para disponibilizar o leque e o nível de qualidade dos serviços que este segmento espera e procura. Por outro lado, os single-family offices, que prestam serviços apenas a uma só família, cresceram 200% na última década.

Os clientes exigem mais dos seus gestores de fortunas e os desafios nunca foram tão grandes. Há medidas que as empresas podem tomar para engajar e reter melhor os clientes, oferecendo-lhes uma experiência omnichannel personalizada à medida que a transferência de riqueza entre gerações ocorre e o crescimento dos HNWI continua. Embora a forma tradicional de identificar e conhecer os clientes seja ubíqua, a utilização de ferramentas baseadas no comportamento financeiro dos clientes que sejam alimentadas por IA, recorrendo a dados psicográficos, deve ser considerada.  Estas ferramentas podem fornecer uma vantagem competitiva ao permitirem compreender melhor a tomada de decisão dos indivíduos, e assim proporcionar um maior grau de intimidade com o cliente. Criar canais de comunicação em tempo real será crucial para gerir os potenciais enviesamentos emocionais que possam ser desencadeados por movimentos repentinos e inesperados do mercado

Nilesh Vaidya, Global Industry Head of Retail Banking and Wealth Management da Capgemini

 

Arquivado em:Economia, Notícias

Os dados são o ‘sol do século 21’: quais os desafios de um recurso cada vez mais valioso e inesgotável?

17 Junho, 2024 by Rita Saldanha

De que forma os dados se ligam com os Media? E como se pode assegurar que a informação que a sociedade produz e consome é verdadeira? Vivemos o tempo de conectar os dados e construir as pontes entre o abstrato e o Mundo real, para a construção de uma sociedade assente na verdade.

Para Miguel de Castro Neto, Dean da NOVA IMS, o valor dos dados é hoje inquestionável e o papel da Academia e investigação é «pegar em dados, que é algo abstrato, como zeros e uns, e conseguir transformá-los em objetos que suportam a tomada de decisão».

Na última década, e cada vez mais, se assiste a uma «crescente capacidade de recolha e armazenamento de dados» cuja potencialidade de processamento e analise foi agora «extraordinariamente potenciada pela Inteligência Artificial, particularmente a Generativa», acrescenta.

O valor dos dados e a ligação com os Media, serviu de mote a uma conversa entre Miguel Neto e Francisco Pedro Balsemão, CEO do grupo Impresa, com a moderação de Rita Neves, jornalista da Sic. O momento teve lugar na segunda edição do Data with Purpose Summit, evento que aconteceu na reitoria da NOVA Information Management School (IMS), em maio, sob o tema Time to Reconnect.

Os dados como uma valiosa fonte de informação

No meio jornalístico, os dados são essenciais e é crucial assegurar que a informação que se divulga é verdadeira. Como se faz isso?

«É preciso haver uma cultura dentro de cada empresa a esse nível, e cada organização tem a sua forma de fazer, não há uma fórmula única», partilha Francisco Pedro Balsemão. Para o gestor, «os dados são, cada vez mais, uma golden source of truth», e por isso, melhorar a sua arquitetura de armazenamento é uma prioridade do Grupo Impresa.

 

O foco está em centralizar os dados e torná-los confiáveis para todos. «A parte da confiança é a mais importante, e ao darmos o exemplo internamente, para todo o Grupo, ajuda a que os dados sejam usados de uma forma mais proveitosa», o que se reflete até no trabalho da redação quando define um plano de conteúdos.

Na perspectiva de Miguel Neto, os Media têm hoje de conseguir «navegar num crescente mundo de dados e produzir informação que transmita autoridade e fiabilidade». O desafio da governação dos dados é tornar possível «navegar num mundo em que se consiga distinguir o que é verdadeiro e falso, aproximar as pessoas e usar argumentos validos e sólidos para discutir e construir uma sociedade em comum», refere.

O papel dos dados no apoio ao sistema de tomada de decisão, e no «desafio analítico de descrever o passado e prever o futuro», não está apenas direcionado para a «criação e valor», mas para «ter impacto e transformar a vida e a sociedade».

E acrescenta: «Em vez de petróleo, eu considero os dados como o sol o século 21. Os dados têm a vantagem de não ser um combustível fóssil, não os gastamos quando os usamos, e estando bem governados, podemos usá-los vezes sem conta».

Quanto às ameaças, Francisco Pedro Balsemão refere o perigo da desinformação e dos deepfake como uma realidade, não só nos meios de comunicação, mas também nas empresas. Grupos de media e jornalistas devem «saber como usar a Inteligência Artificial e a Generative AI», sem «nunca se substituir aos jornalistas».

Realça também a necessidade de uma «maior literacia mediática», no consumo de conteúdos e notícias. As notícias correm a uma «velocidade muito rápida», e as pessoas devem distinguir a origem das informações, sob a pena de estar a contribuir para uma «das coisas mais perigosas da sociedade portuguesa».

Para Miguel Neto, acrescendo aos cuidados na recolha e uso dos dados, e as questões de cibersegurança, ética, privacidade e propósito, no uso de modelos de IA, é imperativo que o cumprimento destes princípios «não seja bloqueador da inovação».

«Neste momento, a Europa tem um grande desafio que é recuperar a sua competitividade nesta área, na medida em que há outros blocos económicos que nos estão a colocar um pouco atrás. O desafio mais importante é garantir que respeitamos estas preocupações, e ao mesmo tempo conseguir inovar, ser competitivos e liderar à escala global este setor», conclui.

O final da conversa foi marcado pela assinatura de um protocolo de parceria entre o Grupo Impresa e a Nova IMS para criação do Media& Analytics Lab, nas instalações da Impresa. Será o primeiro Laboratório da NOVA IMS a funcionar fora de portas, dedicado à inovação e aplicação da Ciência de Dados no jornalismo e na comunicação social. A cooperação considera ainda a criação do primeiro curso de Data Journalism (jornalismo de dados), em Portugal.

 

Assista ao debate completo aqui:

Miguel de Castro Neto, Francisco Pedro Balsemão, Rita Neves – Welcome Talk

Tenha acesso a todas as intervenções e conteúdos na Líder TV, disponível on demand, de acesso universal e gratuito, posição 165 do MEO e 560 da NOS.

Aceda à galeria de imagens aqui.

 

Arquivado em:Notícias, Tecnologia

Temos o teatro para mudar a realidade?

17 Junho, 2024 by Rita Saldanha

“Apesar de o teatro não ser a única arte com dimensões políticas, ele oferece um fórum único para o político, ao envolver o público numa realidade social perceptível, embora efémera, através do funcionamento das suas convenções”

Amelia Howe Kritzer, no livro Political Theatre in Post-Thatcher Britain

 

Desde as suas origens, na Grécia Antiga, o teatro vive do questionamento e do desafio às noções tradicionais de verdade e realidade. Intérpretes representam situações inventadas, ficcionais ou partindo da realidade concreta, que ressoam com o público, suscitando-lhe reacções, ou “verdades”, emocionais, a que Samuel Taylor Coleridge se referiu como “a suspensão voluntária da descrença (…), que constitui fé poética”. Isto sugere que a verdade não é apenas uma questão de factos objectivos, mas também de experiências e percepções subjetivas.

Em constante jogo de espelhos entre realidade e ficção, entre realismo e expressionismo, entre experiência directa e mediatizada, entre reflectir os tempos e empurrá-los para diante, o teatro vive de dicotomias, que são também matéria dramatúrgica e cénica, criando conflitos que impulsionam a acção.

Hoje, toda a nossa realidade parece tomada por dicotomias inescapáveis, e se algumas são operativas, muitas tornaram-se sinónimo de incomunicabilidade e polarização, reduzindo a pessoa à sua pertença tribal, em que o diálogo desaparece, adversários se tornam inimigos e toda a nuance é trucidada pelo imediatismo. A hipermediatização de todo o espaço, público e privado, e a monetização da nossa atenção promovida pela revolução capitalista digital têm minado a relação entre percepção e realidade, entre verdade e mentira. Parafraseando Mark Twain, não deixamos que os factos se oponham aos nossos sentimentos. Em opção, criamos “factos alternativos”. Se essa é matéria central ao teatro, não parece que devamos organizar a nossa sociedade com base nela, pois a suspensão da descrença não deve ser universal. Conseguirá uma Humanidade cada vez mais individualista e desigual, acicatada pelo medo, de doom scrollers viciados em dopamina e gratificação instantânea, dar conta do recado quanto ao “estado a que chegámos”?

E o teatro?

De cada vez que junta um conjunto de pessoas numa sala ou numa praça para assistir a um espetáculo ou participar numa obra, o teatro cria a sua própria realidade. O teatro é realidade artística mas também social, ao convocar a empatia, a curiosidade e a generosidade de públicos e participantes para com eles próprios e para com o acto teatral. Ao desafiar as expectativas dos públicos e subverter convenções culturais, o teatro pode abrir espaço para novas maneiras de pensar e perceber o mundo. Ele permite que as pessoas experimentem realidades alternativas e imaginem possibilidades de outra forma impossíveis. O teatro pode servir como um espelho, distorcido ou não, da sociedade, reflectindo suas contradições, conflitos e complexidades. Ao confrontar os públicos com essas realidades, ficcionadas ou não, desconfortáveis ou não, o teatro convida-nos a validar ou questionar as nossas próprias crenças e preconceitos, contribuindo para um diálogo mais amplo sobre verdade, falsidade e a natureza da realidade. O teatro desafia-nos para experiências não previamente digeridas e “algoritmizadas” à exaustão. Teatro é liberdade e conhecimento. E estas são ainda as melhores armas que temos contra o medo. O teatro contém por isso antídotos para uma realidade opressiva, alienante, que nos isola dos nossos pares e nos confina a câmaras de eco cada vez mais estreitas. E não é isso político? Não é necessária uma peça de teatro “sobre” política para que o acto teatral o seja.

Por muito que a percepção que dela há já tenha visto melhores dias, a política é, na realidade, atividade nobre e necessária. O nosso contrato social, a organização da nossa polis, tantas vezes sob ameaça, exige-nos política, políticas e políticos. Numa sociedade democrática como a que queremos manter, todos somos políticos e a política reflecte quem somos. Assumamos assim o papel político de cada pessoa e de cada instituição, também as teatrais, promovendo a democracia e o diálogo e rejeitando a incomunicabilidade e o medo.

Se houve momento nas nossas vidas em que o teatro foi necessário, esse momento é, então, agora. Uma assembleia humana em torno de um objecto artístico parece-me um bom ponto de partida. O teatro pode mudar tudo. Não tem de, mas pode. Porque, sem ele e sem tudo o que representa, poderemos sempre questionar-nos, como faz o músico Perry Farrell em Pets, da banda Porno for Pyros:

 

Will there be another race

To come along and take over for us?

Maybe martians could do better

than we’ve done

We’ll make great pets!

Nota: Artigo escrito segundo a antiga ortografia

 

Este artigo foi publicado na edição de verão da revista Líder com o tema de capa A Grande Questão: Verdadeiro ou Falso?. Subscreva a Líder aqui.

Arquivado em:Artigos, Leadership

A IA desnudará a Comunicação da sua alma genuína?

17 Junho, 2024 by Rita Saldanha

No mundo do Marketing e da Comunicação de marcas, a verdade continua a ser a moeda mais valiosa. Em 2024, estamos a testemunhar uma mudança significativa no foco das estratégias de Branding, com um retorno ao centro das atenções das conexões emocionais genuínas entre as marcas e os consumidores. Os profissionais de Marketing estão a reescrever os manuais, priorizando a construção de marcas a longo prazo, em vez de simples transações comerciais.

A Inteligência Artificial está a encurtar caminho para esta jornada, porém o desafio está em manter a autenticidade. Esta autenticidade, que é a verdadeira alma da Comunicação de marca, enfrenta um conflito: como manter a essência humana quando máquinas estão a pasteurizar as mensagens?

É vital que as marcas não só falem, mas ressoem, não só mostrem, mas sintam. A Inteligência Artificial, com a sua promessa de antecipação de tendências, oferece uma tela em branco para pintarmos com as nossas impressões digitais de Humanidade. Então, é importante questionarmos: ela desnudará a Comunicação da sua alma genuína?

As marcas que vão prosperar são aquelas que percebem a Inteligência Artificial não meramente como uma ferramenta de eficiência, mas como um catalisador para mergulhar profundamente nos valores e desejos do consumidor. Esse equilíbrio subtil entre funcionalidade e emoção verdadeira é a nossa bússola principal.

A Inteligência Artificial pode ser um caminho para uma comunicação mais sincera, desde que esteja em harmonia estratégica com a missão e os valores da marca. Com isso, as marcas devem transmitir não só o que vendem, mas quem são. Assim como nós, elas são entidades vivas num Mundo em transformação.

Olhando adiante, enfrentamos o desafio de alimentar a verdade na Comunicação enquanto exploramos o potencial da IA. Devemos assegurar que, mesmo cavalgando as ondas da inovação tecnológica, a essência da conexão humana não se perca no meio dos algoritmos.

No futuro do Marketing, onde IA e emoção humana coexistem, a verdadeira Comunicação é o alicerce que constrói a relação entre marca e consumidor.

A verdade não está no produto, está na narrativa. Não está no algoritmo, mas no que ele nos permite revelar. A verdade está em como usamos a IA para amplificar as nossas histórias, mantendo-nos fiéis ao nosso propósito.

Com esses princípios em mente, a Comunicação genuína, autêntica e verdadeira será a “marca registada” das marcas que se destacam, garantindo um futuro onde a tecnologia serve à Humanidade, e não o contrário.

Este artigo foi publicado na edição de verão da revista Líder com o tema de capa A Grande Questão: Verdadeiro ou Falso?. Subscreva a Líder aqui.

Arquivado em:Leading Brands, Opinião

O V Centenário de Camões

27 Maio, 2024 by Rita Saldanha

Este ano assinala-se o V Centenário do nascimento de Camões. Não se tem dado muito por isso. Antes pelo contrário. Percebe-se que Camões se tornou um personagem incómodo para alguns setores, talvez por poder ser associado ao regime da outra senhora e, sacrilégio, aos Descobrimentos.

A comemoração estava por isso reduzida a pouco – mas bom. Que eu tenha notado, destaco dois agentes:

1) A editora Guerra e Paz, que lançou várias obras. “O Pensamento de Camões”, de Jorge de Sena. A edição de “Os Lusíadas e a Visão Herética” de Camões e Sena, descrita justamente pelo editor como especial – capa dura, limitada . “Babel e Sião”, o terceiro volume Camões/Sena. Sairão ainda as “Cartas e Poemas” de Camões e “O Reino da Estupidez”, em que Jorge de Sena “entrevista sensacionalmente Camões” –cito o editor.

2) Francisco José Viegas, que nas suas crónicas do Correio da Manhã nos tem dado a ler Camões – com gosto.

O Governo da nação tinha feito greve. Até que saiu o nome do novo aeroporto. Tarde, mas saiu alguma coisa relevante. Salvo melhor opinião Camões não é um joguete político: é um dos vultos da literatura universal. Há-de chegar para dar nome a um aeroporto.

 

 

 

 

Arquivado em:Leading Opinion, Opinião

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