Estátua derrubada – estátua reerguida?

Poucos se atrevem, hoje, a pugnar pela célebre expressão de Milton Friedman: “o negócio do negócio é o negócio”. Raramente se escuta, pelo menos em público, a apologia da maximização do valor para o acionista – lema que inspirou muitos seguidores de Friedman. O capitalismo de stakeholders, focado na responsabilidade social, na sustentabilidade e na gestão com propósito, tem-se transformado numa espécie de moda, embora a substância das práticas nem sempre esteja alinhada com essa narrativa. Aliás, quando se aprofunda a premissa subjacente à narrativa, constata-se que, por vezes, nada mudou. Alguns dos que defendem o capitalismo com propósito justificam-se com o argumento de que essa orientação contribui para aumentar o valor para o acionista. Assume esse paradigma que, quando os interesses dos stakeholders colidem com a prossecução do lucro almejado pelos acionistas (os stockholders), o lucro merece primazia. Portanto, esta versão instrumental do capitalismo de stakeholders não difere da clássica visão do capitalismo de acionista. É, apenas, uma adaptação semântica da mesma.

O teste ácido da autenticidade do capitalismo com propósito faz-se, pois, quando a prossecução do propósito não gera o desejado valor para o acionista. O que ocorreu com a Danone é elucidativo. Em 2020, a empresa aproveitou a crise pandémica para acelerar a transformação numa “empresa com missão” (Enterprise à mission). Emmanuel Faber, CEO e chairman, alegou que esse novo estatuto legal e essa orientação “missionária” (focada em objetivos sociais, ambientais e de governança) eram uma vantagem competitiva que acabaria por resultar em maior valor para o acionista. Quando lhe perguntaram se não temia perder essa vantagem quando os concorrentes seguissem a mesma estratégia, retorquiu: “Adoraria que muitos mais CEOs compartilhassem o fardo”. Já em 2016, Faber havia afirmado que, desde os anos 1980, a economia, em vez de servir as pessoas, começara a servir realmente a finança. Acrescentou que todos os processos – a governança, os incentivos, as stock options, os comités de remuneração, os boards independentes – tinham ido na mesma direção.

Após a aprovação do seu plano para levar a cabo o nobre propósito e instituir uma estrutura de governação que supervisionasse a implementação do mesmo, Emmanuel Faber afirmou que a estátua de Milton Friedman tinha acabado de ser derrubada. Para o CEO da Danone, o capitalismo de stakeholder era “um facto” e não mero exercício de relações públicas. Todavia, em março de 2021, Faber foi afastado, sob pressões de investidores ativistas. Os resultados financeiros não correspondiam ao esperado.  O valor de mercado das ações não ombreava com o de rivais como a Nestlé e a Unilever. Os ativistas argumentaram que o equilíbrio entre os interesses dos acionistas e os de outros stakeholders havia sido perdido sob a liderança de Faber, e que este havia feito questionáveis escolhas de afetação de capital. Os ativistas também propuseram a separação das posições de CEO e chairman – ambas ocupadas por Faber (a propósito: não deixa de ser irónico que uma empresa que pretendia destacar-se pela prossecução de objetivos sociais, ambientais e, sublinhe-se, de governança, tenha sido pressionada para reconhecer a separação dos dois papeis). Arturo Bris, professor na IMD Business School, escreveu que a Danone havia sido percecionada como mais focada nas pessoas, no planeta e na responsabilidade social do que nos acionistas – e que Faber estava a pagar o preço. A estátua de Friedman foi, pois, reerguida.

Este caso e o seu contexto suscitam alguns comentários.  Primeiro: os resultados económico-financeiros são importantes. Sem eles, a sobrevivência das empresas fica hipotecada e os investidores não desejam ser vítimas da morte das mesmas. Ademais, sem resultados económico-financeiros, não é possível investir em inovação, melhorar as condições dos trabalhadores e dar corda ao progresso económico-social.

Segundo comentário: se pretendemos que as empresas sejam realmente geridas segundo uma lógica mais responsável e sustentável, pode ser insensato esperar simplesmente pela generosidade dos investidores. Precisamos de mais medidas políticas e regulatórias que assegurem o cumprimento dessa lógica por parte das empresas. Também convém que, como consumidores, sejamos consequentes – e tomemos decisões alinhadas com as boas práticas (e não apenas bons preços) das empresas. Em vez de simplesmente culparmos as empresas e os investidores, convém que assumamos as nossas responsabilidades como cidadãos eleitores e como consumidores.

Terceiro comentário: desde que a lei seja cumprida e os princípios do respeito e da dignidade sejam observados na gestão da empresa, é legítimo que as empresas procurem maximizar o valor para o acionista. Os acionistas têm o direito a ver o seu investimento rentabilizado. E essa rentabilização estimula-os a investir e a gerar mais riqueza. Mais questionável é que as empresas adotem narrativas de “gestão com propósito” para esconderem reais intuitos e iludirem os incautos. É por essa razão que, como sociedade, precisamos de melhorar a literacia económica e empresarial dos cidadãos.


Por Arménio Rego, LEAD.Lab, Católica Porto Business School

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