Para mim um jornal é um produto informativo servido em folhas de papel. Como escreveu Clara Ferreira Alves a este propósito, “A edição em papel, a de fim de semana, era um dos grandes prazeres da chegada a Nova Iorque. Comer panquecas com mirtilos e ler o ‘The New York Times’ dos domingos, mono pesado, era um programa de lazer completo.”
Compreendo. Há outros meios de informação que não são em papel e por isso não são jornais. Ultimamente, tem sido discutido o problema da distribuição no interior. Mas a verdade é que se o problema existe, ele decorre em primeiro lugar do facto de as pessoas não os comprarem. Porque parámos de comprar jornais?
Porque há novos media, nomeadamente os servidos no smartphone. O telemóvel tornou-se um vício. Quantas pessoas vemos a ler um jornal, uma revista ou um livro num local público? E a olhar para o ecrã? Por outro lado, os jornais têm a sua culpa. Eu, que continuo a comprar, compro com cada vez menos gosto.
Tenho saudades dos tempos em que os jornais eram feitos por jornalistas e não por ativistas. Em que os líderes de partidos não tinham colunas à disposição. Em que havia suplementos culturais que nos educavam o gosto. Em que aprendíamos a escrever com Vasco Pulido Valente, António Mega Ferreira, Vicente Jorge Silva, Augusto Seabra, José Quitério. Em que o DN estava na Avenida da Liberdade e tinha o Nuno Galopim e o Pedro Rolo Duarte. Em que o Independente era uma guloseima mental.
É evidente que continuamos a ter nomes à altura. Mas os jornais pioraram. Tomam partido por vezes descarada mas não assumidamente. Dão notícias sem interesse. Adoram o pequeno escândalo, metendo o salário de um político ou um fait divers da treta. São previsíveis. Magrinhos mesmo ao fim de semana. Não dão estilo a quem os leva. Assim não vamos lá. A culpa não é só dos jornais, mas é muito dos jornais.

