O lucro, que horror

Lê-se e custa a acreditar que um ministro se exalta porque a Ryanair se preocupa com os lucros. É surpreendente que a ideia de lucro continue aparentemente a parecer uma coisa repugnante aos políticos que nos governam. Mas então uma empresa haveria de se preocupar com o quê? Obter prejuízos? Este ato hostil e interferente não só não faz sentido como tem o efeito perverso de tornar quase simpática uma empresa tão antipática como a Ryanair.

As práticas de gestão da Ryanair têm sido criticadas e com boas razões, mas o papel do Estado é gerir o que lhe compete e não andar a opinar sobre a gestão das empresas privadas. E se estas incumprem a lei, a resolução do problema cabe à justiça. Esta incapacidade de perceber que o domínio das empresas deve ficar a cargo da regulação e da lei e não das vontades ministeriais torna Portugal uma espécie de república bananeira onde conta menos o estado de direito que as vontades dos ocupantes de cargos políticos.

Por outro lado, e mais preocupante: os nossos políticos parecem continuar a considerar que o Estado existe numa espécie de combate maniqueísta contra as empresas e os capitalistas, essa associação de malfeitores. É um argumento que ajuda a explicar porque não saímos da cepa torta: enquanto tivermos de fazer um esgar de nojo à escuta da palavra “lucro”, estaremos condenados a distribuir pobreza porque riqueza é um resultado normalmente gerado pelas boas empresas. Será isto assim tão difícil de perceber?


Por Miguel Pina e Cunha, Diretor da revista Líder

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