A crescente disparidade na distribuição da riqueza, em múltiplos países, é combustível para a fragmentação geradora de tensões sociais e polarização política. Franjas da população arredadas dos frutos do progresso económico adotam uma postura agressiva perante as empresas, as comunidades e os governos, com consequências para a estabilidade social e o próprio desenvolvimento económico. A […]
A crescente disparidade na distribuição da riqueza, em múltiplos países, é combustível para a fragmentação geradora de tensões sociais e polarização política. Franjas da população arredadas dos frutos do progresso económico adotam uma postura agressiva perante as empresas, as comunidades e os governos, com consequências para a estabilidade social e o próprio desenvolvimento económico. A diabolização dos “ricos” e milionários é um provável sucedâneo dessa agressividade.
Não surpreendem, pois, as manifestações de protesto defronte as casas de Jeff Bezos, um dos homens mais rico do mundo, em maio último. Num cartaz, a palavra de ordem era “Acabem com a conversa da treta. Taxem os ricos”. Morris Pearl, um manifestante, afirmou ao jornal britânico The Guardian: “Estamos a chegar a um ponto em que temos um pequeno punhado de ricos e uma quantidade enorme de pessoas pobres, e isso não funciona. (…) Essa não é a forma de governar uma sociedade sustentável”.
Nada disto surpreende. Deveras surpreendente é que os protestos tenham sido organizados pelos “Milionários Patrióticos”. Morris Pearl é líder do movimento e coautor do livro “Taxem os ricos”. Os manifestantes pretendiam apoiar mudanças na política fiscal norte-americana, entre as quais o plano de Joe Biden para aumentar os impostos sobre as empresas e os cidadãos com rendimentos mais elevados. Os locais escolhidos para as manifestações resultam de uma idiossincrasia do detentor das duas casas. Bezos tem afirmado que apoia o aumento de impostos sobre as empresas, mas a Amazon, que fundou e liderou durante dezenas de anos, tem sido amplamente criticada pela adoção de estratégias de evasão fiscal. O seu estilo de liderança abrasivo e as práticas alegadamente desumanas da Amazon também têm sido alvo de críticas.
Três razões podem explicar os protestos. A primeira, a mais cínica, é a inveja. Estes milionários invejam os multimilionários como os pobres invejam os ricos. Uma segunda possível razão para os protestos é que estes milionários estão preocupados com os efeitos da fragmentação social sobre a estabilidade social e política, o progresso económico e, daí, a sua própria riqueza. A essa luz, os protestos são racionais e instrumentais na preservação e no reforço da condição milionária dos seus autores. A terceira explicação é mais virtuosa: estas pessoas são genuinamente preocupadas com o bem-estar dos seus semelhantes e dispostas a sacrificar parte da sua riqueza em prol do bem-comum.
É impossível saber qual destas explicações corresponde à realidade. Diferentes manifestantes terão sido impelidos por diferentes motivações. Mas há razões sobejas para supor que a iniquidade é perversa, não apenas para as suas vítimas, mas também para o funcionamento das organizações e das sociedades. É mesmo possível que a aversão dos humanos às iniquidades seja o resultado de um longo processo evolutivo: ao longo de milhões de anos, a cooperação foi importante para assegurar a sobrevivência dos humanos. Sem equidade, a cooperação teria ficado hipotecada. E, sem cooperação, os humanos não teriam sobrevivido perante a adversidade da vida e os ataques dos inimigos. Por conseguinte, ao longo de milhões de anos, as comunidades humanas (e as suas antecedentes no processo evolutivo) terão premiado o espírito cooperativo e punido os promotores de iniquidades. O estado atual da espécie humana reflete esse processo evolutivo – pelo menos a crer nas teorias evolucionistas.
Se estas teorias estão corretas, então os manifestantes milionários estavam a fazer jus à natureza dos animais humanos – e a sua conduta de protesto representa um antídoto coletivo aos perigos das iniquidades. Se esta interpretação é válida, então os ataques a quem protesta contra as iniquidades são insensatos, pelo menos na perspetiva da sustentabilidade económica, humana e social. Sob este ponto de vista, as iniquidades nas empresas e nas sociedades devem ser tomadas a sério – não apenas por razões de justiça e compassivas, mas também por motivos económicos. Gillian Tett escreveu no Financial Times que as desigualdades sociais são uma ameaça económica. Na mesma publicação, Martin Wolf argumentou que elas fazem perigar as nossas democracias. Portugal não está a salvo destes riscos. Cerca de um em cada cinco portugueses estava em risco de pobreza antes da pandemia, e essa proporção ter-se-á agravado com a crise. Acresce que a percentagem de pobres que trabalha é de quase 60%. Antes que seja tarde, convirá levar o assunto a peito – pelos governos e pelas empresas.
As bonitas narrativas de responsabilidade social estão na moda e podem satisfazer desejos reputacionais das empresas e seus executivos. Mas não correspondem aos desejos e direitos legítimos das pessoas de serem tratadas com justiça e dignidade. A multimilionária Lynn Forester de Rothschild sugeriu um remédio para a maleita: taxar as empresas pelas externalidades negativas que geram ao obrigarem os contribuintes a apoiar os trabalhadores que, tão mal remunerados, não conseguem ter uma vida decente. Responsabilidade ou hipocrisia da Sr.ª Rothschild?!

Por Arménio Rego, LEAD.Lab, Católica Porto Business School
