Nas últimas semanas encontrei duas vezes esta mesma ideia: a de que estamos a usar a noção de transparência de uma forma dúbia. Uma vez, por Rogério Alves, no lançamento do livro Portugal com futuro, de que já aqui falei. Mais recentemente por Pedro Norton numa sua crónica no Público.
Rogério Alves explicava que o termo é usado de uma forma que legitima intromissões na vida das pessoas. Como é evidente ninguém recusa a ideia de que a prestação de contas é necessária na vida pública. Mas as figuras públicas tornam-se alvo da devassa das suas vidas. Por esta razão, encontrar quem esteja disponível para certos cargos públicos, nomeadamente governamentais, tenderá a tornar-se mais difícil. Afinal quem quer submeter-se a este “escrutínio”? O escrutínio e a accountability são necessários, mas a tendência hoje é para procurar “sangue”. E isso conduz ao ponto de Pedro Norton: o jornalismo como máquina de produção de voyeurismo. Com efeito, certos produtos jornalísticos parecem versões da Casa dos Segredos da vida real. A informação deu lugar a uma forma de bisbilhotice que beneficia invejas e populismos.
E assim passamos da transparência a uma abordagem noticiosa justicialista, que reduz a confiança nas instituições – incluindo o próprio jornalismo. E a falta de confiança, como referia Paulo Sande no lançamento do livro a que aludi, limita consideravelmente as nossas possibilidades como sociedade. Era bom que pensássemos no assunto.
