Em Portugal, o nível de salários é baixo e o seu crescimento muito lento, diz um novo estudo da Fundação Gulbenkian. Entre 2002 e 2017, o salário-base médio real cresceu 0,32% ao ano, passando de 879€ para apenas 925€, em 16 anos. Com o objetivo de mostrar a evolução do salário no país, desde a […]
Em Portugal, o nível de salários é baixo e o seu crescimento muito lento, diz um novo estudo da Fundação Gulbenkian. Entre 2002 e 2017, o salário-base médio real cresceu 0,32% ao ano, passando de 879€ para apenas 925€, em 16 anos.
Com o objetivo de mostrar a evolução do salário no país, desde a introdução do euro, a investigação “O Salário Médio em Portugal – Retrato atual e evolução recente”, foca-se no grupo dos trabalhadores por conta de outrem, a tempo completo, com remuneração mensal base completa, com idades entre os 18 e os 65 anos
O relatório coordenado pela Universidade do Minho, com a colaboração do ISCSP da Universidade de Lisboa, mais adianta que a recuperação económica observada desde 2013 praticamente não teve impacto no crescimento do salário médio – a trajetória descendente do salário médio real que se iniciou em 2011 só se inverteu de 2016 em diante.
Tem havido uma renovação geracional substancial nos últimos anos: à medida
que as gerações mais velhas vão sendo substituídas por trabalhadores mais
jovens, que auferem salários mais baixos, o salário médio diminui.
E, apesar de dados recentes do INE apontarem para um crescimento mais elevado em 2019 (2,4%), em 2020, Portugal ocupava ainda a 4ª pior posição entre os países da União Europeia que integravam o ranking do salário anual médio da OCDE: menos um terço do que a Espanha e menos 90% do que a Alemanha.
Desenho do estudo
O salário médio é um dos principais indicadores do bem-estar económico de uma sociedade, sendo que a flutuação da atividade económica tem impactos tanto nas remunerações obtidas pelos trabalhadores como na composição do emprego.
O estudo, da autoria de Priscila Ferreira (U. Minho), Marta C. Lopes (European University Institute) e Lara P. Tavares (Centro de Administração e Políticas Públicas da Universidade de Lisboa), apresenta ainda tendências dos salários para diversos tipos de trabalhadores de vários setores de atividade económica e contribui para o aumento do conhecimento e sensibilidade em relação a esta questão.
A análise para Portugal é feita usando os Quadros de Pessoal, que permitem estudar praticamente o universo dos trabalhadores portugueses por conta de outrem do sector privado.
Para situar em perspetiva a evolução do salário médio em Portugal, fez-se uma comparação com três países da União Europeia: a Alemanha, como referência de um salário médio elevado; a Espanha, como referência de uma estrutura institucional e de uma força de trabalho idênticas às portuguesas; e a Polónia, em representação de um país com um salário médio mais baixo do que o português.
Principais considerações
Em Portugal, a escolaridade dos trabalhadores tem aumentado e o nível de escolaridade dos trabalhadores foi o fator que, no passado, mais contribuiu para o aumento de salários. O facto de entre 2002 e 2017 o salário médio dos graduados do ensino superior, não só não ter crescido, como ter tido uma quebra acentuada, pode ter contribuído para a estagnação do salário médio.
Ser graduado do ensino superior continua a conferir um prémio salarial, mas depende das outras características do trabalhador, nomeadamente a idade. Os resultados sugerem que os salários de entrada no mercado de trabalho, dos jovens, não são superiores aos das gerações anteriores (com a mesma idade) ao contrário do que acontecia no passado. Assim, a renovação geracional da força de trabalho não favorece o aumento do salário médio.
Tem-se assistido a um enfraquecimento da classe média. Não só diminuiu o volume de trabalhadores com qualificações intermédias como o seu salário médio cresceu a uma taxa inferior à da generalidade dos restantes trabalhadores.
Ao cobrir vários ciclos económicos da economia portuguesa, este estudo analisa ainda as consequências da Grande Recessão (2008-2012), ao contrastar esse período com as fases de expansão económica que o antecederam e lhe sucederam.
O estudo é complementado por três relatórios que permitiram abranger perspetivas de diversos autores e universidades sobre o crescimento dos salários em Portugal: “Alavancar o Salário no Talento”, “Efeitos de Diferentes Tipos de Políticas Económicas na Promoção do Crescimento dos Salários: Evidência Internacional” e “Especialização Produtiva e Salários: Propostas para Qualificar Portugal”.
Tenha acesso ao estudo aqui.



