“Eu não preciso, na verdade, de perceber de banca para ser CEO de um banco, é a minha convicção. O líder tem que ser alguém que tem a capacidade de unir todas as partes interessadas da organização que lidera”. O autor deste comentário é António Henriques, CEO do Bison Bank – que o pronunciou enquanto […]
“Eu não preciso, na verdade, de perceber de banca para ser CEO de um banco, é a minha convicção. O líder tem que ser alguém que tem a capacidade de unir todas as partes interessadas da organização que lidera”. O autor deste comentário é António Henriques, CEO do Bison Bank – que o pronunciou enquanto convidado do podcast “O CEO é o limite”. Não será mesmo necessário perceber de banca para ser CEO de um banco? Antes de responder à questão, quero referir dois pontos.
Primeiro: é necessário interpretar o comentário no contexto de uma conversa mais ou menos informal, durante a qual o significado do que é afirmado depende tanto das palavras quanto do tom de voz, dos gestos e da carga relacional e emocional do diálogo. Segundo: dado que António Henriques tem mais de 30 anos de carreira na banca, presumo que o seu objetivo teria sido enfatizar que não é preciso ter competências técnico-bancárias estelares para se exercer o cargo de CEO de um banco. Creio que foi uma tese deste teor que Fernando Silva, CEO da Siemens Portugal, expressou enquanto convidado do mesmo podcast: “Dentro da Siemens Portugal eu serei, provavelmente, o pior engenheiro”.
A discussão deste tema ocorreu-me a propósito da leitura de documentação sobre as causas de dois acidentes fatais de duas aeronaves Boeing 737 Max. A esses desastres acresce a perda do tampão de uma porta de outra aeronave em pleno voo, e vários problemas de engenharia, qualidade e segurança que a Boeing tem enfrentado. Investigação atrás de investigação sugerem que estas ocorrências resultaram de uma reorientação cultural iniciada por discípulos de Jack Welch munidos da cartilha da maximização dos lucros, a expensas da engenharia rigorosa e de critérios de segurança. Mas este “apego maníaco a resultados” – expressão usada por David Gelles, autor de “O homem que quebrou o capitalismo” (i.e., Jack Welch) – foi facilitado pela escassez de competências destes líderes em matéria de engenharia aeronáutica. Enquanto as gerações anteriores de líderes da empresa se orgulhavam de saber tudo acerca dos aviões que estavam a ser fabricados e se envolverem ativamente nos processos de engenharia e segurança, os novos líderes, discípulos de “Neutron Jack”, passaram a ser avaliados pelo seu desempenho em métricas financeiras. Ironicamente, a obsessão maníaca com lucros resultou em perdas de cerca de 90 mil milhões de dólares para os investidores na empresa.
A Theranos – cuja fundadora e líder outrora milionária, Elizabeth Holmes, está a cumprir pena de prisão – rodeou-se de um Board constituído por um amplo rol de ex-governantes, generais e almirantes, no qual havia apenas uma epidemiologista. Em suma: o órgão de vigilância era constituído por pessoas sem competências técnicas que lhes permitissem compreender que as promessas de Holmes (criação de uma tecnologia que permitiria analisar inúmeros parâmetros sanguíneos com base numa única gota de sangue) eram tecnicamente insustentáveis. Também a Nokia perdeu a dianteira que outrora teve no mundo dos telemóveis porque os seus líderes de topo eram tecnicamente ineptos para verdadeiramente compreender o que a concorrência estava a aportar ao setor.
Não me alongarei a dissecar mais casos – pois creio que os apresentados me permitem ilustrar a minha tese, que passo a explicar. O facto de alguém ser tecnicamente brilhante em matérias de um dado setor não é suficiente para capacitar essa pessoa para liderar uma empresa desse setor. Mas daí não decorre que as competências técnicas não sejam relevantes na liderança dessa empresa.
A liderança de uma organização é um trabalho de equipa, devendo haver no seio desta quem bem conheça as tecnicalidades do negócio e/ou se rodeie de quem as possui. Para se ser bom líder de um hospital não é imperativo ser médico – pois essa boa liderança requer muitas outras competências relacionais, estratégicas e de auto-liderança. Mas um médico que também possui essas competências tem maiores probabilidades de exercer boa liderança. É por isso que, segundo alguma evidência, os melhores hospitais são geridos por médicos. Não porque esses médicos sejam, à partida, melhores líderes de hospitais – mas porque, sendo médicos, são também dotados de outras importantes competências de liderança.
PS. Por entre tanta tecnicalidade, não quero deixar de expressar os meus votos de um Santo e Feliz Natal. À medida que a idade galga, e apesar da minha “fraca crença” (próxima do agnosticismo), sinto-me cada vez mais atraído pela mensagem do Menino Jesus, que tanto acompanhou a minha educação. Lamento que essa mensagem de paz e amor tenha dado lugar à narrativa sem limites da criatura comercial. Celebramos o Natal como se não tivesse havido aquele nascimento no ano zero.

