José Gil descrevia Portugal, há uns anos, como o país da não-inscrição. Penso que posso interpretar esta ideia como se referindo ao facto de o nosso país lidar de forma leve, superficial com as consequências das decisões, responsabilidades e obrigações. O país onde, como se costuma dizer, a culpa morre solteira. A língua inglesa tem […]
José Gil descrevia Portugal, há uns anos, como o país da não-inscrição. Penso que posso interpretar esta ideia como se referindo ao facto de o nosso país lidar de forma leve, superficial com as consequências das decisões, responsabilidades e obrigações. O país onde, como se costuma dizer, a culpa morre solteira. A língua inglesa tem uma palavra, accountability, que sugere a necessidade de inscrição: eu sou responsável pelo que faço e, em determinados lugares em particular, tenho o dever de prestação de contas pelo modo como uso a minha responsabilidade.
O facto de a palavra não ter uma tradução direta para a língua portuguesa é sintomático. Portugal é o país da não-accountability. Temo-lo visto repetidamente em casos como o dos dados dos manifestantes, da morte de Homenyuk, da defesa de Berardo, da morte de Nuno Santos na A6, dos megaprocessos judiciais. Ninguém tem responsabilidade de nada, ninguém fez nada, ninguém se lembra de nada. Sempre que necessário, a responsabilidade desce a cadeia hierárquica até ficar nas mãos de quem já não tem para onde a mandar.
Este é um problema, não porque seja necessário arranjar culpados – o que raramente resolve coisa alguma – mas porque é importante garantir quem assume responsabilidades se comporta responsavelmente. A assunção de responsabilidade, mesmo quando simbólica, serve para proteger as instituições. A sua ausência contribui para a degradação das mesmas, pelo que, incidente após incidente, ela vai deslaçando o nó de confiança entre cidadãos e instituições.

Por Miguel Pina e Cunha, Diretor da revista Líder
