Há dias António Barreto notava, na sua coluna semanal no Público, que os partidos se tornaram veículos da liderança de um chefe, desejavelmente carismático/a. Na verdade, talvez sempre tenha sido assim desde que temos democracia em Portugal. E é interessante que mesmo em democracia os partidos convivam mal com as vozes dissonantes. Tenho a ideia […]
Há dias António Barreto notava, na sua coluna semanal no Público, que os partidos se tornaram veículos da liderança de um chefe, desejavelmente carismático/a. Na verdade, talvez sempre tenha sido assim desde que temos democracia em Portugal. E é interessante que mesmo em democracia os partidos convivam mal com as vozes dissonantes. Tenho a ideia de que um partido deve ser um espaço de confronto de ideias, mesmo dentro do mesmo espaço político.
Ora, por cá este combate só se faz – quando se faz – no momento das eleições internas. A partir daí, discordar do chefe constitui um crime de lesa-majestade. Ai de quem se atreve!, mas é pena. Continuamos, cinquenta anos depois, agarrados ao respeitinho. Numa boa organização, todavia, deve haver espaço para debater e espaço para agregar. A concordância com o chefe é sinal de autoritarismo, não de autoridade.
Nesta campanha o ponto ficou bem exposto. Cada vez que alguém dizia algo que dava jeito ao adversário, logo vinham as vozes de que havia uma agenda escondida e uma conspiração qualquer. Era bom que os partidos fossem, mais do que são, espaços para o confronto de ideias, para a discussão vigorosa. O unanimismo à volta do chefe diminui os partidos e logo a democracia. E são um sintoma comum aos sistemas autoritários de ambos os lados do espectro, do carismático fascista ao politburo comunista. Uma democracia, recordemos, é uma polifonia. Se não estiver a ser, é mau sinal.
