Aos ziguezagues

Quem diria que a política atual teria como vocábulo a caracterizá-la uma palavra tão divertida como ziguezague. É uma palavra que nos chega do francês, zigzag que a importara do alemão zickzack. Curiosamente, como tiquetaque (que seguiu o mesmo caminho) significa exatamente o que parece. Com a ressalva de tiquetaque ser onomatopaica, isto é, imitando um som (neste caso de relógio), já ziguezague não me parece imitar som nenhum (salvo se as carruagens puxadas a cavalos, nas curvas da velha Alemanha, emitissem ruídos semelhantes).

Tenho a certeza de que a palavra é antiga porque já Pedro António Correia Garção, poeta arcadiano que faleceu em 1772, a usou em bom português. E reparem que os arcadianos, que pulularam entre 1756  (com a fundação da Arcádia Lusitana) e 1820, valorizavam a vida no campo, tendo como divisa fugere urbem, ou seja, fugir da cidade. Os mais conhecidos foram Bocage e a Marquesa de Alorna, por incrível que hoje pareça.

Os ziguezagues de Garção levaram-no a pontos de elogiar aquele que, num tormentoso inverno, entre baixas paredes, cultiva e se alimenta de um pequeno campo onde também apascenta vacas. Enfim, gostos, para quem tinha por lema Inutilia truncat (ou fim às inutilidades).

Seja como for, o ziguezague entrou por esta porta. De tal forma que quando a estrada se transforma numa “via sinuosa” (e não será por acaso a utilização do título de Aquilino), o símbolo que se inscrevia no triângulo de perigo a avisar os automobilistas era dois Z, de ziguezague.

Pois esse sinal faria hoje muita falta. Não tanto nas estradas, que já são quase todas lineares e modernas, quando não autoestradas (que existem de mais onde não fazem falta e de menos onde são necessárias); não para os automobilistas, mas para os políticos que tomam decisões sobre a pandemia.

Porque, aí sim, andamos aos ziguezagues. Deixámos o Natal à solta e foi o que se viu; mais tarde confinámos, mas parece termos andado em contraciclo com o resto da Europa. Quem acredita, ou aposta, que os males que se fazem sentir por esse velho Continente, não chegarão cá? Abrimos esta semana escolas, esplanadas e ginásios, quando as infeções estão a aumentar em quase toda a Europa e no Brasil se batem recordes de mortos. Ainda esta semana soubemos de novas estirpes: no Brasil e em Angola, dois países especialmente ligados a Portugal. Pode ser que não, que a vacinação em massa, que finalmente parece vir a correr bem, que o bom tempo, que o bom-senso dos portugueses, que qualquer mezinha que ainda não conhecemos, derrote as nuvens que se acumulam.

Porém, se me perdoarem este pessimismo estrutural, que eu entendo ser um realismo pouco exaltante, penso que ainda andaremos para trás, antes de seguir em frente. Ou, se preferirem, na palavra que Correia Garção trouxe ao português, aos ziguezagues.

Resta saber até quando. Mas isso é algo que me parece ninguém saber.


Por Henrique Monteiro, Jornalista e antigo Diretor do Expresso

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