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Denise Calado

Eneida

3 Maio, 2022 by Denise Calado

«E a vida, com um gemido, se vai, revoltada, para o mundo das sombras.» Este é o inesperado verso final de uma obra-prima que se contradiz na assunção da sua própria grandiosidade, um canto que, nas palavras de Carlos Ascenso André, «parecia quase assumido a contragosto: gene[1]rais que triunfam, mas que não saem endeusados, um herói que rejeita o seu pa[1]pel, um anti-herói que deixa a impressão de ter a simpatia do narrador». É com humano orgulho que a Quetzal completa o seu catálogo de obras-primas da literatura ocidental com a edição bilingue – em latim e português – da Eneida de Virgílio, com tradução, introdução e anotações de Carlos Ascenso André. Derrotado na Guerra de Troia, Eneias viaja rumo a Itália, onde os fados predes[1]tinaram que fundaria uma nova cidade, berço de uma raça grandiosa e de um império sem fim. A epopeia de Roma é também a epopeia da condição humana, que Virgílio teceu durante os últimos dez anos da sua vida. «Uma das obras[1]primas da literatura ocidental, que faz da fragilidade a sua grandeza, das contradi[1]ções a sua beleza, do enlace entre luz e sombras, entre otimismo e pessimismo, a semente da sua perenidade.»

Autor: Carlos Ascenso André

Arquivado em:Livros e Revistas

Anna Lenz é a nova Diretora-Geral da Nestlé Portugal

3 Maio, 2022 by Denise Calado

Anna Lenz, atualmente responsável do negócio Nespresso na Europa, é a partir do dia 1 de julho de 2022, Country Manager da Nestlé em Portugal, sucedendo a Paolo Fagnoni. O atual Market Head da Nestlé em Portugal desde 2018 passa a exercer as funções de Zone Europe Food Category Head, a partir da mesma data.

De nacionalidade suíça e licenciada em matemática teórica, Anna Lenz iniciou a sua carreira na Nestlé em 2004, na área internacional de auditoria do Grupo. Após diversas funções na área de Finanças, em 2017 um novo desafio trá-la a Portugal como Business Executive Officer para a Nespresso. No início de 2020, foi promovida à sua atual posição, integrando a Leadership Team da Nespresso a nível global.

A nova Diretora-Geral regressa agora a Portugal como a primeira mulher a liderar o Grupo Nestlé. “É uma enorme alegria estar de volta a Portugal para assumir novas responsabilidades que me vão permitir ter maior influência na forma como a Nestlé cria e partilha valor económico e valor social no país. O grupo Nestlé tem em Portugal uma posição de liderança única e uma reputação invejável, fruto de um compromisso continuado com os consumidores portugueses. É assim que queremos prosseguir, com fortes parcerias no retalho e no HORECA, empenhados no desenvolvimento das nossas pessoas, dos nossos produtos e das nossas marcas e firmemente comprometidos com uma cultura de sustentabilidade em todas as nossas atividades”, afirma a profissional.

Arquivado em:Notícias, Pessoas

5G People Transformation: nova edição do evento de formação e tecnologia

3 Maio, 2022 by Denise Calado

É já no próximo dia 17 de maio, Dia Mundial da Internet, que se vai realizar a 2ª edição do evento de formação e tecnologia, 5G People Transformation, organizado pela Blended Training Services.

Depois do primeiro evento 5G Transformation, que aconteceu em janeiro, com um elevado índice de satisfação (NPS 81,25), a nova edição irá ter como tema a gestão de equipas do ponto de vista da tecnologia, não descurando o mais importante: as Pessoas.

O evento online é exclusivo para clientes Blended e irá contar com um painel de oradores, nacionais e internacionais, especialistas em Pessoas e Tecnologia.

Alex Brittain-Catlin é Senior Consultant na Promote Solutions, conta com 3 certificados High Performance e com 15 anos de experiência a desenvolver, projetar e implementar programas de aprendizagem para clientes de diferentes segmentos e culturas.

Marianna Starvridi tem uma vasta experiência na área da tecnologia de RH. Atualmente é Senior Partnerships Specialist na Epignosis e desenvolve o Talent LMS – o LMS para o sucesso da formação.

Omid Asgari é Neurobranding Strategist e Founder e CEO do DCG Lab. Na Nova School of Business and Economics ocupa várias funções como Ph.D. investigador em Managerial Decision, assistente de ensino e de investigação nos cursos de “Consumer Behavior”, “Consumer and Managerial Decision Making” e “Advanced Marketing” e Chief Neurobranding Office no VCW Lab.

Rui Pedro Brandão é responsável pelos Global Training Systems do grupo EDP, desde 2009. Lidera e desenvolve soluções de formação à escala global, nomeadamente, em Portugal, Espanha, Estados Unidos e Brasil. Tem uma experiência de 13 anos em consultoria empresarial e financeira, implantação e gestão de projetos e gestão de serviços de TI e SI.

O evento será moderado pela COO da Blended, Daniela Vieira dos Santos, umas das especialistas em Portugal certificada em Avaliação de Impacto pelo Modelo de Kirkpatrick e em Learning Journeys pelo Professor Brinkerhoff.

 

Mais informações aqui.

Arquivado em:Notícias, Tecnologia

Green Deal Europeu: saiba o que é, como afeta o seu negócio e como pode beneficiar

3 Maio, 2022 by Denise Calado

Cerca de 60% das empresas não estão familiarizadas com o EU Green Deal. Menos de metade das organizações estão preparadas para ele; destas, 66% encaminharam já capital para investir na sua sustentabilidade nos próximos anos.

Estas são parte das principais conclusões de um inquérito a cerca de 300 negócios em 13 países europeus, elaborado pela consultora PwC, que avaliou se as empresas europeias estão preparadas ou a fazer algumas mudanças para integrar o emergente Green Deal.

O Green Deal Europeu é o plano da União Europeia para se tornar o primeiro continente neutro, no que toca às alterações climáticas, e transformar completamente a economia europeia. Taxas, impostos e incentivos são cruciais para o sucesso do EU Green Deal.

Os maiores obstáculos para as empresas são a falta de capacidade de organização para entender todas as implicações, custos das taxas e como podem beneficiar de incentivos, e maximizar as oportunidades que surgem da transição para economias mais sustentáveis. Nesse sentido, a PwC apresenta uma lista de como começar o processo e se familiarizar e beneficiar do novo acordo na sua empresa:

  1. Avaliar em que ponto a sua empresa se encontra relativamente a todos os itens de ação do Green Deal;
  2. Quantificar o impacto do Mecanismo de Ajuste Fronteiriço de Carbono (MAFC) e outros impostos e taxas do Green Deal;
  3. Refletir sobre a sua estratégia e modelo de negócio considerando o Green Deal;
  4. Definir objetivos claros tanto a curto-prazo como a longo-prazo;
  5. Desenhar um mapa para definir claramente as necessidades da empresa, o que é necessário para mudar e como financiar essa mudança;
  6. Avaliar a elegibilidade dos seus projetos de sustentabilidade no que diz respeito a financiamento europeu, nacional e regional, candidatar-se a fundos relevantes e comunicar as suas conquistas a acionistas-chave;

A transição para a Economia Circular (EC) é também prioridade no acordo, e no relatório mostra que muitas empresas estão a dar os primeiros passos para reduzir a produção de resíduos e emissões, e estão já a promover a durabilidade dos seus produtos e a sua reutilização.

 

 

Arquivado em:Notícias, Sustentabilidade

O insustentável peso do erro

3 Maio, 2022 by Denise Calado

“Todas as empresas precisam de gente que erra, que não tem medo de errar e que aprende com o erro”. Bill Gates

Com este mote, e acreditando no pressuposto de BG, dediquei um capítulo inteiro do meu livro (“Manual de Sobrevivência para o mundo corporativo”, Influência) ao valor do erro. Falhar, falhar, falhar, assim se chamam as várias páginas onde aprofundei o assunto, e que têm sido muito comentadas. Aparentemente, falar das coisas que nos correm menos bem, por muito que seja necessário, não é pratica comum. Vivemos ainda com o estigma do sucesso estéril e imaculado mas quem anda nestas lides sabe que, no fim do dia, isso não existe.

O sucesso vai acontecendo à medida que se vai errando, e parece-me crucial falar abertamente desses momentos, que nos marcam e ajudam a não cometer o mesmo erro duas vezes. Quando não corre bem é preciso perceber qual a falha, assumir o erro, e seguir em frente com mais uma aprendizagem na bagagem. Quando erramos e o assumimos, perante nós próprios, em primeiro lugar, e depois perante o nosso chefe, o nosso cliente ou os nossos colegas, crescemos. E aprendemos que há sempre uma maneira de resolver o assunto, mesmo que ao início pareça que não tem solução.

Tive a sorte de sempre trabalhar em empresas que me deram espaço para fazer, falhar e, assim, crescer. Sinto que foi fundamental ter esta liberdade de ação porque pude aplicar a minha criatividade aos processos em que estava envolvida e foi com o fazer/falhar que aprendi muito. Deram-me a confiança para ir ganhando mais e melhor autonomia.

Autonomia significa ter a segurança e o conhecimento prévio para tomar iniciativa nos momentos certos, alinhado sempre com a forma como a organização utiliza esses conhecimentos e com os seus valores. Lembre-se que ao ter/dar autonomia, também está a ter/dar mais responsabilidade. Afinal, se somos capazes de decidir, também somos responsáveis pelas nossas ações.

Essa liberdade e esse voto de confiança que a empresa nos dá é um gatilho para que se contribua mais, se faça melhor e se explorem novas formas de fazer o que já se fazia, porque nos dá um senso de importância. O oposto é verdadeiro também. Se nos sentimos sempre controlados não nos sentimos convidados a contribuir. Não há sentimento de recompensa em fazer algo apenas por fazer.

Com autonomia há transparência no ambiente de trabalho e nas expectativas para metas e resultados. Isso requer, no entanto, ter conversas realmente abertas com as equipas e ouvir o que eles têm para dizer. Por mais tentador que seja controlar tudo, não dar espaço de manobra para que aconteçam falhas é um garante de pessoas desmotivadas, pouco criativas e sem iniciativa.

É muito positivo quando as empresas se preocupam em estar alinhadas com os colaboradores (e vice-versa) e os valorizam, ajudando-os a crescer, louvando-os quando atingem os objetivos e apoiando quando erram. Foi o que aconteceu, em maio de 2021, com caso #Mariana do Continente. Lembram-se?
Por engano, ao fazer um teste piloto de programação, a Mariana enviou uma mensagem para muitos clientes do Cartão Continente a dizer: “Teste Mariana. Recebeste?” A empresa podia ter-se limitado a mandar uma mensagem aos clientes a pedir desculpa pelo lapso, mas brilhantemente agarrou neste “erro” e publicou um post sobre o tema no LinkedIn e redes sociais. Os clientes ficaram confusos, mas empatizaram com a #Mariana (quem é que nunca errou?) e o engano tornou-se motivo de orgulho de uma cultura corporativa. Muitas outras marcas alinharam com a #Mariana e juntaram-se à brincadeira. No Instagram, a publicação ‘Todos Receberam?’, teve mais de 17 mil gostos; no Facebook gerou centenas de comentários; no Twitter, além das mais de 75 mil impressões, a “Mariana” foi #1 nas top trends em Portugal e no LinkedIn da Sonae MC o feedback também não se fez esperar, com mais de 210 publicações com a hashtag #Mariana. Um fenómeno de celebração do erro, muito pouco comum.

Modo Tentativa Erro
Associa-se muito a cultura da valorização do erro à start ups. Na realidade, construir um negócio de sucesso não é uma jornada fácil e durante a fase de desenvolvimento, grande parte das startups acabam falhando ou até mesmo morrendo. Mas neste ecossistema encara-se o erro como uma sequência para o sucesso – valoriza-se cada falha porque significa que há menos um passo para alcançar o objetivo final. Por meio desses obstáculos, é possível calcular os riscos e olhar para o negócio da maneira certa, sem insistir em algo que não faz sentido.

Esta filosofia, na realidade é seguida também por grandes empresas. A grande diferença é que por questões reputacionais, normalmente, não se faz grande alarido do que corre menos bem. Vejam-se de seguida alguns erros na área do marketing cometidos por profissionais/equipas de marketing, que trabalhando em empresas que dão espaço e seguem a filosofia tentativa/erro, deram alguns passos duvidosos, aprendendo sempre com a lição. Todas estas marcas ficaram mais fortes depois destas experiencias.
Os meus casos favoritos de erros, de tão flagrantes:
TOP 10
1. Comidas congeladas da marca Colgate – 1982, a equipa de marketing queria entrar no mercado de food e alguém se lembrou que manter a marca podia resultar; testaram e avançaram. A marca já era tão forte na higiene oral que descredibilizou totalmente esta nova linha de produtos, motivo pela qual foi rapidamente descontinuada.

2. O clássico caso da New Coke – 1985, um dos mais famosos casos de produtos que fracassaram. A New Coke foi uma tentativa da Coca-Cola de combater a Pepsi mudando o sabor original. Porém, mesmo com centenas de estudos de mercado, mega campanha e altíssimo investimento em media, os consumidores não aceitaram a mudança. Chegou a haver protestos públicos nas ruas e algumas pessoas chegaram a guardar as últimas unidades da Coca-Cola tradicional em casa, com o objetivo de leiloá-las.

3. Perfume Bic – 1989 , a marca Bic decidiu lançar um produto completamente fora do seu scope de atuação – perfume. As pessoas não ficaram impressionadas e nunca aderiram. Os perfumes foram removidos do mercado ao fim de um ano, com um prejuízo de 11 milhões de dólares.

4. Pizza do McDonald’s – 1990, mais um caso out of the box. Na tentativa de aumentar os clientes no horário noturno, a McDonald’s lançou nos Estados Unidos um menu dedicado a esse período que incluía pizzas. Não resultou mesmo. Além de desvirtuar a marca, a pizza leva muito mais tempo a fazer o que desagradou os consumidores habituados com a rapidez do serviço “fast food”.

5. Água de Colónia, Harley Davidson – 1990, nesta época, a HD lançou vários produtos de extensão de marca bastante fora de “contexto”. Os fãs da marca decidiram que o perfume/colónia era o limite e simplesmente ignoraram o lançamento. O produto foi um buraco de vendas e levou a marca a reanalisar a sua vontade de estender a marca para fora do seu “habitat” natural.

6. Mazagran, Starbucks e Pepsi – 1995, Starbucks e Pepsi fizeram uma parceria para produzirem uma bebida gaseificada de café – o classico Mazagran. Até aqui tudo bem – duas marcas fortes, com grande legitimidade no mercado do café. No entanto, o produto era demasiado diferente – muitas pessoas ficaram indecisas entre se gostavam ou odiavam a bebida. Foi descontinuada rapidamente.

7. Iogurte Cosmopolitan – 1999, a revista Cosmopolitan decidiu entrar no mercado da alimentação! Tiveram a ideia de iniciar o processo com o lançamento de iogurtes porque, segundo a sua pesquisa, era um dos produtos que mais agradava o seu target principal. No entanto, as pessoas não conseguiram relacionar a revista com o iogurte, acabando por ser retirado do mercado ao fim de ano e meio.

8. Batom do cieiro, Cheetos – 2005, Alguém na PepsiCo decidiu que era uma excelente ideia lançar um batom com sabor a Cheetos (aqueles aperitivos de milho com sabor a queijo). Não faço ideia como isto viu a luz do dia mas foi mesmo lançado e, claro, durou muito pouco.

9. Coca-Cola BlaK – 2006, uma mistura de Coca-Cola com café que não caiu no gosto dos consumidores. Para todos os efeitos a bebida já tem cafeína, e o sabor era pouco convincente.

10. Ez Squirt Ketchup, Heinz – 2006, a Heinz queria captar a atenção das crianças para os seus produtos e fizeram vários testes. Acabaram por lançar o colorido Ez Squirt ketchup, que vinha em 3 cores: verde-azulado, verde e roxo. Durou 6 anos!

11. Bic For Her – 2012, a Bic lançou um novo segmento de mercado: “lady pens”. Ou seja, produtos de papelaria só para mulheres. Foi fortemente criticada pela falta de sentido desta aposta. Rapidamente desistiu e mudou de rumo. Hoje e empresa é uma referencia na área da inclusão e diversidade.

Estes são exemplos perfeitos de filosofias empresariais que abraçam a falha e o erro. Arriscaram, falharam, aprenderam, voltaram melhores. No meu entender, é sempre preferível pedir desculpa por ter feito do que deixar por fazer.
Errar uma vez acontece a todos. Repetir o erro é uma escolha.
Seja como for, não deve ser encarado como um peso que se carrega, mas sim como uma sustentável leveza do ser.

Arquivado em:Opinião

Salgueiro Maia e Zelensky são dois fenómenos de coragem

3 Maio, 2022 by Denise Calado

Fernando Salgueiro Maia foi o líder que, no dia 25 de abril de 1974, comandou a coluna de blindados, vindos de Santarém, e montou cerco aos ministérios do Terreiro do Paço forçando, mais tarde, no Quartel do Carmo, a rendição de Marcello Caetano. Para Sérgio Graciano, realizador do filme “O implicado”, o herói e símbolo da Revolução é tal como Zelensky, “alguém que está pronto para morrer”. Dois fenómenos de coragem que não fogem nem abandonam o seu povo. Hoje divulgamos a entrevista com Sérgio Graciano e na próxima semana a entrevista com o ator Tomás Alves, no papel de Salgueiro Maia.

Porquê agora, e não antes, esta homenagem a Salgueiro Maia?

O filme era para ter estreado há um ano e não foi. Estreou agora na comemoração dos 30 anos da morte do Salgueiro Maia, e quase nos 50 anos do 25 de Abril. Por que não antes? Há coisas estranhas que acontecem em Portugal, porque esta homenagem peca por tardia, um herói deste tamanho já devia ter uma história contada na televisão e no cinema. Pois, apesar de ter havido filmes sobre o 25 de abril, nunca visavam objetivamente a vida do Salgueiro Maia. Este filme surge agora, neste contexto onde se questiona tanto a liberdade do que se escreve, como do que se pode ou não dizer, e acaba por ser giro, porque é um filme sobre alguém que conquistou a liberdade e lutou por ela. E nós agora estamos numa zona onde nem sequer sabemos bem o que é a liberdade. Por isso, eu diria que o filme vem no tempo certo.

Aos jovens, principalmente, que não viveram o 25 de Abril, nem os tempos da ditadura, faz falta conhecer o papel desta figura?

Sim, faz. Desta figura e de muitas outras que são importantes para a história de Portugal. Este foi o homem que nos possibilitou poder andar e falar à vontade, e como quiséssemos. Por isso, eu acho obrigatório. Toda a gente conhece esta história. Acho que os miúdos deviam ir ao cinema ver o filme, e é sempre importante soltar os nossos heróis. Por isso este é só mais um, mais um do tamanho que é.

Como se preparou para fazer o filme?

Pesquisei muita coisa no YouTube e na televisão, mas confesso que onde eu fui buscar mais foi na Natércia, a viúva do Salgueiro Maia e alguns capitães de Abril. A Natércia pôde falar sobe coisas que eu nunca teria ouvido se não fosse por ela, porque ela fala de amor. E quando alguém fala em amor, não pode ser um oficial do exército a falar do amor de Salgueiro Maia. Foi isso que eu procurei no filme. Contar a história de uma pessoa que era apaixonado pela mulher e a mulher por ele. Era apaixonado por um país. Ou seja, se a base desta história era o amor, e eu tinha de ter alguém que me falasse dele. Atrás de um grande homem há sempre uma grande mulher e a Natércia não é exceção. É uma mulher incrível, cheia de convicções, de opiniões e com um amor sem tamanho por aquele homem, que já morreu há 30 anos. Espero que quem veja o filme sinta alguma coisa que não se vê, mas que sinta um amor gigante e um homem incrível. Era isso que eu gostava que se sentisse.

O Salgueiro Maia é um grande exemplo de liderança e de dar o corpo às balas, dar a sua vida pela liberdade. Que outras características pode referir sobre este homem?

A humanidade, a constante preocupação por causa do estado do país, a importância que dá à amizade, a importância que ele dá à família. Era um grande líder, de facto, mas também era um líder super humano. Era um homem muito maior do que o herói.

Neste momento, em que se vivem tempos de guerra na Ucrânia, pode ser feito um paralelismo entre a atitude que Zelensky tem hoje e a que Salgueiro Maia teve na altura?

Não sei se pode, são temas completamente diferentes. Nós não estávamos a ser invadidos, como a Ucrânia está a ser invadida. Quer dizer, no fundo até estávamos invadidos por uma ditadura. Isso sim, eu acho que sim. São dois fenómenos de coragem, o Zelensky tem um país gigante a combater contra ele. E tínhamos o Salgueiro Maia com uma ditadura com dezenas de anos a tentar quebrá-lo e ele a tentar dar voz aos portugueses. Se calhar não é uma comparação mal feita, mas com tempos e coisas muito diferentes.

Zelensky diz que não sai e não abandona Kiev, que fica até ao fim pelo seu povo, pelo seu país.

Sim, não foge, morre se tiver de morrer. Salgueiro Maia era assim. Salgueiro Maia, quando vai para o Terreiro do Paço – muito pouca gente sabe disto – levava uma granada no bolso e, se alguma coisa corresse mal, ele explodia a granada e ia tudo pelos ares. Por acaso isso está no filme. É alguém que está pronto para morrer.

Um realizador também é um líder?

Não sei se é um líder. Eu tento ser para o bem e para o mal, porque um líder às vezes faz coisas más, mas também faz outras boas. Quero pensar que sou um dos líderes equilibrados que tenta dar uma no cravo e outra na ferradura. Mas não sei, não me fica muito bem falar de mim.

Como é que se escolhe o ator certo para desempenhar o papel de uma personagem que existiu na História de um país?

Primeiramente, pensei no Tomás Alves, porque achei que ele era parecido com o Salgueiro Maia. Depois, porque é um ator em quem confio muito, já trabalhei muitas vezes com ele, vezes sem conta. E adoro. Acho que é um talento e a escolha foi natural pelas parecenças físicas. Quanto à Filipa Areosa, tem um nervo muito parecido com o da Natércia. É meio rezingona. Foi o primeiro nome em que eu pensei para fazer a Natércia. Não pensei em mais nenhum. Ouvi a Natércia e pensei, é a Filipa.

 

Por: Mariana Lobo Vaz

Fotos: Rodrigo Machado

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