Está na hora de podermos ser genuínos nas organizações? Independentemente da nossa orientação sexual, identidade e expressão de género, caraterísticas sexuais, religião, idade, raça, etnia, nacionalidade ou grau de deficiência? Quais os desafios da diversidade e inclusão nas organizações? É necessário reinventar o trabalho e a nossa relação com ele?
Qual o verdadeiro significado de uma liderança sensível e humana num mundo cada vez mais imprevisível e exigente? O que é, afinal, uma liderança sensível? Já ouviu falar em líderes Zorgi? Emoção ou razão? Testosterona ou Progesterona, qual deve prevalecer? Estas foram algumas das questões debatidas na Leading People – International HR Conference. Sensitive Leadership – Reset, Rebirth, Reinvent Ourselves foi o tema que ontem reuniu cerca de 25 oradores no palco do Centro Cultural de Cascais.
«Uma liderança sensível não se baseia apenas na autoridade formal, mas sobretudo na capacidade de inspirar e motivar as pessoas ao seu redor», as palavras são de Filipe Vaz. No discurso de abertura, o CEO da Tema Central alerta para a urgência de «líderes que escutam, que valorizam a diversidade e que se preocupam com o bem-estar daqueles que lideram, porque só assim podemos construir um ambiente de trabalho mais humano, colaborativo e empático». E diz mais: «Num momento em que a IA está na ordem do dia, acredito que a sensibilidade do líder fará cada vez mais a diferença entre o Humano e a máquina. Dificilmente um líder sensível poderá ser substituído por uma máquina. Ou será que pode? Aliás, será que este discurso foi escrito por mim ou por IA?». Certo é que «a sensibilidade na liderança também implica reconhecer e valorizar o potencial de cada pessoa».
Na primeira talk da manhã, Albertina Jordão, Gestora de Programas da Organização Internacional do Trabalho (OIT), trouxe o tema “Diversidade, Igualdade e Inclusão, do que é que falamos?”. Com uma carreira de mais de 30 anos a dedicar-se a temáticas relacionadas com a promoção da igualdade e não discriminação, em particular no mundo do trabalho, Albertina chama a atenção para o facto de que «quando falamos de diversidade falamos de um conceito muito mais amplo do que o entendemos». Partilhou, entre outros, os dados do estudo feito pela OIT, a pedido do Governo de Portugal, sobre a avaliação da desigualdade salarial em Portugal. «As mulheres caem persistentemente numa desigualdade salarial, em comparação com os homens. Há uma grande parte da desigualdade que não é percetível pelos fatores objetivos, mas por outras questões não explicáveis».

No seu segundo século de existência, o desafio da Organização Internacional do Trabalho, inscreve «a abordagem ao futuro do trabalho centrada no ser humano» e ao serviço da justiça social como o caminho a seguir. O mundo do trabalho é um lugar privilegiado para o futuro da diversidade, da igualdade e da inclusão. As organizações, as empresas e as pessoas são quem melhor podem protagonizar um futuro do trabalho digno.
«Não se percebe como ainda falamos de testosterona e não de sensibilidade»
No debate “Rebirth – fazer renascer as organizações”, moderado por Cláudio França, Jornalista SIC, Armindo Monteiro, Presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP), lança a pergunta: não temos problema de identidade em Portugal, mas afinal qual é a razão para sermos o 4.º País mais pobre da Europa? E responde: «Acredito que é uma questão cultural, de cidadania. O desígnio nacional é medíocre em termos de ambição. Precisamos de reinventar as organizações. Estou a liderar uma organização que tem apenas três mulheres, as cotas não devem promover a qualidade, mas é um mal necessário». Para o novo Presidente da CIP: «Se queremos valor acrescentado precisamos de empresas com um nível de negócio mais sofisticado, o apport das pessoas é crucial. Menos patrões e mais empresários e mais líderes. É preciso juntar valor absolutamente inclusivo. Não se percebe como ainda falamos de testosterona e não de sensibilidade».

Já Sofia Calheiros, Pioneira do Coaching em Portugal, conta que quando as quotas apareceram, foi convidada para exercer vários cargos. «O meu valor sempre existiu, mas parecia que tinha aumentado, recusei tudo. E, de repente, percebi o valor das quotas. As quotas têm de existir porque a tendência natural do ser humano é escolher os iguais, é importante as pessoas diferentes virem a jogo.»
«As quotas por si só não fazem a magia, têm de existir bons programas de inclusão. Não nos podemos distrair.»
E detalha ainda a importância de as empresas terem formação em enviesamentos cognitivos, em microcomportamentos, em liderança feminina, em inclusão da maternidade para aumentar a sensibilidade da empresa a diferentes questões culturais.

Por seu lado, André Ribeiro Pires, Chief Operating Officer da Multipessoal, destacou a importância de distinguir positivamente inclusão e diversidade dentro das organizações, para além da necessidade de adaptação cultural. Na sua perspetiva, «atualmente as empresas têm dificuldade em absorver, em todas as hierarquias, estas diferenças. E as lideranças são onde deve estar o primeiro foco de investimento nesta capacidade de integração», adverte.

Pedro Ramos, CEO da Keeptalent Portugal e Presidente da APG, alerta para o facto de «este tema estar a ser discutido ao contrário, hoje as empresas têm de ter equipas e pessoas que pensem de forma diversa e diferente». «Precisamos de atrair pessoas diferentes porque precisamos de soluções diferentes», conclui.

“As emoções estão sempre presentes, mas não devemos deixar que elas contaminem as nossas conclusões”
Razão e emoção, o que prevalece? E o que significa a inclusão para as empresas e como levar a diversidade para o centro das organizações?
A palavra Zorgi que vem do esperanto, e significa “cuidar”, foi o mote para a apresentação seguinte, de Stella de Azevedo, Filósofa, e Sónia Mendes Barbosa, Psicóloga, ambas fundadoras do Instituto Zorgi, sob o tema “Lideranças Zorgi ou a Arte de Cuidar”. Não existe um conceito de líder unipessoal, mas antes focado no autoconhecimento e autoconfiança. Existe sim a conceção de «lideranças vinculativas» e a ideia de uma «natureza arriscada da liderança». «O líder, ou lideranças, são jogadores e também são jogados, e este processo pendular é o espaço de liderança», partilharam, para além da consciência do tempo cairológico, que considera uma noção de oportunidade para a tomada de decisões.

Seguiu-se a conversa entre Cláudia Custódio, Professora Associada de Finanças na Imperial College Business School, e Ana M. Sebastião, Neurocientista e Diretora do Instituto de Farmacologia e Neurociências da Faculdade de Medicina de Lisboa. “As emoções na economia e na ciência”, contou com a moderação de Luís Maia, Jornalista da SIC. A figura do homo economicus, tradicional, racional e sem emoções, é ainda a que prevalece. Mas hoje a importância do humor e saber captar a atenção das pessoas é muito mais relevante. «As emoções, como medir a empatia ou a tristeza, são muito mais desafiantes do que os números. A IA veio tornar muito mais fácil as decisões técnicas, como tomar a melhor decisão económica, mas gerir pessoas será sempre mais difícil», partilhou Cláudia Custódio.

Acerca da emoção e da importância de ter gosto pelo que se faz, Ana M. Sebastião, partilhou o lema do laboratório onde trabalha e que diz: «se não tivermos gosto pelo que fazemos, seguramente não vai correr bem». Enfatizou a necessidade de haver «líderes com razão, pois sem a razão não há ação. As emoções estão sempre presentes, mas não devemos deixar que elas contaminem as nossas conclusões», remata.

E o desafio da diversidade?
Será que o tema da diversidade está mesmo presente nas agendas das empresas e organizações? «Vivemos num mundo diverso, altamente competitivo, e quanto mais diverso, mais facilmente gerimos os negócios e mais probabilidades temos de ser inovadores e produtivos», com estas palavras, o economista Jens Schadendorf, marcou a sua talk “The rise of LGBT + Equality in Global Business – now what?”.
Sob o tema, “Reset and reinvent ourselves – novos cidadãos, novos trabalhos, um novo mundo”, o debate seguinte contou com a presença de Mariana Canto e Castro, DRH da Randstad Portugal, Filipa Gamanho Esteves, Diretora de RH da Capgemini Portugal, Pedro Vieira, Marketing Director da Zome, com moderação de Vanessa Ezequiel Lopes, Jornalista e Presidente da Associação Rizoma.
É necessário reinventar o trabalho e a nossa relação com ele? Como estão a fazer as empresas e as organizações? Que exemplos devemos seguir? O que procuram as pessoas quando procuram trabalho? Estas foram algumas das muitas questões abordadas nesta conversa.
Mariana Canto e Castro explica que a Randstad Portugal vive um processo de transformação e chamou a atenção para diversos assuntos.
«Encontrar o nosso propósito está na ordem do dia. E isto leva-nos a outro caminho, o facto de escolhermos uma área profissional não significa que não a possamos mudar. As pessoas cada vez mais procuram o ensino pelas mais valias e não por imposição familiar. Algo que as realize». E, de facto, alerta: «Há escassez de talento porque as empresas insistem em procurar sempre no mesmo sítio».
Na Randstad a saúde mental é uma das causas da empresa, explica a DRH, adiantando que implementaram um programa de apoio clínico. «Temos de ter as nossas pessoas muito bem cuidadas. Por isso, falamos abertamente sobre saúde mental, burnout, lideranças tóxicas».
«Se pudermos ser quem somos seguramente somos melhores. Isto é sensitive leadership, é dar espaço às pessoas para serem quem quiserem. A empresa é a vida e a vida flui». E teve ainda oportunidade de partilhar um caso de inclusão especial num dos recrutamentos internos: «Há uns anos tínhamos um problema grave de 45 toneladas. Refiro-me ao nosso arquivo em papel, precisávamos de o digitalizar, catalogar e classificar. Pensámos logo em recrutar pessoas para nos fazer isso e dar oportunidade de emprego a quem geralmente não a tem. Contratámos pessoas com histórias de vida inacreditáveis que já estavam a ser apoiadas por Associações, mas ali aprenderam a trabalhar com coisas básicas como fotocopiadoras, computadores e reaprenderam a ser pessoas. Na altura fomos apelidados de loucos, mas correu muito bem.»
Filipa Gamanho Esteves explica que a tecnologia e as tendências tecnológicas tipicamente mudam de três em três meses. «Isso mostra a oportunidade e o desafio de todo e qualquer colaborador da Capgemini. Há pessoas que querem reconverter-se, temos de as capacitar para as tecnologias atuais e as futuras, temos de as capacitar sempre, não há opção. A tecnologia serve para melhorar a qualidade de vida. É essencial que as nossas pessoas acreditem nisso».
E Pedro Vieira relembra o slogan da Zome: “mudar a vida juntos”. «Ninguém pensa na nossa responsabilidade de mudar a vida. Na faculdade ninguém diz que quer ser consultor imobiliário, hoje a complexidade do negócio implica uma maior complexidade nesta função. Toda a gente vem ter connosco, desde arquitetos a jogadores de futebol. Chegam a esta profissão por gostarem de relações humanos, mas sempre frustrados, antes não tinham autonomia, não podiam tomar decisões, não tinham tempo para a família e o setor imobiliário proporciona a estas pessoas criarem um negócio próprio e evoluírem na carreira. A entrada começa logo com formação».
«Falar sobre quem falta estar nas organizações é um tema fácil? Está na moda? Mas será que é mesmo assim? O que falta as empresas fazerem para incluir o que é diverso?», Diogo Vieira da Silva, Global Shapers WEF – Lisbon Hub e Head of Press Office da Embaixada de Israel em Portugal, lança as questões, enquanto moderador da conversa “Como estão as organizações a incluir o que é diverso?”.
Rui Catarino, Presidente do Conselho de Administração do Teatro Nacional D. Maria II, partilha que trabalha numa empresa vetusta, onde a diversidade recai em três áreas: nas equipas, no produto e no consumidor. No TDMII, «o exercício da empatia é um fator essencial para perceber que o que estamos a fazer é muito mais do que o que falta fazer». E acrescenta, «precisamos de dados, empatia e acção». «Tomar para nós o mote das sufragistas inglesas: “Deeds not words”», referindo-se à expressão usada no início do século 20, como o argumento para: precisamos de mais ações e menos palavras.
Para Mariana Brilhante, Cofundadora do SPEAK, o desafio está em «diferenciar a inclusão e a diversidade da caridade», e o caminho deve começar pela «inclusão para promover a diversidade», e, por sua vez, a diversidade de pensamento contribui, entre outros, para a criatividade.
Cristina Tomé, Coach e Mentora da Associação d’Novo, que se dedica ao tema da empregabilidade qualificada de mais de 50 anos, foca-se na questão do idadismo, que para as empresas, na teoria, é evidente, mas na prática é «dificílimo». «A questão da idade surge sempre, e é por isso, que as organizações têm de olhar para as suas crenças», adverte, deixando a sugestão aos líderes de colocarem questões: que talento quero nas organizações? Quantas gerações? Queremos ter o selo age friendly?»
Sensibilidade e Liderança – uma relação de bom senso?
A fechar a conferência, um momento inspirador, com a partilha de experiências de dois líderes, com percursos distintos, mas com uma história comum de resiliência e de exemplo de vulnerabilidade, que contou com a participação de Marta Temido, ex–Ministra da Saúde e Deputada, e Pedro Pina, Vice-Presidente do Youtube para a Europa, Médio Oriente e África (EMEA).

Com a moderação de Nelma Serpa Pinto, Jornalista da SIC e host do evento, a conversa foi marcada pelas experiências vividas, entre tempos difíceis, quer pelo contexto social, como uma Pandemia, quer pelo contexto pessoal, de não se estar ainda preparado para viver em verdade.
Para Pedro Pina, ter-se assumido gay aos 28 anos não foi um caminho simples, numa época em que não existiam exemplos ou modelos com que se pudesse relacionar. E ainda hoje há falta desses exemplos, nas empresas, das comunidades LGBT+. «É preciso que os empresários finalmente falem sobre este assunto. Portugal é um País extraordinariamente cisgénero. As marcas em Portugal não se aliam a esses movimentos», adverte.

Sobre a importância de se mostrar a vulnerabilidade, afirma: «Um líder tem de pintar a sua visão para o futuro, com as cores que pretende, e convencer um conjunto de pessoas a segui-lo. Para isso temos de conseguir fazer uma ligação com as pessoas que só é possível se mostrarmos que somos humanos como todos os outros».
Para Marta Temido, ter assumido a pasta da Saúde, com dois anos de Pandemia, foi um desafio enorme, que ainda não conseguiu sistematizar e encarar com clareza para balanços, chegando a partilhar que «é demasiado doloroso olhar para lá». Sobre os tempos mais conturbados, em que liderava sem ter certezas, admite as decisões difíceis de tomar. «Na maioria dos casos, estávamos a falar de tocar naquilo que há de mais sensível nas nossas democracias: os nossos direitos, liberdades e garantias», partilhou.

E quanto a um líder mostrar-se vulnerável, relembrou-se o momento em que ao fazer o balanço da Pandemia, em dezembro de 2020, Marta Temido emocionou-se e chorou em público. «Hoje não estamos dispostos para a artificialidade», acrescenta. E Pedro Pina conclui: «Viver em verdade, mesmo que seja mais difícil, é sempre melhor do que viver em mentira ou em mostrar-se ser alguém que não corresponde ao que somos».
O evento contou ainda com duas intervenções exclusivas para a Líder TV, a talk «O Resgate do Humano: a construção de um legado por uma liderança humanizada», de Adilson Souza, CEO & Fundador da Estação Liderança Consultoria Empresarial e Autor e o debate «Diversidade e Inclusão no Jornalismo», com a participação de Luís Maia, Jornalista da SIC, Vanessa Ezequiel Lopes, Jornalista e Presidente da Associação RIZOMA e Nelma Serpa Pinto, Jornalista da SIC, moderado por Catarina G. Barosa, Diretora Editorial da Revista Líder.
Todos os conteúdos ficarão disponíveis a partir do dia 2 de junho, na Líder TV, disponível on demand, de acesso universal e gratuito, posição 165 do MEO e 560 da NOS.









