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Rita Saldanha

Comissão Europeia recomenda a Portugal mais transparência na justiça e combate à corrupção

29 Julho, 2024 by Rita Saldanha

A Comissão Europeia emitiu algumas recomendações para Portugal, especificamente relativas ao aumento da transparência nos processos judiciais, em especial os mais complexos, fortificação do combate à corrupção e regulamentação do jornalismo e meios de comunicação.

Estas informações surgem no seguimento do quinto relatório anual sobre o Estado de Direito da UE, publicado pela Comissão Europeia, que analisa de forma objetiva a evolução das normas e obrigações judiciais de todos os Estados-Membros.

Desde a primeira publicação, em 2020, o relatório tornou-se um motor de reformas positivas: dois terços (68 %) das recomendações emitidas em 2023 foram, total ou parcialmente, aplicadas.

O relatório deste ano inclui, pela primeira vez, evoluções sobre o alargamento da UE, relativamente à Albânia, Montenegro, Macedónia do Norte e Sérvia. A inclusão destes países candidatos – os mais avançados no processo de adesão – sustentará os seus esforços de reforma, ajudará as respetivas autoridades a progredir no processo de adesão e a prepararem-se para dar continuidade aos trabalhos em matéria de Estado de Direito enquanto futuros Estados-Membros.

Conheça as principais recomendações da Comissão Europeia:

 

Independência judicial e salários dos juízes são o foco das reformas na justiça

Apesar dos progressos feitos no que diz respeito à transparência da distribuição dos processos, subsistem preocupações quanto à independência judicial e à qualidade dos sistemas de justiça, em especial com a remuneração de juízes e procuradores. Consequentemente, o relatório deste ano sugere que os Estados-Membros devem continuar a abordar estas questões, incluindo a disponibilização de recursos adequados para o sistema judicial.

Especificamente em Portugal foram registados alguns progressos no que diz respeito à «contratação de pessoal adequado», nomeadamente quanto aos funcionários judiciais, e em prosseguir os esforços para melhorar a sua eficácia nos tribunais administrativos e fiscais. A UE recomenda ainda que se adotem medidas para garantir a adequação da legislação geral em matéria de processo penal, a fim de tratar eficazmente os processos penais complexos.

Nos países candidatos a entrar na UE, foram efetuadas reformas constitucionais, mas são necessários mais esforços em matéria de governação judicial e de nomeações.

A corrupção continua na ordem do dia, após alguns avanços

Apesar de algumas melhorias a nível da garantia de recursos adequados para a prevenção, investigação e repressão da corrupção, a UE recomenda que se reforcem as medidas preventivas, como a regulamentação da atividade de lobbying, e que se assegurem investigações e ações judiciais eficazes. Nos países do alargamento, embora os quadros jurídicos tenham melhorado, continua a ser necessário reforçar a aplicação da lei nos casos de corrupção.

Em Portugal, é recomendável que prossigam os esforços para garantir recursos suficientes para a prevenção, investigação e repressão da corrupção. Espera-se ainda que se assegure o controlo e a verificação eficazes das declarações de bens pela entidade responsável pela transparência.

 

Uma regulamentação dos media focada na valorização e justiça

Vários Estados-Membros da UE fizeram progressos no reforço da segurança e das condições de trabalho dos jornalistas, em parte devido a novas iniciativas como a Lei Europeia da Liberdade dos Meios de Comunicação Social, a diretiva “Anti-SLAPP” e a Recomendação sobre a segurança dos jornalistas. Os benefícios fiscais na compra de jornais e revistas mostraram também efeitos positivos no consumo de notícias por parte dos portugueses.

As entidades reguladoras nacionais dos meios de comunicação social adquiriram responsabilidades mais vastas, especialmente com a aplicação da Lei dos Serviços Digitais da UE e a introdução de registos de propriedade online. No entanto, subsistem preocupações quanto à governação independente e à estabilidade financeira dos meios de comunicação social de serviço público, à transparência da propriedade dos meios de comunicação social, ao acesso aos documentos públicos e à distribuição equitativa da publicidade estatal.

A Comissão Europeia emitiu recomendações sobre estas questões, incluindo a garantia da segurança e combate à precariedade dos jornalistas, que em Portugal se mantém como um dos principais problemas. Aconselha ainda a adoção de medidas para «assegurar a transparência da propriedade dos meios de comunicação e para prevenir interferências políticas».

A Comissão destacou ainda o caso da Global Media – grupo da TSF, DN, JN e outros títulos – referindo que a aquisição de uma das maiores organizações de media em Portugal por um fundo de investimento, seguida por uma série de decisões altamente controversas, «incluindo a apreensão de bens, o não pagamento de salários e despedimentos coletivos», levou os jornalistas a protestar, revelando-se uma preocupação para a UE.

 

Maior controlo e equilíbrios institucionais

Os Estados-Membros continuaram a melhorar a qualidade dos seus processos legislativos e a envolver as partes interessadas nesses processos – uma tendência também registada nos anteriores relatórios sobre o Estado de Direito. Em Portugal, registaram-se alguns progressos suplementares na finalização das reformas destinadas a melhorar a transparência do processo legislativo, com especial destaque para a aplicação de instrumentos de avaliação do impacto.

Para resolver os problemas identificados, a Comissão emitiu recomendações relacionadas com o funcionamento do processo legislativo, a criação e o funcionamento de autoridades independentes e o ambiente favorável à sociedade civil. Recomenda-se ainda a conclusão das reformas destinadas a melhorar a transparência do processo legislativo, nomeadamente no que respeita à aplicação dos instrumentos de avaliação do impacto.

Nos países do alargamento, subsistem desafios no que se refere ao seguimento sistemático das recomendações das instituições do Provedor de Justiça e de outros organismos independentes.

 

Todas as recomendações podem ser consultadas aqui.

 

Arquivado em:Notícias, Política

Dia Mundial da Conservação da Natureza: conheça o sonho de replantar uma floresta

29 Julho, 2024 by Rita Saldanha

O Instituto Terra é fruto da iniciativa do casal Lélia Deluiz Wanick Salgado e o fotógrafo Sebastião Salgado, em devolver à natureza o que décadas de degradação ambiental haviam destruído. Fundado em 1998, o projeto, que recebeu de forma inédita o título de Reserva Particular do Património Natural (RPPN), propunha recuperar o ecossistema da antiga fazenda de gado da família, em Aimorés, no Estado de Minas Gerais.

Localizado na bacia hidrográfica do Rio Doce, numa região da Mata Atlântica, este é um hotspot global de biodiversidade, cuja ação de restauração é de elevada importância ambiental, social e económica para o Brasil.

Vinte e cinco anos depois, a sede do Instituto Terra conta com uma floresta de 709,87 hectares, coberta por mais de 3 milhões de árvores nativas, que possibilitaram o retorno da fauna local: aves, répteis, pequenos mamíferos e até onças-pardas.

A propósito da celebração do Dia Mundial da Conservação da Natureza, ontem, 28 de julho, a Líder partilha algumas informações sobre a atuação deste organismo.

 

 

Antes
Depois

 

Sede Instituto Terra, antes de depois. Créditos imagem: RPPN Fazenda Bulcão 2001/2022 – © Sebastião Salgado

 

25 anos de trabalho e o balanço de 2023 

Foi recentemente divulgado o Relatório de Atividades relativo ao ano de 2023 e  um balanço dos últimos 25 anos de atuação.

 

Impactos na zona da Sede em 25 anos 

+ 3 milhões árvores plantadas

+ 300 espécies de sementes recolhidas numa área de 200 km

+ 7 milhões mudas nativas geradas em viveiro

+ 146 mil visitantes passaram pelo Instituto Terra

214 técnicos formados em restauração ecossistémica

 

Impactos na zona da Sede em 2023 

+ 300 kg de sementes colhidas de 104 espécies nativas

120ha de ações de plantio

+ 350 mil mudas nativas geradas em viveiro

+ 210 mil mudas plantadas na Sede

+ 340 hectares de novas áreas, totalizando + mil hectares de Sede

+ 4 mil visitantes

 

Marcos históricos 

Em 2005, foi inaugurado o Centro de Educação em Restauração Ambiental (CERA), que promove programas de educação ambiental, sensibilização e formação profissional para públicos de várias faixas etárias. Entre eles, o programa Terrinhas que já introduziu milhares de crianças do ensino público da região a temas ambientais.

Em 2010, foram iniciadas atividades de extensão ambiental, realizadas fora da sede. O programa Olhos D’água, destinado a promover a recuperação de nascentes em pequenas e médias propriedades rurais, transformou-se numa estratégia de segurança hídrica para a bacia do Rio Doce, premiado mundialmente por recuperar milhares de nascentes.

Em 2023, foi lançado o programa Terra Doce, que reúne ações do Instituto Terra, como o Olhos D’Água e o Terrinhas, além de novas iniciativas, destacando-se a disseminação e implantação de Sistemas Agroflorestais em pequenas e médias propriedades rurais.

À medida que as atividades do Instituto Terra se expandem pela bacia do Rio Doce, elas também continuam na zona da sede, em Aimorés, com a aquisição da Fazenda Cantinho do Céu, em 2023, com uma área de 344 hectares contígua à RPPN e tão degradada quanto estava anteriormente.

 

Cinco pontos chave do trabalho do Instituto Terra 

Reflorestamento estratégico

Mapeamento de áreas críticas em microbacias e pastagens degradadas para receberem cobertura de árvores que ajudam a recarregar os lençóis freáticos, proteger o solo e promover a chuva através da evapotranspiração.

Garantia da segurança hídrica

Reflorestamento estratégico e implementação de tecnologias adaptadas ao meio rural para tornar córregos perenes e aumentar a oferta de água em pequenas e médias propriedades rurais.

Formação comunitária

Educação ambiental em larga escala e fortalecimento de uma identidade cultural baseada na produção eco sustentável e conservação.

Cadeia produtiva verde

Estabelecimento de uma cadeia de valor associada ao meio ambiente, que aprimora e facilita a distribuição de produtos provenientes do reflorestamento.

Devolução de conhecimento à sociedade

Aplicação de conhecimento produzido dentro do Instituto Terra, por meio de pesquisas académicas, de forma a promover melhorias nas comunidades.

Arquivado em:Notícias, Sustentabilidade

Educação, Emprego e Competências em Portugal: qual o estado da Nação?

29 Julho, 2024 by Rita Saldanha

A diferença dos salários dos portugueses com o ensino superior face ao secundário atingiu os 49% em 2023 e a vulnerabilidade do mercado de trabalho em relação à IA já se nota em contexto nacional.

O relatório do Estado da Nação 2024 sobre Educação, Emprego e Competências em Portugal, elaborado pela Fundação José Neves (FJN), analisa o impacto positivo da educação no emprego e nos salários, a evolução do mercado de trabalho, o contributo do Ensino Profissional para a transição digital e o impacto da digitalização e da Inteligência Artificial.

Nesta edição são apresentadas metas de desempenho para um Portugal do conhecimento em 2040, com pistas para o futuro.

 

Trabalhadores com o Ensino Superior beneficiam de vantagem salarial relativamente aos trabalhadores com o Secundário

Os trabalhadores mais qualificados são os que beneficiam de maiores retornos salariais. O ganho adicional de ter o Ensino Superior face ao Ensino Secundário foi, para a população entre os 18 e os 64 anos, de 49% em 2023. Não obstante, este valor tem vindo a cair na última década, sendo que em 2011 era de 71%.

No caso da população mais jovem, entre os 25 e os 34 anos, a vantagem salarial do Ensino Superior face ao Ensino Secundário foi de 34% em 2023. Face aos anos anteriores, verifica-se uma recuperação da vantagem salarial do Ensino Superior, depois do decréscimo verificado de 2021 para 2022, de 37% para 27%.

 

A vulnerabilidade à Inteligência Artificial (IA) enquanto substituto ou complemento do trabalho 

O impacto da IA no mercado de trabalho é complexo, multifacetado e implica novos desafios, mas também oportunidades. A exposição à IA remete para a probabilidade das atividades que os trabalhadores realizam poderem ser substituídas (vulnerabilidade elevada) ou complementadas pela IA (vulnerabilidade baixa).

Em Portugal, as mulheres e os trabalhadores com níveis de educação mais elevado são os grupos em que a IA poderá ter um impacto maior. Em ambos os casos, a percentagem de trabalhadores que apresentam uma exposição elevada à IA e cujas tarefas podem ser substituídas pela IA é superior. No caso das mulheres, 15,1% estão em profissões de vulnerabilidade elevada e 5,9% em profissões com vulnerabilidade baixa. Para os homens, estes valores são de 9,4% e de 6,5%, respetivamente. Em termos etários, o grupo com maior vulnerabilidade elevada está na faixa dos 25 aos 34 anos, onde a percentagem de trabalhadores nessa categoria é de 14,7%.

Uma análise setorial demonstra que são os trabalhadores no setor das Atividades financeiras e de seguros, das Atividades de informação e de comunicação e das Atividades de consultoria, científicas, técnicas e similares que apresentam maior vulnerabilidade. Já no setor da Educação, a IA apresenta-se com o índice de complementaridade mais elevado, com 25,7% do emprego na categoria de “Vulnerabilidade baixa”.

 

As empresas com maior digitalização têm mais produtividade e pagam melhores salários 

Em 2023, a maioria das empresas apresentava um nível baixo ou médio de digitalização, sendo que é no setor das atividades de informação e de comunicação (58,5%) que se regista uma maior percentagem de empresas com nível elevado de digitalização, seguido do setor da energia e gestão de resíduos (58%).

A dimensão das empresas é outro fator relevante para o índice de intensidade digital. Quanto maior a empresa, maior é o índice de digitalização. Este índice está igualmente associado a maior produtividade e a salários mais elevados. Entre os mais jovens, a intensidade digital do emprego mantém-se alta sobretudo entre os diplomados no Ensino Superior.

 

Em 2023 o mercado de trabalho tornou-se mais qualificado 

Entre 2019 e 2023, os níveis de emprego e de participação no mercado de trabalho português recuperaram a trajetória de crescimento anterior à pandemia. Em 2023 a população empregada estava nos 4,9 milhões, quando era de 4,8 milhões em 2019 e 4,6 milhões em 2020, em plena crise pandémica.

Neste período, o mercado de trabalho recompôs-se e tornou-se mais qualificado. Esta recomposição prende-se com o crescimento do peso de setores mais intensivos em conhecimento e tecnologia, com profissões qualificadas associadas à gestão e às TIC e associadas a tarefas mais administrativas, que ganharam peso no emprego nos últimos anos.

Desemprego jovem voltou aos números pré-pandemia 

O ano de 2023 assistiu a uma recuperação dos níveis de desemprego jovem para valores mais próximos dos registados antes da pandemia, dando sinais de uma recuperação quase completa.

No final de 2023, a taxa de desemprego dos jovens entre os 25 e os 34 anos de idade era de cerca de 7,4%, em contraste com uma taxa de desemprego global de 6,6%. Feita a análise por qualificações, verifica-se que a taxa de desemprego dos diplomados do Ensino Superior foi de cerca de 5,3%, um valor inferior aos 9% registado para os jovens da mesma idade sem esse nível de qualificações.

 

Metas para uma Sociedade do Conhecimento em 2040

  • Portugal nos 10 países da UE com mais emprego em tecnologia e conhecimento (em 2023 desceu da 16ª para a 17ª posição);
  • Pelo menos 25% dos adultos devem participar em educação e formação ao longo da vida (em 2023 aumentou para os 13,4%);
  • Máximo de 15% dos adultos (25 aos 64 anos) com baixa escolaridade (em 2023 desceu para os 40,6%);
  • Pelo menos 60% dos jovens adultos com o ensino superior (em 2023 desceu para 40,9%);
  • Pelo menos 90% dos jovens recém-formados empregados (em 2023 aumentou para os 78,8%).

Linhas de ação propostas pela FJN 

  • Estimular a presença dos jovens no Ensino Superior, seja em cursos conducentes a grau superior (Licenciaturas, Mestrados e Doutoramentos), seja em Cursos Técnicos Superiores Profissionais.
  • Promover o Ensino Profissional junto da sociedade civil e do mercado de trabalho, sublinhando o seu significativo contributo no sucesso da transição digital em Portugal.
  • Continuar a incentivar a transição dos alunos do Ensino Profissional para o Ensino Superior.
  • Implementar estratégias com vista à recuperação dos resultados do PISA 2022 e apostar em medidas específicas direcionadas para o novo ciclo de estudo, em 2025, e para o particular enfoque que irá ser dado às Ciências.
  • Criar condições para que Portugal se torne mais atrativo para as empresas na área das altas tecnologias.
  • Estimular a digitalização das empresas e a adoção de modelos híbridos de trabalho, com o intuito de aumentar a produtividade e os salários.
  • Desenvolver mecanismos de apoio às empresas e aos trabalhadores na transição digital, aquando da introdução da IA no mercado de trabalho.
  • Desenvolver estratégias para mitigar a vulnerabilidade das profissões à IA.
  • Promover a formação contínua e a requalificação profissional para adaptar os trabalhadores às novas realidades tecnológicas.

 

Arquivado em:Economia, Notícias

Jogos de Paris 2024 na mira dos cibercriminosos

29 Julho, 2024 by Rita Saldanha

Os Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2021, registaram uma audiência de mais de 3 mil milhões de espectadores e os de Paris, que começaram na passada sexta-feira, será o maior evento de sempre.

Os grandes eventos desportivos, como o Mundial de Futebol, a Super Bowl e Wimbledon, atraem milhões de espectadores. A grandiosidade destes eventos torna-os também um alvo para os cibercriminosos, com a dark web a servir de centro às suas atividades.

Um relatório da tecnológica Fortinet sobre os Jogos Olímpicos de Paris 2024, revela que na última década, o número de ciberataques a grandes eventos aumentou, passando de 212 milhões de incidentes documentados nos Jogos de Londres 2012 para 4,4 mil milhões nos Jogos de Tóquio (2021).

De acordo com a análise, desde a segunda metade de 2023, assistiu-se a um aumento da atividade da darknet dirigida a França. Este aumento, que ronda os 80% a 90%, manteve-se consistente entre o segundo semestre de 2023 e o primeiro semestre do presente ano.

Mercado negro em crescimento para dados pessoais e atividades maliciosas 

As atividades documentadas incluem a crescente disponibilidade de ferramentas e serviços avançados, concebidos para acelerar as violações de dados e recolher informações de identificação pessoal (Personally Identifiable Information-PII), tais como nomes, datas de nascimento, números de identificação, emails, números de telefone, moradas, entre outros.

Segundo o relatório, estão a ser vendidas bases de dados francesas que incluem informações pessoais, credenciais e ligações VPN comprometidas para permitir o acesso não autorizado a redes privadas.

Aumento da atividade hacktivista 

Como a Rússia e a Bielorrússia não foram convidadas para estes jogos, é revelado um aumento da atividade hacktivista por parte de grupos pró-Rússia, cujo alvo são os Jogos Olímpicos de Paris. Grupos de outros países e regiões, como o Anonymous Sudan (Sudão), Gamesia Team (Indonésia), Turk Hack Team (Turquia) e Team Anon Force (Índia), também são predominantes.

Esquemas de phishing e atividades fraudulentas 

Embora o phishing seja talvez a forma mais fácil de ataque, muitos cibercriminosos pouco sofisticados não sabem como criar ou distribuir e-mails de phishing. Os kits de phishing fornecem a estes “principiantes” uma interface de utilizador simples que os ajuda a compor um e-mail convincente, adicionar uma carga maliciosa, criar um domínio de phishing e obter uma lista de potenciais vítimas. A adição de serviços de IA geradores de texto também eliminou os erros ortográficos, gramaticais e gráficos que permitem aos destinatários detetar um e-mail como malicioso.

Foram também identificadas várias fraudes da lotaria com o tema dos Jogos Olímpicos, muitas fazendo-se passar por marcas como a Coca-Cola, Microsoft, Google, Lotaria Nacional Turca e o Banco Mundial. Os principais alvos destas fraudes são utilizadores nos EUA, Japão, Alemanha, França, Austrália, Reino Unido e Eslováquia.

Observou-se ainda um aumento dos serviços de codificação para a criação de sites de phishing, serviços de SMS para permitir a comunicação em massa e serviços de falsificação de números de telefone. Estas ofertas podem facilitar os ataques de phishing, espalhar desinformação e perturbar as comunicações imitando fontes fiáveis, o que pode provocar significativos desafios operacionais e de segurança durante o evento.

O malware infostealer foi concebido para se infiltrar furtivamente no computador ou dispositivo da vítima e recolher informações sensíveis, tais como credenciais de login, detalhes de cartões de crédito e outros dados pessoais. Segundo relatório, os atores de ameaças estão a implementar vários tipos de malware para roubo de informação, infetar os sistemas dos utilizadores e obter acesso não autorizado. Os cibercriminosos e os intermediarios de acesso inicial podem ainda aproveitar esta informação para executar ataques de ransomware, causando danos substanciais e perdas financeiras a indivíduos e organizações.

 

Arquivado em:Cibersegurança, Notícias

Pedro Santa Clara: «Precisamos de oferecer alternativas educacionais inovadoras»

26 Julho, 2024 by Rita Saldanha

Pedro Santa Clara tem desafiado o status quo da Educação em Portugal, mostrando que é possível adotar projetos pedagógicos vanguardistas com impacto.

Através de iniciativas como a 42 Lisboa, 42 Porto e agora o TUMO, tem procurado, juntamente com a sua equipa, oferecer alternativas ao ensino tradicional, focando-se em modelos de aprendizagem baseados na prática, na autonomia e na colaboração.

Desde o primeiro momento, Pedro Santa Clara ficou impressionado com o modelo pedagógico e com o potencial de impacto do TUMO. «Os países que investem na educação hoje serão os mais competitivos amanhã», evidencia o Professor. Por isso o seu grande objetivo é trazer para Portugal abordagens e metodologias que preparem melhor os jovens para o futuro.

«Desde o início que assumimos a colaboração como um elemento central do nosso trabalho. Parcerias ativas com diversos atores da sociedade civil, incluindo empresas, municípios, educadores e outras organizações, aceleram os resultados dos projetos e promovem transformações significativas. Juntos, esforçamo-nos por revolucionar a educação e deixar um impacto duradouro no nosso país», sublinha.

O mais recente centro TUMO vai instalar-se em Lisboa, em setembro, no Beato Innovation Hub. E foi o motivo para uma conversa com Pedro Santa Clara, que está também a iniciar o projeto no Porto e em Braga, e de olho em Évora e no Algarve.

 

O TUMO foi fundado em 2011 em Erevan, na Arménia. O projeto tem vindo a expandir-se em todo o Mundo, num total de 14 centros e 28 mil alunos ativos. Em Portugal, iniciou-se na cidade de Coimbra no ano passado. Como surge a ideia de trazer o TUMO para o nosso país?

Trazer o TUMO para Portugal foi uma decisão estratégica fundamentada no reconhecimento do potencial transformador que o projeto pode trazer para os jovens portugueses. Ao identificar a oportunidade de trazer o TUMO para Portugal, fui motivado pela convicção de que precisamos de oferecer alternativas educacionais inovadoras que preparem os jovens para os desafios do futuro digital.

Fiquei desde logo impressionado com o modelo pedagógico e com o potencial de impacto do TUMO. Iniciámos conversas com os fundadores, Marie Lou e Pegor Papazian, para ver como poderíamos adaptar e implementar este conceito inovador em Portugal.

O passo seguinte foi reunir um grupo de parceiros excecionais em Coimbra, como a Critical Software, Paulo Marques e Pedro Bizarro (fundadores da Feedzai), o Licor Beirão, a Oxy Capital, a Câmara Municipal de Coimbra, a Altice Portugal, o BPI | Fundação ‘’la Caixa’’, a Fundação Santander e a Fundação Calouste Gulbenkian. Recrutámos uma equipa extraordinária e quando abrimos as inscrições tivemos a surpresa de centenas de jovens interessados logo na primeira semana.

Acreditamos que este é o momento certo para investir nos jovens de Portugal, capacitando-os para liderar o desenvolvimento nas próximas décadas.  O TUMO não só lhes permite aprender novas áreas fundamentais para o futuro como a programação ou o design gráfico, mas, pelo próprio modelo pedagógico, contribui para desenvolver competências pessoais tais como a resiliência, autoconfiança, pensamento crítico e trabalho em equipa.

O mundo digital oferece inúmeras oportunidades, como é que descreveria o panorama da educação em tecnologia e criatividade em Portugal?

Está em franca evolução, mas ainda enfrenta muitos desafios. A necessidade de fornecer talentos para os setores da tecnologia e design é crítica em toda a Europa. Tanto o setor público como o privado estão a ensaiar respostas a essa necessidade com medidas que passam pela requalificação de jovens profissionais, organização de hackathons, financiamento de incubadoras, abertura de bootcamps, entre outros. Contudo, estas medidas são, muitas vezes, reativas. Acredito que o verdadeiro impacto assenta na preparação dos jovens desde cedo, garantindo que temos um pipeline de pessoas autónomas e preparadas, capazes de aproveitar as oportunidades das próximas décadas. Os países que investem na educação hoje serão os mais competitivos amanhã.

O TUMO assume-se como um ensino que foge ao tradicional e que o quer revolucionar. Na prática, como funciona e o que tenciona trazer de diferenciador ao mercado nacional?

Diferencia-se pelo seu modelo de aprendizagem que combina autoaprendizagem com workshops práticos dados por especialistas. Oferecemos um ambiente onde os jovens podem explorar as suas paixões e desenvolver competências práticas em áreas relevantes para o mercado de trabalho. Além disso, o programa é completamente gratuito e acessível, o que promove a igualdade de oportunidades e a inclusão social.

 

É um centro de tecnologias criativas que promove um programa educativo gratuito, inclusivo e voluntário, complementar ao ensino formal, no qual os estudantes, dos 12 aos 18 anos, escolhem o que vão aprender. Qual é o grande propósito?

Destaca-se precisamente por se focar nas competências reais dos jovens, seja através da aprendizagem do digital, bem como na valorização de valores positivos, como a capacidade de colaborar e comunicar eficazmente, a empatia, as capacidades de investigação e a proatividade.

A concorrência global em áreas como a programação e a produção de média e a ascensão da inteligência artificial implica um maior esforço dos empreendedores e trabalhadores para se focarem ainda mais na inovação, na multidisciplinaridade e na interseção de tecnologia com o design, em vez de apenas adquirirem competências técnicas isoladas.

 

O mais recente centro chega em setembro ao Hub Criativo do Beato, em Lisboa. Porquê a escolha deste local?

Escolhemos o Hub Criativo do Beato (agora Beato Innovation Hub) por ser um local emblemático e com grandes áreas. Aqui no Beato encontrámos um espaço amplo que está a ser adaptado para responder às necessidades do projeto.  O espaço tem também a mais-valia de estar inserido num ecossistema vibrante e dinâmico, que fomenta a colaboração entre diferentes áreas do conhecimento e setores da economia. Isso proporcionará aos nossos alunos um ambiente inspirador e repleto de oportunidades.

 

E qual o investimento envolvido?

O investimento é semelhante ao realizado em Coimbra, totalizando sete milhões de euros para cinco anos de projeto. Este projeto só é possível graças ao envolvimento de parceiros que acreditam na nossa missão e estão comprometidos em promover a educação e capacitar a próxima geração. BPI | Fundação “la Caixa”, Claude and Sofia Marion Foundation, Fundação Galp, José de Mello e Vanguard Properties são parceiros fundadores do TUMO Lisboa, aos quais se juntam Fundação Santander Portugal, MEO, Fundação Altice e Worten.

 

O que é que já pode ser desvendado sobre este centro?

O centro em Lisboa terá capacidade para acolher até 1500 jovens e vai oferecer formação em oito áreas de competência: Fotografia, Animação, Desenvolvimento de Jogos, Programação, Música, Design Gráfico, Cinema e Robótica.

O espaço físico de um centro TUMO é um ingrediente essencial para a pedagogia, por isso dedicamos tempo a pensar como criar um espaço que inspire os jovens e que lhes transmita que podem (e devem) ir além do tipo de pensamento a que podem estar acostumados em ambientes mais convencionais. A arquitetura de um centro TUMO contempla grandes espaços abertos, combinados com salas de workshops que assegurem a transparência e a flexibilidade, refletindo o currículo e a filosofia pedagógica.

No Beato, temos 1000m² preparados para surpreender e inspirar os nossos alunos, equipados com ferramentas topo de gama, incluindo um estúdio de música, uma sala de robótica e equipamento profissional de fotografia e cinema.

 

Há pouco explicava que o modelo de aprendizagem combina um equilíbrio entre autoaprendizagem e workshops. Como é que se concretiza?

Os alunos têm acesso a recursos online que desenvolvem presencialmente para aprender de forma independente, mas também participam de workshops regulares onde trabalham em projetos práticos e interagem com mentores e especialistas. Essa combinação permite uma aprendizagem personalizada e prática. O programa TUMO cria um percurso à medida de cada aluno, que segue ao seu ritmo. Após a fase de exploração, cada aluno define seu próprio caminho selecionando quatro áreas e no final do programa reúne um conjunto de trabalhos nestas áreas.

Como é que foi selecionado o corpo docente?

O TUMO Lisboa contará com uma equipa de 35 pessoas, composta principalmente por Workshop Leaders – especialistas nas áreas de competência oferecidas -, e Learning Coaches, que são facilitadores do processo de aprendizagem que acompanham os jovens. O processo de recrutamento está em curso e as vagas estão disponíveis no nosso site tumo.pt.

Para além de cumprirem com excelência os requisitos técnicos de cada área, procuramos pessoas alinhadas com a nossa missão de promover uma educação inclusiva e inovadora, capazes de inspirar e guiar os jovens no seu caminho de aprendizagem.

O que procuram os jovens no TUMO?

Procuram um espaço de aprendizagem e de conexão com outras pessoas. Como disse um dos nossos alunos: “O TUMO é um lugar para se aprender e para conhecer pessoas novas. Para o meu futuro, tem as áreas perfeitas para aprender.” Eles estão à procura de oportunidades para desenvolver competências em áreas que são importantes para o seu futuro, enquanto se envolvem num ambiente colaborativo e inspirador.

O que é necessário para se abrir um centro?

A ambição da equipa passa pela expansão de centros de educação TUMO por todo o território nacional. Estamos a começar a desenvolver o projeto no Porto e Braga, e já começámos algumas conversas também em Évora e no Algarve. É necessário garantir a junção de várias peças: um espaço, financiamento e uma equipa motivada.

O projeto é liderado por si, com a mesma equipa que anteriormente desenvolveu o novo campus da Nova SBE e fundou a 42 Lisboa e 42 Porto. Quais são as prioridades do seu mandato?

Esta equipa juntou-se com o objetivo de desenvolver projetos educativos com impacto. Desde o início que assumimos a colaboração como um elemento central do nosso trabalho, e este é um aspeto que procuramos e incorporamos nos nossos projetos. Parcerias ativas com diversos atores da sociedade civil, incluindo empresas, municípios, educadores e outras organizações, aceleram os resultados dos projetos e promovem transformações significativas. Juntos, esforçamo-nos por revolucionar a educação e deixar um impacto duradouro no nosso país.

E, de futuro, quais são as suas grandes ambições?

No futuro, temos grandes ambições para expandir e consolidar o impacto do TUMO em Portugal e além. Queremos aumentar significativamente o número de centros TUMO no País para garantir que mais jovens possam beneficiar do nosso programa educativo inovador. Além disso, pretendemos fortalecer as parcerias com o setor tecnológico e outras indústrias, criando uma ponte sólida entre a educação e o mercado de trabalho.

Outro objetivo é fomentar uma cultura de aprendizagem contínua e de participação cívica entre os nossos estudantes, preparando-os para serem não só profissionais competentes, mas também cidadãos ativos e conscientes.

Finalmente, estamos comprometidos em adaptar e evoluir o nosso currículo para responder às necessidades emergentes e às mudanças rápidas no mundo digital e tecnológico, garantindo que os nossos alunos estejam sempre um passo à frente e prontos para os desafios futuros.

 

Arquivado em:Entrevistas

Finalmente: a maior explosão do cosmos

26 Julho, 2024 by Rita Saldanha

No dia 13 de agosto de 2018, um homem caiu num buraco negro e sobreviveu para contar a história. O insólito acidente aconteceu no Museu de Serralves, no Porto, quando um turista italiano se aproximou da obra Descida para o Limbo, do artista Anish Kapoor.

A obra em causa fazia parte de uma instalação que inclui um buraco preto com cerca de 2,5 metros de profundidade, pintado com Vantablack, um material que consegue absorver 98% da luz visível e é considerado o pigmento mais escuro até hoje criado.

Impressionado com as propriedades extraordinárias da tinta, entre as quais conferir a objectos tridimensionais uma aparência de bidimensionalidade, Kapoor adquiriu os direitos exclusivos para o seu uso artístico. Numa entrevista à revista ArtForum, Anish Kapoor explicou o seu fascínio pelo pigmento: «É o material mais negro do universo a seguir aos buracos negros.»

Não há nada como ter números. Vamos admitir que temos um sistema de dois buracos negros, cada um com uma massa igual à do Sol, portanto com um raio de cerca de 3 quilómetros. Suponhamos que o movimento destes dois buracos negros tem um período orbital de uma hora e que se encontram a 1000 parsec28 de distância da Terra. Neste caso, h ~ 1021, ainda extremamente débil. Nunca é de mais relembrar que isto equivale a ter que medir variações do tamanho aproximado de um electrão no comprimento de Portugal. Mas nem tudo está perdido. Como o sistema emite ondas, perde energia, e, portanto, podemos recorrer à equação 8 para entendermos se a energia perdida por segundo é semelhante à que o Sol perde sob a forma de luz. Esta perda faz com que o raio e o período da órbita do sistema diminuam com o tempo. Em cada ano, o período é encurtado cerca de um centésimo de milissegundo. Ah, se ao menos conseguíssemos medir a variação do período!

As dez últimas órbitas antes da colisão duram cerca de 100 milissegundos. Se pudéssemos observar este sistema a 150 quilómetros de distância, um anel de berlindes com um metro de diâmetro seria esticado ou comprimido 3 milímetros com o passar da onda. A energia emitida no choque final é enorme e corresponde à de cerca de cem mil planetas Terra (ou a um décimo da massa do Sol).

Foi uma variação de período semelhante que Russell Hulse e Joseph Taylor observaram no sistema binário PSR 1913+16. Este sistema consiste em duas estrelas de neutrões, uma das quais é um pulsar, que emite feixes de luz com os quais podemos monitorizar perfeitamente o período orbital. Hulse e Taylor observaram o pulsar PSR 1913+16 durante décadas e as suas medições concordaram com as previsões da relatividade geral com uma precisão incrível. As medições foram tão impressionantes que receberam o Prémio Nobel da Física em 1993. Os componentes da binária PSR 1913+16 vão colidir entre si apenas daqui a cerca de 240 milhões de anos.

Ver o efeito de ondas gravitacionais num sistema a milhares de anos-luz não é o mesmo que ver esse efeito na Terra com algo construído por nós. Há décadas que criamos aparelhos, progressivamente melhores e mais sensíveis, para detectarem ondas gravitacionais. A nossa tecnologia é baseada em princípios muito simples: em vez de um anel de berlindes, usamos o aparato de Michelson e Morley quando testaram a existência do vácuo. Os berlindes são os espelhos de Michelson, que são pendurados por forma a moverem-se livremente quando e se uma onda gravitacional interagir com eles. Todavia, a realidade é bem mais complexa, pois para medirmos os desvios de que estamos à espera o nosso detector tem de estar isolado de tudo. Como o desvio é tanto maior quanto maior for a distância entre espelhos (a equação 5), queremo-los o mais longe possível um do outro. Para aumentar ainda mais a distância efectiva, fazemos o feixe laser circular um grande número de vezes antes da interferência. Para o detector LIGO nos Estados Unidos, a distância entre espelhos é de cerca de 4 quilómetros, mas a distância efectiva é de 300.

A 14 de Setembro de 2015, os espelhos do LIGO moveram-se. Não era ruído, não era pirataria, não era avaria. Passou uma onda gravitacional na Terra e fez mover o nosso detector. Vimos, pela primeira vez, ondas gravitacionais. Que acontecimento fabuloso! Um século depois da previsão teórica, ao fim de décadas de esforço, a humanidade ganhou um novo poder, um novo sentido para estudar e compreender o cosmos. Começamos a conseguir observar o universo invisível. Foi um esforço de décadas, de séculos, de gerações que legaram o seu conhecimento a outras gerações, para lá de defeitos individuais. Nada mau.

As ondas que detectámos foram geradas por uma binária de buracos negros, no seu ciclo final de vida. O vácuo emitiu ondas. Os buracos negros estavam a um giga ano-luz de distância. Quando as ondas foram geradas, não existiam senão seres unicelulares na Terra. Enquanto as ondas se deslocavam pelo espaço em direcção à Terra, a vida desenvolveu-se, deu origem ao ser humano e a uma civilização que se interroga sobre a sua existência. Eram dois buracos negros que se aproximaram e colidiram, um com 36 o outro com 29 massas solares. A massa do objecto final era cerca de 62 sóis. Durante a colisão, a energia equivalente a três sóis irradiou sob a forma gravitacional. Este processo é o mais poderoso que alguma vez observámos; a luminosidade em ondas gravitacionais é maior do que a de todo o resto do universo. De onde vem esta energia, se é tudo vácuo? Podemos pensar nela como energia elástica do vácuo sob tensão, armazenada na vizinhança dos buracos negros e emitida quando estes colidem. Demos um nome a este acontecimento: GW150914, que nos diz o ano, o mês e o dia em que aconteceu. Temos um nome de baptismo.

Desde 2015, já detectámos mais de uma centena de eventos em ondas gravitacionais. Isto tornou a astronomia de ondas gravitacionais uma área própria. A massa dos objectos patente na figura 24 ilustra também como o universo está cheio de buracos negros. Existe imensa informação neste diagrama, alguma da qual estamos ainda a tentar perceber. Os anos que se aproximam vão permitir adicionar centenas, milhares de buracos negros a esta figura. Na realidade, dentro de poucos anos a versão melhorada do LIGO poderá ver milhares por ano. Mas também queremos ver melhor, e para isso estamos a construir interferómetros muito superiores, como o Einstein Telescope, que será instalado algures na Europa (ainda não está decidido onde). Mas o nosso planeta está sempre a vibrar, devido às marés e à actividade sísmica, e quando alguém nos está sempre a abanar não conseguimos ver muito bem. Para podermos ver ainda melhor estamos a construir um telescópio de ondas gravitacionais no espaço, o Laser Interferometer Space Antenna (LISA). O LISA vai conseguir ver — em ondas gravitacionais — todo o cosmos até ao momento do seu nascimento. Aproximam-se anos incríveis!

 

 

 

 

 

 

 

Este excerto faz parte do livro O Eclipse do Tempo. Guia Para Entrar em Buracos Negros, de Vítor Cardoso, da Oficina do Livro (chancela Leya).

Vítor Cardoso é Professor Catedrático e Professor Distinto no Departamento de Física do Instituto Superior Técnico e Professor Catedrático no Instituto Niels Bohr,

Universidade de Copenhaga onde é Villum Investigator e DNRF Chair. Doutorou-se em Física no Instituto Superior Técnico e fez investigação de pós-doutoramento em Saint Louis, Missouri, e Oxford, Mississipi, nos Estados Unidos. Os seus interesses de investigação incidem sobre ondas gravitacionais e buracos negros e a física do espaço, e é um pioneiro em espectroscopia de buracos negros e testes da teoria de Einstein. É autor de um livro e de mais de 250 artigos publicados em revistas internacionais. A sua investigação foi distinguida três vezes pelo European Research Council. Em 2015, foi agraciado pelo Presidente da República com a Ordem de Santiago D’Espada, pelas suas contribuições para a ciência. É membro fundador da Sociedade Portuguesa de Relatividade Geral.

 

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