Temos por vezes a ideia de que a Assembleia da República é uma espécie de Olimpo com o melhor que a nação produziu. Se calhar é uma ilusão necessária ao funcionamento da democracia mas na verdade o Parlamento será um sítio onde, como no resto da sociedade – uma paróquia, uma manifestação, um grupo coral, uma confraria – se encontra todo o tipo de pessoas.
Por isso talvez não devamos esperar mais dos deputados do que do resto de nós. Ou melhor, devemos esperar um sentido de Estado, uma pose institucional e uma compreensão das regras da democracia. Mas talvez já estejamos a esperar demais, como mostram episódios recentes envolvendo o senhor beijoqueiro do Chega e os cornos-rock de Mariana Mortágua. Sendo verdade que a vaia e o insulto sempre foram vetustas práticas parlamentares, talvez um bom parlamento oscile entre a ordem e a desordem. Por isso temos como referência o Parlamento britânico e os famosos gritos de Order! do speaker. Mas as coisas estão a piorar. Em Espanha uma em cada sete pessoas já cortaram relações por desavenças políticas. A falta de respeito que os políticos mostram uns pelos outros aprofunda a polarização.
Por cá os deputados que se comportam como garotos e os que ficam ofendidos pelos garotos fazem lembrar um recreio onde coexistem bullies e flores de estufa ou, como agora se diz, flocos de neve. Estes locais não têm graça – talvez por isso não sinta nenhuma nostalgia pelos dias do liceu. Não esqueçamos: as grosserias ficam com que as pratica mas afetam-nos a todos. Talvez por isso valha a pena recomendar Rendição ou a ascensão dos idiotas, de Pedro Gomes Sanches. É ler e depois ir fazer queixa do autor. Ou, melhor ainda, não nos comportarmos como idiotas.
