A saúde mental das mulheres não é apenas uma questão de biologia. Fatores como a desigualdade salarial, a sobrecarga de trabalho e a violência doméstica aumentam o risco de depressão, ansiedade e stresse pós-traumático, colocando as mulheres numa posição de maior vulnerabilidade psicológica. Para assinalar o Dia Internacional da Mulher, a Ordem dos Psicólogos Portugueses […]
A saúde mental das mulheres não é apenas uma questão de biologia. Fatores como a desigualdade salarial, a sobrecarga de trabalho e a violência doméstica aumentam o risco de depressão, ansiedade e stresse pós-traumático, colocando as mulheres numa posição de maior vulnerabilidade psicológica.
Para assinalar o Dia Internacional da Mulher, a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) lança a checklist ‘Como Me Sinto?’, uma ferramenta de autoavaliação emocional que pretende ajudar as mulheres a identificar sinais de alerta e a procurar apoio psicológico, se necessário.
Mas será que a sociedade reconhece realmente as dificuldades emocionais que as mulheres enfrentam? Ou continua a romantizar a sua resiliência, esperando que sejam fortes, cuidadoras e incansáveis – mesmo à custa do próprio bem-estar?
A saúde mental das mulheres é diferente da dos homens?
A resposta curta: sim. E os números falam por si. Estudos internacionais, como os do National Institute of Mental Health, indicam que as mulheres têm o dobro da probabilidade de desenvolver depressão e ansiedade em comparação com os homens.
O risco de perturbação de stresse pós-traumático também é duas vezes maior, devido à maior exposição a situações de abuso e violência.
Em Portugal, dados do INE mostram que cerca de 14% das mulheres referem sintomas de depressão, um número substancialmente superior ao dos homens. Segundo a OMS, as mulheres também são mais propensas a sofrer de insónias, fadiga crónica e episódios de pânico.
Mas o que está por trás destes números? Para além das diferenças biológicas e hormonais, a desigualdade estrutural da sociedade continua a ser um fator determinante para o estado emocional das mulheres.
Porque é que as mulheres são mais afetadas?
A saúde psicológica não vive isolada da realidade social e económica. Há barreiras invisíveis, mas reais, que amplificam a vulnerabilidade emocional das mulheres:
1. Desigualdade salarial e financeira
O salário médio das mulheres é 20% inferior ao dos homens. Não é apenas uma questão de rendimento – é uma questão de reconhecimento. Ganhar menos significa ter menos acesso a cuidados de saúde, a lazer e até a uma rede de apoio. Significa acumular preocupações financeiras e viver em maior risco de pobreza.
Em Portugal, mais de 20% das mulheres vivem em risco de pobreza, um dado preocupante, especialmente para mães solteiras, reformadas e trabalhadoras precárias.
2. A carga invisível do trabalho não pago
Para além do emprego formal, as mulheres continuam a ser as principais responsáveis pelas tarefas domésticas e pelo cuidado dos filhos, idosos e familiares dependentes. Estudos indicam que, em média, as mulheres portuguesas dedicam mais 12 a 15 horas semanais ao trabalho doméstico do que os homens.
Essa carga invisível tem um preço emocional: esgotamento, stress crónico e uma sensação de que nunca há tempo suficiente.
3. Violência e trauma
O impacto da violência de género na saúde psicológica das mulheres é devastador. Em Portugal, 1 em cada 5 mulheres já sofreu violência doméstica, sexual, física ou psicológica. A cada ano, centenas de mulheres procuram apoio por traumas relacionados com abuso e violência, mas muitas permanecem em silêncio, por medo ou falta de condições para sair da situação.
Segundo a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), apenas 30% das mulheres que sofrem violência denunciam os agressores. O medo da retaliação, a dependência económica e a falta de apoio social são fatores que contribuem para o silêncio.
A saúde mental ainda é um privilégio?
Há algo paradoxal nisto tudo: a sociedade fala cada vez mais sobre saúde mental, mas o acesso a apoio psicológico continua a ser um luxo para muitas mulheres. As consultas de psicologia no setor privado têm custos elevados, e o acesso no SNS continua limitado, com tempos de espera que ultrapassam os seis meses em algumas regiões.
No entanto, muitas mulheres não procuram ajuda por estigma ou falta de tempo. O papel tradicional de cuidadora faz com que muitas coloquem as suas necessidades em segundo plano. Questões como a depressão pós-parto ainda são vistas como tabu, quando afetam 1 em cada 7 mulheres após o nascimento de um filho.
Checklist ‘Como Me Sinto?’ – um pequeno passo para quebrar o silêncio
Para ajudar as mulheres a refletirem sobre o seu bem-estar emocional, a Ordem dos Psicólogos Portugueses lançou a checklist ‘Como Me Sinto?’.
A ferramenta aborda sinais de alerta como fadiga, ansiedade, pessimismo, dificuldades de concentração, insónias, mudanças no apetite e sobrecarga emocional. Assim, o objetivo não é diagnosticar, mas incentivar a reflexão e a procura de ajuda quando necessário.
A checklist levanta questões essenciais:
- Sinto-me cansada ou esgotada constantemente?
- Tenho dificuldade em dormir ou concentrar-me?
- Sinto que estou sempre em segundo plano?
- Tenho tempo para mim?
- Já me senti desvalorizada ou culpabilizada pelo meu sofrimento emocional?
Estes pequenos sinais podem parecer inofensivos, mas, quando ignorados, podem evoluir para problemas mais graves.
A saúde mental é um direito – não um privilégio
Em suma, a desigualdade de género não é apenas um problema social ou económico – é um problema de saúde mental. O primeiro passo para mudar esta realidade é falar sobre ela. Questionar o papel da mulher na sociedade, exigir políticas públicas que garantam apoio psicológico acessível e gratuito e, acima de tudo, reconhecer que cuidar da mente é tão importante quanto cuidar do corpo.
Neste Dia Internacional da Mulher, o verdadeiro desafio não é apenas celebrar a resiliência feminina – é garantir que essa resiliência não seja um fardo invisível, mas sim um direito conquistado. A checklist ‘Como Me Sinto?’ já está disponível online. Em caso de necessidade, a OPP lembra que o Serviço de Aconselhamento Psicológico do SNS24 está acessível através do 808 24 24 24.
Porque cuidar da saúde mental não é um luxo – é uma necessidade.


