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Home Notícias Política A longa crise iraniana: juventude, poder e sobrevivência

Política

A longa crise iraniana: juventude, poder e sobrevivência

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16 Janeiro, 2026 | 8 minutos de leitura

O Irão atravessa uma longa crise que combina economia, política e moralidade, e cujo alcance ultrapassa qualquer momento de contestação interna desde os protestos do movimento Mulher, Vida, Liberdade de 2022–23. A faísca inicial foi económica: uma depreciação dramática da moeda iraniana, uma inflação galopante acima dos 40% e uma crise de custo de vida que empurrou milhares de comerciantes, trabalhadores e jovens para as ruas.

O epicentro foi o histórico Grande Bazar de Teerão, em 28 de dezembro de 2025, mas em poucos dias a contestação alastrou-se a todas as 31 províncias, assumindo múltiplas formas de descontentamento popular contra a República Islâmica e o seu sistema de autoridade. Apesar dos perigos, dos olhares cautelosos e passos medidos, a sociedade iraniana emerge como protagonista da sobrevivência, afirmando, mesmo sob medo e repressão, a sua capacidade de imaginar um futuro diferente.

Questão estrutural e heranças históricas

A instabilidade que hoje atravessa o Irão não pode ser lida fora das suas continuidades históricas. Até 1979, o país viveu sob a monarquia do xá Mohammad Reza Pahlavi, um regime autoritário que promoveu uma modernização acelerada e alinhada com o Ocidente, mas sem abertura política proporcional. A repressão, a desigualdade social e a perceção de dependência externa alimentaram uma contestação transversal, que uniu religiosos, liberais e forças de esquerda contra a Coroa.

O desfecho dessa época foi a Revolução Islâmica de 1979, um cataclismo estrutural que destruiu a ordem monárquica e inaugurou uma teocracia onde a autoridade religiosa — personificada no Líder Supremo — passou a ocupar o vértice de um sistema político híbrido, simultaneamente clerical e estatal. Esse arranjo singular, que amalgama jurisdição teológica e soberania política, alterou a configuração do poder de forma irreversível.

No coração dessa transição esteve também a sombra das potências estrangeiras. A memória política iraniana incorpora de forma quase litúrgica um episódio que continua a reverberar: o golpe de 1953 orquestrado pela CIA e pelos serviços secretos britânicos que derrubou o primeiro‑ministro Mohammed Mossadegh, restaurando o xá no trono, um gesto que muitos iranianos interpretam como intrusão flagrante nos assuntos domésticos e que fertilizou narrativas duradouras de resistência ao Ocidente.

O que nos diz a atual economia do país

A economia iraniana enfrenta uma deterioração profunda que se refletiu diretamente no aumento do descontentamento social e se tornou uma das causas imediatas dos protestos que varreram o país. Segundo projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI), o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) estará próximo de 0,6 % em 2025, um ritmo significativamente inferior às médias regionais e muito aquém das necessidades económicas domésticas, depois de anos de tensões acumuladas. A inflação, impulsionada pela desvalorização dramática da moeda nacional — o rial perdeu quase metade do seu valor face ao dólar — deverá atingir mais de 40 % em 2025, corroendo o poder de compra das famílias e elevando o preço de bens essenciais além do que muitos podem suportar.

Os indicadores sociais espelham esta fragilidade macroeconómica: mesmo com uma taxa oficial de desemprego global em cerca de 7,6 % no ano até março de 2025, a taxa de desemprego entre os mais jovens continua muito mais elevada, rondando os 20 % para a faixa etária de 16 a 24 anos, e setores-chave como serviços e fabrico estão a sentir a pressão de mercados distantes e de um ambiente interno hostil ao investimento. Ao mesmo tempo, dados sobre preços de alimentos apontam para aumentos que ultrapassam os padrões gerais de inflação, refletindo que muitos iranianos gastam uma parte cada vez maior do rendimento em itens básicos, enquanto os salários reais não acompanham a escalada dos custos de vida.

A repressão e o balanço de vítimas

O caráter do protesto mudou rapidamente, abrindo caminho a confrontos diretos com as forças de segurança, incluindo a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), polícia e outras unidades paramilitares. As informações sobre o número de mortos variam substancialmente de acordo com a fonte, refletindo tanto o ambiente de censura e apagão de comunicações imposto pelo Estado quanto a dificuldade de verificação autónoma.

Segundo estimativas de organizações de direitos humanos e agências de monitorização, o número de mortes relacionadas com a repressão supera as 2500, com milhares de detidos e um vasto leque de feridos e desaparecidos. Um saldo que, se confirmado, faz desta onda de protestos uma das mais sangrentas desde 1979. Relatórios alternativos sugerem cenários ainda mais extremos, com estimativas de até 12000 vítimas, embora tais números sejam mais difíceis de corroborar de forma independente.

O regime iraniano oferece contagens menores e inclui entre as vítimas também membros das forças de segurança e civis pró-governo, mas os observadores internacionais e grupos de direitos humanos apontam para uma repressão violenta e, em muitos casos, desproporcional.

Manifestações de apoio ao regime e retórica de interferência

Apesar da ampla contestação popular, não se pode presumir unanimidade contra o Estado. Em várias províncias surgiram manifestações de apoio às autoridades e ao líder supremo, sobretudo mobilizadas por setores que veem a estabilidade como condição para a sobrevivência nacional face a ameaças externas e caos interno. Esse segmento sociopolítico denuncia o que chama de «tentativas de desestabilização» por potências estrangeiras, particularmente os Estados Unidos e Israel, apontando acusações de infiltração e financiamento externo.

Autoridades iranianas chegaram a afirmar que agentes de inteligência estrangeiros, incluindo do Mossad israelita, estariam a armar e orientar protestos para fomentar uma «revolução colorida», embora tais alegações não sejam sustentadas por evidências concretas verificadas por fontes independentes.

Enquanto isso, parte da oposição interna rejeita essas teorias conspiratórias e sublinha que o impulso por mudança nasce, antes de mais, do desgaste acumulado de décadas de repressão, dificuldades económicas e falta de espaços institucionais legítimos para o dissenso — uma posição que encontra lugar em reportagens internacionais que enfatizam a espontaneidade da mobilização popular.

Reações internacionais

A reação global tem sido heterogénea. Os Estados Unidos e o Reino Unido retiraram parte do seu pessoal militar do Médio Oriente por precaução, dada a escalada de tensões. Donald Trump afirmou estar atento aos acontecimentos e pondera diferentes formas de pressão, incluindo sanções adicionais, enquanto dialoga com aliados sobre a necessidade de conter a violência. Embora a administração americana ressalve que prefere instrumentos diplomáticos e económicos, não exclui a possibilidade de intervenção direta em território iraniano caso a situação se deteriore ainda mais ou represente ameaça aos interesses norte-americanos na região. Também organismos internacionais, como o Conselho de Segurança da ONU, reuniram-se de emergência para discutir a situação e expressar preocupação com a repressão e as restrições à comunicação.

Entre os líderes europeus, a condenação tem sido firme. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, declarou: «O aumento do número de vítimas no Irão é horripilante. Condeno sem reservas o uso excessivo da força e a contínua restrição das liberdades», afirmando que a União Europeia está a preparar um novo pacote de sanções contra responsáveis pela repressão, em coordenação com o Alto Representante da UE para os Negócios Estrangeiros.

Países árabes vizinhos, incluindo a Arábia Saudita e o Egito, advertiram contra qualquer intervenção militar externa, temendo que uma escalada transformasse o Irão num foco ainda maior de instabilidade regional. Em linha semelhante, a Turquia declarou‑se contra a intervenção militar e apelou à resolução pacífica e ao diálogo, frisando que a prioridade deve ser evitar a desestabilização interna e regional.

A cultura e o descontentamento

Antes de ser manchete, o Irão foi poema. Foi Hafez recitado em voz baixa, foi Ferdowsi a fixar em versos a memória do povo persa no Shahnameh, foi Forough Farrokhzad a escrever sobre o corpo e a liberdade num país que sempre soube que a linguagem é também um campo de batalha. A história iraniana não começa nem acaba na República Islâmica: atravessa impérios, revoluções, universidades, bibliotecas e uma tradição intelectual que nunca deixou de dialogar com o mundo.

O passado que se repete no país corre pelos becos de Teerão, respira nas salas de aula das universidades, entra pelas casas e cafés onde se fala de tudo e de nada, com esperança e medo. Jovens que leem livros universais, que dominam línguas que os pais nunca sonharam, encontram-se com um Estado que ainda se vê como árbitro da ordem e da moral. A crise que se desenrola é também ela consequência dessa colisão, invisível aos olhos dos que contam mortos e feridos, mas evidente no ritmo das ruas, nos olhares que desafiam ou se recolhem, na coragem que se aprende sem que ninguém a ensine.

Marcelo Teixeira,
Colaborador

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