Sonhei que o David Attenborough e a Jane Goodall eram um casal e estavam a ser homenageados pelos seus 60 e tal anos de casados. Que parvoíce querer juntar duas pessoas magnificas na mesma casa, como se o pináculo da excelência fosse o amor romântico.
O meu sono dá-me sempre as respostas mais vergonhosas sobre mim, a Han Kang já me tinha avisado: Dreams are terrifying things. No – they’re humiliating. They reveal things about you that you weren’t even aware of.
Devia ter dito qualquer coisa enquanto a Jane Goodall estava viva para, orgulhosamente, dizer que partilhava o mundo com dois velhotes que inspiram toda a gente, de todas as idades. Menos os broncos, que não se deixam inspirar por nada. Diria, nesse texto, que é na Natureza, nas ervas, nas selvas, nos bichos e na lama que se encontra a longa vida. Talvez me apanhasse a mentir, não estou certa de que acredite assim tanto nesta breve quase-teoria, porque eu sou uma fã distanciada do punk e do rock and roll, fumo IQOS mesmo quando sei que os cigarros têm mais estilo e parece-me que estas atrações estão distantes dos naturistas. Retiro o que disse. Quer dizer, os cigarros aquecidos podemos fechar que estão a léguas da Jane Goodall, já o rock n’ roll, arrisco-me a dizer que é um tirinho.
A Jane Goodall é a mulher dos livros de aventuras que me faziam brincar sozinha no meu quarto e, durante toda a minha infância, acreditei que a Jane do Tarzan tinha esse nome por causa da Jane Goodall. Ela, por sua vez, quando fechava os olhos à noite, via-se como um homem, porque desconhecia que as pernas de uma mulher também serviam para andar. A secretária de 26 anos do Dr. Louis Leakey é a escolhida para a missão que iria mudar a sua vida e a de todos nós, precisamente por não estar infestada de teorias científicas, mas antes, porque tinha algo muito mais precioso: paixão e paciência. Afinal, as pernas serviram-lhe para arrancar de Inglaterra e ficar meses sozinha na selva, com um caderno, uns binóculos e mais tarde, a sua mãe. O amor realmente tira-nos do sério. Para a Jane, esta seria a parte fácil da vida, porque não haveria nenhum outro lugar no mundo onde pertencesse mais do que no sítio onde se fala a língua dos animais.
A minha irmã mais velha é bióloga marinha e eu cresci a admirar o que, à partida, seriam realidades opostas: cigarradas, copos de cerveja do chão do Bairro Alto, a decadência no geral e, por culpa dela, a voz adulta de um homem que me apresentava os animais no mundo inteiro, a inteligência das orcas e uma mulher que vai sozinha estudar chimpanzés no Gombe. A solução estaria em andar com um cinzeiro portátil, copos reutilizáveis e, quanto à decadência, ainda não tenho solução – eu digo que já nada disso me atrai, mas é mais uma mentira das minhas.
David Attenborough nunca parou. Andava com as mãos ocupadas, uma com o Planeta Terra, outra com comunicação e mostrou-nos o mundo sem termos de sair de casa. E, quando parecia que já tinha dado tudo, mostrou-nos o mar, num último esforço de nos resolvermos com um mundo em apuros. Agarro neste senhor para tentar provar que não é apenas o sensacionalismo que chega às pessoas e o carisma nada tem que ver com rapidez, purpurinas e falsa genuinidade. A intemporalidade ainda existe e nós somos sempre capazes de aprender.
São pessoas que dedicam a sua vida a uma causa que torna tudo isto tão inspirador. A causa destas duas pessoas parece-me a causa primordial, que dá origem a todas as outras. A minha verdadeira obsessão recai sobre o início de todas as coisas, sobre as primeiras perguntas e não tenho dúvidas de que estes dois humanos perceberam quais são, melhor do que os intelectuais boémios por quem me apaixonei na adolescência e com quem sonhava que um dia me iria casar. Estes dois não precisaram de racionalizar sobre o seu potencial mas, provavelmente por estarem em sintonia com a ordem das coisas, viveram o que imaginaram no mais íntimo das suas cabeças de criança.


