Muita barbárie foi cometida ao longo da história sob a égide do (uso do) nome de Deus. Mas os perigos não se circunscrevem aos livros de história – veem-se a olho nu. Putin, mancomunado com Cirilo I, o Patriarca da Igreja Ortodoxa russa, ilustra bem o fenómeno. O ditador russo tem usado o nome de […]
Muita barbárie foi cometida ao longo da história sob a égide do (uso do) nome de Deus. Mas os perigos não se circunscrevem aos livros de história – veem-se a olho nu. Putin, mancomunado com Cirilo I, o Patriarca da Igreja Ortodoxa russa, ilustra bem o fenómeno. O ditador russo tem usado o nome de Deus para justificar a invasão da Ucrânia. Cirilo, por seu turno, tem chancelado a barbárie. Chegou a descrever Putin como um “milagre de Deus”. Legitimou a invasão da Ucrânia, caraterizando-a como guerra justa visando proteger a Rússia e o mundo das conspirações liberais destinadas a infiltrar a Ucrânia com “desfiles gay”.
Não precisamos de atravessar os Urais para observar a instrumentalização do nome de Deus. Por esse mundo fora, Europa e EUA incluídos, o fenómeno é visível. Matteo Salvini, o líder do Liga Norte, antigo vice-primeiro-ministro do governo de Itália e agora seu ministro, é um confesso admirador de Putin. Populista dos sete costados – embora agora mais contido – Salvini não se coíbe de explorar a religião galvanizar apoio político. Chegou a envergar e beijar um crucifixo, em aparições públicas, para propagandear a sua filosofia política. O seu partido chegou a propor que o crucifixo fosse tornado obrigatório em todos os locais públicos em Itália – proposta que um conselheiro do Papa Francisco condenou veementemente.
Recorde-se que Salvini, visita de “casa” do Chega, apelou ao voto em Ventura, durante a campanha para as eleições presidenciais em Portugal, “em nome da honestidade, da mudança, da família, da segurança, do trabalho e do futuro”. Rotulou-o como presidente “dos portugueses de bem”, estandarte que Ventura narcisicamente transporta. Ventura, por seu turno, fez jus aos pergaminhos “religiosos” do parceiro italiano quando escreveu: “Deus confiou-me a difícil, mas honrosa missão de transformar Portugal. E eu não abandonarei os portugueses, por muitas armadilhas que me sejam colocadas no caminho”. Bolsonaro, outro apoiante de Ventura, não se cansou de usar o nome de Deus, enquanto presidente do Brasil, para prosseguir a sua agenda divisiva. Após ter perdido o lugar, afirmou durante um discurso numa igreja evangélica em Orlando, nos EUA: “Foi uma experiência que eu entendo como uma missão e se Ele [Deus] entende assim, acho que essa missão ainda não acabou”. Também Viktor Orbán, o primeiro-ministro húngaro que Bolsonaro chamou de “irmão”, se tem retratado como “defensor do Cristianismo” no seu país e na Europa – e tem usado essa bandeira para diabolizar a imigração.
E eis-nos chegados ao hiper-narcisista Trump. Em 15 de outubro de 2020, confessou: “Alguém me disse outro dia, ‘tu és, de longe, a pessoa mais famosa do mundo’, ao que eu respondi, ‘Não, não sou’. Disse-me: ‘Sim, és’. Eu disse, ‘Não’. Disse-me, ‘Quem é mais famoso?’. Respondi, “Jesus Cristo’.” Tamanha modéstia de Trump ficou também evidenciada num vídeo (criado por um grupo seu apoiante) que ele próprio divulgou na rede social Social Truth. O vídeo, intitulado “Deus fez Trump”, abre com esta narrativa: “Em 14 de junho de 1946 [data de nascimento de Trump], Deus olhou para o paraíso que planeara e disse, ‘Preciso de um zelador’. E deu-nos Trump”. Eric Trump disse numa entrevista que o seu pai “salvou o Cristianismo, literalmente”. Esta expressão associa-se a um coro de vozes que afinam pelo mesmo diapasão.
Para quem acredita neste poder messiânico, as inúmeras acusações que recaem sobre Trump não representam qualquer obstáculo teológico ou cristão, e antes têm explicação bíblica. Afinal, Cristo, que nenhum mal cometeu, também foi preso e assassinado! Mais: por vezes, Deus usa os pecadores para cumprir a Sua vontade na Terra. Segundo o The New York Times, John Fea, um professor na Messiah University, na Pensilvânia, afirmou ser provável que Trump considere estes grupos religiosos seus apoiantes como “loucos” – mas que está disposto a representar esse papel de ungido por Deus como expediente eleitoral para conquistar votos.
Confesso que tudo isto me tira o sono. Usar o nome de Deus e a religião para justificar a violência e a aniquilação do outro é simplesmente diabólico. Esta gente, que se coloca no pedestal de uma putativa superioridade moral, acaba a moralizar o ódio, a discriminação, e a violência.
É imperativo democrático respeitar as diferenças, escutar aqueles de quem discordamos, e tentar compreender as razões que conduzem milhões e milhões de pessoas a aderir a estas narrativas. Mas é também fundamental que discutamos e reflitamos sobre as possíveis consequências dramáticas destes movimentos. Tenho, para mim, três convicções.
Primeira: estas narrativas podem incendiar paixões de quem se vê arredado dos frutos do progresso. É fundamental que a política e a economia se foquem mais no bem-comum e prezem a dignidade das pessoas. Segunda: se essa mudança não ocorrer, temo que não faltem oportunistas incendiários, nem narcisistas ávidos de poder e glória, dispostos a articular o léxico messiânico para prosseguir os seus intentos. Terceiro: oiçamos o Papa Francisco e perfilhemos a sua agenda inclusiva – de crentes e não crentes, de “santos” e “pecadores”, de nacionais e imigrantes. Tenhamos, dentro de nós, tanto a sabedoria prudente da serpente como a simplicidade e a bondade da pomba. E não esqueçamos: memento mori.

