Um destes domingos o Público publicava numa mesma edição, com poucas páginas de intervalo, duas interessantes entrevistas. Numa o filósofo Michael Sandel fazia a crítica da meritocracia ou do que chama a “tirania do mérito”. A sua ideia é que a defesa do mérito tem criado um fosso cada vez maior entre os bem-sucedidos e […]
Um destes domingos o Público publicava numa mesma edição, com poucas páginas de intervalo, duas interessantes entrevistas. Numa o filósofo Michael Sandel fazia a crítica da meritocracia ou do que chama a “tirania do mérito”. A sua ideia é que a defesa do mérito tem criado um fosso cada vez maior entre os bem-sucedidos e os que ficaram para trás. Os primeiros acabam por considerar que o que obtiveram é fruto do seu mérito e trabalho. Vivem vidas cada vez mais afastadas das pessoas comuns. Neste processo, o seu sentido de dívida face àqueles que proporcionaram o seu sucesso (os seus pais, professores, a comunidade, o Estado) é diminuído. A receita meritocrática, segundo Sandel, é simples e perigosa: para ter sucesso estuda e melhora-te. Ou então aceita a tua condição.
Mais à frente, Bárbara Reis resume o conteúdo de uma entrevista com Ramos-Horta, presidente de Timor-Leste com “um conselho para os jovens: estuda”. Será esta uma interessante contradição? Devemos afinal estudar e melhorar-nos ou evitar a tirania do mérito? A contradição tem remédio e Ramos-Horta está certo: sem capital humano o progresso é uma miragem. Mas o capital humano deve beneficiar quem o tem mas também a sociedade. Deve ser partilhado e não segregado.
Um dos sinais mais preocupantes desta clivagem encontra-se na crescente separação entre ensino público e privado. Quem pode, coloca os filhos no privado, incluindo aqueles que mais fervorosamente defendem o ensino público. Como ultrapassar este fosso? Entre outras medidas, com uma reinvenção do modelo: deixando os alunos com mais mérito escolherem escolas de qualidade – sejam elas públicas ou privadas. Reforçando a qualidade das escolas públicas. Dignificando o trabalho dos professores e elevando o seu estatuto social. Para que melhor possam servir os seus alunos.
