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Home Opinião  ‘Controlar’ ajuda ou atrapalha?

Opinião

 ‘Controlar’ ajuda ou atrapalha?

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9 Setembro, 2026 | 4 minutos de leitura

Os meus enteados têm 10 anos. Este verão demos-lhes um telemóvel que estava lá por casa, usado, claro, porque não somos uma família de Silicon Valley. A ideia era simples: quando estão connosco, terem um número próprio para poderem falar com a mãe. Nada de particularmente revolucionário. Claro que instalaram WhatsApp. Claro que rapidamente passaram a ser membros ativos dos grupos da família e, pouco depois, surgiu a pergunta inevitável: «Podemos fazer um grupo com os nossos amigos da turma?»

Foi assim, no meio de uma coisa absolutamente banal, que começámos cá em casa uma discussão que está hoje na cabeça de muitos pais, escolas e especialistas: qual é a idade certa para uma criança ter um telemóvel? Mas, rapidamente, a discussão resvalou para redes sociais, regras, limites… Ou seja, quanto devemos controlar e quanto devemos preparar uma criança para saber decidir por si própria?

Quando sentimos que existe um risco, a nossa reação quase automática é criar uma regra. É uma resposta profundamente humana e, muitas vezes, perfeitamente sensata. Se uma criança não sabe lidar com uma rede social, limitamos-lhe o acesso. Se uma determinada situação pode ser perigosa, proibimos. Se alguma coisa corre mal numa empresa, criamos um procedimento para garantir que não volta a acontecer. O problema é que esta lógica, levada ao extremo, transforma-se facilmente em controlo pelo controlo. E isso acontece tanto em casa como nas organizações.

Nas empresas falamos muito de autonomia, iniciativa, ownership e responsabilização, mas depois construímos organizações onde tudo precisa de aprovação, validação ou assinatura. Alguém comete um erro e nasce um novo processo. Alguém toma uma má decisão e aparece mais uma regra. Alguém foge ao procedimento e a resposta é, invariavelmente, reforçar o procedimento. É uma espécie de versão corporativa do «não podes ter um grupo de WhatsApp porque ainda não tens idade».

Compreendo perfeitamente a tentação. Controlar é mais fácil do que confiar. Uma regra dá-nos a sensação reconfortante de que o problema está tratado. Só que uma organização excessivamente controlada pode tornar-se muito competente a evitar erros mas, ao mesmo tempo, bastante incompetente a tomar decisões quando aparece uma situação para a qual ainda não existe um procedimento. E esse é um problema sério.

Não defendo, evidentemente, organizações sem regras, da mesma forma que não defendo crianças sem limites. Há riscos que exigem proteção e decisões que não podem ficar ao critério de cada pessoa. Compliance, ética, segurança, proteção de dados ou gestão financeira não se resolvem com boa vontade e bom senso.

Mas há uma diferença importante entre limitar o risco e eliminar a capacidade de escolha. É precisamente essa diferença que muitas vezes esquecemos quando falamos de liderança. Queremos pessoas responsáveis, mas não lhes damos espaço para decidir. Queremos iniciativa, mas penalizamos o erro. Queremos pensamento crítico, mas ficamos desconfortáveis quando alguém questiona uma decisão. Queremos autonomia, mas continuamos a manter vários níveis de aprovação para decisões que poderiam ser tomadas por quem está mais perto do problema.

Não podemos pedir responsabilidade a pessoas a quem retiramos a possibilidade de decidir. Tal como não podemos esperar que uma criança aprenda a tomar boas decisões se passamos a vida a tomar todas as decisões por ela.

Em ambos os casos, o objetivo não deveria ser criar dependência de quem controla, mas capacidade em quem decide. Uma criança precisa de regras, mas também precisa de perceber porque existem e, progressivamente, de aprender a decidir sem os pais por perto. Uma equipa precisa de liderança, mas uma boa liderança que, com o tempo, precise de cada vez menos intervenção.

Uma organização não fica necessariamente mais segura por ter mais regras. Fica mais preparada quando tem pessoas capazes de pensar.

Joana Garoupa,
Marketing Advisor, CEO Garoupa INC

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