Entre o silêncio e o cuidar, cuidar de nós, dos outros, do que nos rodeia, o que existe em comum? Respeito, sim! Mas e outra coisa? A lentidão, oposto ao andar rápido. Não falo da necessidade de correr para o autocarro ou o atraso para um encontro, mas sim ao andar. Antes de ser produto, […]
Entre o silêncio e o cuidar, cuidar de nós, dos outros, do que nos rodeia, o que existe em comum? Respeito, sim! Mas e outra coisa? A lentidão, oposto ao andar rápido. Não falo da necessidade de correr para o autocarro ou o atraso para um encontro, mas sim ao andar. Antes de ser produto, a arte é um pensamento, uma maneira de ver.
Em 2016, a convite de um grupo de cientistas, integrei uma viagem pelo Rio Negro, Rio Branco, com paragens para percorrer trilhos na floresta Amazónica. Ao percorrer estes trilhos tive uma enorme surpresa que nunca tinha tornado consciente ao visitar outras florestas. Não escutava os meus passos ou a minha presença. O solo é composto por uma camada tão rica de matéria orgânica que abafa os sons dos passos. Cria uma espécie de ambiente de silêncio.
Aos poucos fui-me apercebendo que ouvia muitos outros sons. De pássaros, de folhas ao vento e outros sons que, por ignorância, não identificava. Mas estes sons muito altos não eram barulho, eram como uma espécie de silêncio.

Esta descoberta desencadeou uma série de peças que tenho vindo a desenvolver e que se prendem com a ideia de acumulação, solo, recuperação. A ideia da morte como início de vida. O ciclo completo da Natureza. Já tinha trabalhado algumas dessas preocupações, mas não com tanta consciência.
O início de uma caminhada na floresta ou num parque, é na maior parte das vezes, o início de uma aventura. Roupa confortável, botas para andar em terrenos menos previsíveis, uma câmara fotográfica, um diário gráfico, um saco para recolhas e muita atenção.
Este conjunto de coisas que transporto comigo ajudam a criar um sistema que no final começa a criar sentidos. A ideia é criar um sistema relacional numa espécie de network rizomático para tentar entender e não reduzir esta relação ao mero consumo.
Umas quantas palavras fazem parte deste sistema:
CUIDAR – RESPEITO – SILÊNCIO – LENTIDÃO
O exercício que proponho é encontrar relações possíveis entre cada uma destas palavras.
Cuidar – Respeito
Cuidar – Silêncio
Cuidar – Lentidão
Respeito – Cuidar
Respeito – Silêncio
Respeito – Lentidão
Silêncio – Cuidar
Silêncio – Respeito
Silêncio – Lentidão
Lentidão – Cuidar
Lentidão – Respeito
Lentidão – Silêncio
Cuidar – Respeito
Respeito – Silêncio
Silêncio – Lentidão
Lentidão – Cuidar
Estas sequências acionam questões, não interessam as respostas.
Antes de ser produto, a arte é um pensamento, uma forma de ver.
Um dia tive uma epifania. Estava numa das minhas deambulações pelos parques e florestas algures na Alemanha e reparei que as plantas se repetiam. Via plantas muito semelhantes em Portugal, na Alemanha ou no Brasil. Não importa a situação geográfica, ou o clima ou a qualidade do solo. Iniciei uma série de peças de foto com desenho, às quais associo a ideia de colonização das plantas.
Quando estou num jardim, parque ou floresta e no silêncio reconheço as plantas ou tenho uma sensação de reconhecer o lugar, tiro fotografias. Depois, no estúdio, elaboro as peças de foto com desenho sempre com esta ideia de que estou a trabalhar uma paisagem ficcional universal, um palimpsesto aberto evolutivo dependendo das culturas e dos indivíduos.
BIO
Natural de Vale de Cambra, vive e trabalha entre Bruxelas e Lisboa. Licenciada pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, passou por Berlim, Paris, Salvador da Bahia, Oxford e Bogotá em residências artísticas. Expõe individualmente desde 1990 e participa em coletivas desde 2000. As suas obras são parte de inúmeras coleções de Museus e galerias e coleções privadas.
Este artigo foi publicado na edição nº 28 da revista Líder, sob o tema Silêncio. Subscreva a Revista Líder aqui.



