Dezembro chega sempre com uma certa solenidade. Os dias encurtam, a luz torna-se mais baixa, mais oblíqua, rara, como se a natureza nos dissesse para abrandar. O inverno instala-se e recorda-nos que há um tempo para crescer, e há outro para recolher. A propósito, os japoneses segmentam o tempo ao ritmo das estações. Não há […]
Dezembro chega sempre com uma certa solenidade. Os dias encurtam, a luz torna-se mais baixa, mais oblíqua, rara, como se a natureza nos dissesse para abrandar. O inverno instala-se e recorda-nos que há um tempo para crescer, e há outro para recolher. A propósito, os japoneses segmentam o tempo ao ritmo das estações. Não há ideia de princípio e fim, há uma sucessão de acontecimentos. Há um tempo para expandir e outro para voltar ao essencial.
O nosso quotidiano leva-nos a uma pausa, em que a própria paisagem se despe, reduz ao necessário. Contudo, neste velho Continente, numa geografia ocidental, acima da linha do Equador, à medida que dezembro se instala, mais se sente o peso do excesso: estímulos, compromissos, expectativas, listas de presentes, jantares, tarefas, obrigações. De nada esta quadra se assemelha com algo leve.
A época natalícia transformou-se numa coreografia complexa, quando nasceu de um gesto simples: a celebração de uma esperança. O Natal é um palco do demasiado, do ruído não apenas sonoro, mas emocional, social e digital. Coloco o desafio de celebrar estes últimos dias do ano com um convite ao silêncio, a regressar ao essencialíssimo, a simplificar. A unidade de medida não é a quantidade, mas a qualidade e a essência de cada momento. Simplificar, nesta edição, é um ato de resistência. Simplificar não é fazer menos, é viver melhor. Contrariar a tendência para acumular e tentar aprofundar e encontrar a sobriedade. Desapertar o nó do complexo e com isso procurar a beleza do simples. Já que muitas vezes o que procuramos não está no que se acrescenta, mas no que retiramos.
Finalmente, recorro aos pensadores e aos poetas para um embalo no simplismo, sem ser simplista. Em Analectos, Simon Leys introduz Confúcio (551 a 479 a.C.) como um dos pais espirituais da humanidade, ao lado de Buda, Sócrates e Cristo. Conforme explica, «os Analectos representam para Confúcio o que os Evangelhos são para Jesus». Da compilação de ensinamentos realizada pelos seus discípulos, originalmente escritos em chinês, escolho um: «A opulência pode levar à arrogância; a frugalidade pode levar à tacanhez. Mais vale ser tacanho do que arrogante.».
E termino com a poesia de Miguel Torga:
Natal
S. Martinho de Anta,
24 de dezembro 1962
(Diário IX, 1964)
À volta da lareira
Quantas almas se aquecem
Fraternamente?
Quantas desejam que o Menino venha
Ouvir humanamente
O lancinante crepitar da lenha?
Boas Festas!
Este artigo foi publicado na edição nº 32 da revista Líder, cujo tema é ‘Simplificar’. Subscreva a Revista Líder aqui.

