Nos últimos meses, viagens a países diferentes, nomeadamente no norte de África, permitiram-me constatar como, naquela parte do mundo, a guerra da Ucrânia é vista como um problema europeu. Alguma atitude anti-americana, mesmo entre as elites educadas, revela desinteresse perante as guerras dos outros. As guerras “dos outros”, todavia, são nossas também: num mundo global […]
Nos últimos meses, viagens a países diferentes, nomeadamente no norte de África, permitiram-me constatar como, naquela parte do mundo, a guerra da Ucrânia é vista como um problema europeu. Alguma atitude anti-americana, mesmo entre as elites educadas, revela desinteresse perante as guerras dos outros. As guerras “dos outros”, todavia, são nossas também: num mundo global os acontecimentos tendem a revelar implicações amplas no plano geográfico.
Por isso as declarações de Macron na China são preocupantes. Quando o negócio prevalece sobre a defesa dos valores das democracias liberais, o caldo começa a entornar. Ao contrário do ponto de Macron podemos defender, como Gideon Rachman no Financial Times, que Taiwan conta para nós. A China, depois de esmagar as veleidades democráticas de Hong Kong, investe contra Taiwan, uma sociedade próspera, democrática e pouco interessada em juntar-se ao continente. De Macau, curiosamente, nem falamos. Mas imaginamos.

A ascensão da China ao estatuto de superpotência, tema de A China depois de Mao, de Frank Dikotter (Temas e Debates), é uma boa notícia porque significa a melhoria de vida de muitas pessoas. Já a ênfase crescente no hard power, refletida na amizade sem limites com Putin, é uma má notícia. Tudo o que enfraquece a democracia limita a possibilidade de criarmos um mundo melhor: mais ligado, mais consciente dos problemas comuns (como a situação ambiental), mais respeitador dos direitos humanos. Se o Sr. Macron acha que este não é um problema dele, talvez nós tenhamos razões para ficarmos preocupados.
