Começou aquele que pode ser o grande conflito global deste século. Estamos a falar de guerra. Acabados de sair de dois anos de guerra pela saúde pública, combatendo uma das mais ferozes pandemias de que há memória, eis que nos vemos, perplexos, a assistir ao eclodir da mais injustificável invasão de um país soberano por […]
Começou aquele que pode ser o grande conflito global deste século. Estamos a falar de guerra. Acabados de sair de dois anos de guerra pela saúde pública, combatendo uma das mais ferozes pandemias de que há memória, eis que nos vemos, perplexos, a assistir ao eclodir da mais injustificável invasão de um país soberano por uma grande potência em decadência, num grito de conquista imperialista como já não nos lembrávamos.
Na verdade, já poucos restam vivos que tenham memória do que foi o grande conflito do século passado – a II Guerra Mundial. É assim para as gerações atuais uma prova decisiva aquilo que vamos viver. Um teste de fogo para as lideranças mundiais, nascidas num contexto de paz e prosperidade que foi posta em causa por um líder sem valores, que joga um jogo sem regras para fazer valer a sua agenda pessoal. Uma agenda pessoal que passa não só por acumulação de poder como por uma ambição desmedida de acumulação de riqueza. Vladimir Putin, um dos líderes com maior fortuna pessoal acumulada é, segundo algumas opiniões, um líder capaz de criar um conflito armado para poder beneficiar da aquisição de participações acionistas compradas em baixa, de forma a posteriormente as vender em alta, com enormes mais-valias especulativas. Um líder sem valores. Um perigo inaceitável para a civilização como a conhecemos e para o futuro que aspiramos.
Ao contrário do que Neville Chamberlain pensava quando tentava negociar com Hitler, a paz não é um fim em si mesmo. É o caminho que devemos tentar alcançar sempre, desde que os valores fundamentais da nossa civilização não sejam ameaçados. Os valores da liberdade, da democracia e dos direitos humanos. E sempre que estes valores são ameaçados, as lideranças devem ter a coragem de não ceder na sua defesa, por muitos sacrifícios que isso implique.
Se há coisa que a pandemia nos ensinou foi que os povos estão dispostos a fazer sacrifícios sempre que vale a pena, sempre que esteja em causa um bem maior. E os países onde impera a liberdade e a democracia foram os melhores exemplos de civismo, disciplina, entrega e espírito de sacrifício no combate à pandemia, com resultados que estão à vista de todos. Um grupo de países do qual nos podemos orgulhar de pertencer.
Se a pandemia parecia o teste derradeiro deste século, o conflito que hoje começou mostra que o curso da História não para de nos surpreender. E hoje começa muito provavelmente o derradeiro teste deste século às lideranças: uma liderança com a coragem de não abdicar dos nossos valores fundamentais. Uma liderança que ao enfrentar a Rússia sabe que vai, no mínimo, sofrer um forte impacto económico. Mas uma liderança que tem de aceitar que o sacrifício, seja económico, seja em vidas humanas, pode ser o preço a pagar pelo nosso futuro. Uma liderança inspirada no exemplo de Winston Churchill, que teve a coragem de ousar combater uma aparente ameaça imparável ao nosso modo de vida, sem olhar a ciclos eleitorais ou a popularidade.
Saibamos todos dar o exemplo, cada um na sua esfera, para que todos possamos aspirar a ter um futuro. Porque liderar com valores vai ser a prova do século.
Por Ricardo Fortes da Costa, Partner da The Key Talent Portugal e Professor do ISEG

