Até ao dia das eleições legislativas, 30 de janeiro, a Líder vai publicar diariamente as opiniões e contributos de várias personalidades a quem foi lançado o desafio de responderem à pergunta: O que precisamos mudar? Homens, mulheres, jovens, seniores, caucasianos, negros, crentes e não crentes, qualquer que seja a orientação sexual terão a sua opinião […]
Até ao dia das eleições legislativas, 30 de janeiro, a Líder vai publicar diariamente as opiniões e contributos de várias personalidades a quem foi lançado o desafio de responderem à pergunta: O que precisamos mudar?
Homens, mulheres, jovens, seniores, caucasianos, negros, crentes e não crentes, qualquer que seja a orientação sexual terão a sua opinião na Líder e serão capa.
Na Líder a capa é de todos.

Conceição Zagalo, mulher, madura, caucasiana, crente, companheira, mãe, avó, irmã, amiga, gestora, empreendedora social, amante da vida e de pessoas.
O que precisamos mudar no pós 30 de Janeiro de 2022?
Sim, eu sei, estamos no século XXI e as primeiras décadas já lá vão. O mundo tem evoluído de forma avassaladora, as tecnologias conduzem-nos a paradigmas nunca antes imaginados, deixámos de estar circunscritos a espaços intrafronteiras, lançamo-nos para a lua, para marte.
Chegámos a um nível de sofisticação próximo da genialidade, subimos tantos dos degraus da evolução, abrimos portas enormes à informação, somos mais conhecedores, mais exigentes, mais gestores das nossas próprias expetativas.
Vivemos num país de condições naturais únicas. Temos sol, mar, ar razoavelmente saudável. Somos um povo agradável, que sabe acolher bem quem nos procura, movemo-nos de forma segura, produzimos, importamos, exportamos.
Mas, e então, faltam-nos dados para um olhar mais ambicioso sobre o nosso dia-dia e o nosso habitat social, económico, ambiental?
Como se não bastasse uma pandemia que nos remeteu para uma enorme disrupção no processo individual e coletivo de desenvolvimento, vivemos atualmente uma circunstância dispensável num quadro de estabilidade e de expansão já que, não escamoteemos, qualquer quebra de ciclo legislativo significa interregno na evolução de circunstâncias, de pessoas, de organizações.
É num turbilhão de acontecimentos e de sentimentos que, ainda com cheiro a natal e a festejos de mudança para uma nova página de calendário, nos vemos a braços com uma campanha eleitoral da era digital em que a sofisticação nas ferramentas tecnológicas e de comunicação se relaciona na proporção inversa com abordagens questionáveis do ponto de vista da relação humana, da oralidade, da aproximação desejável entre pessoas de quem esperamos uma forma de liderança capaz de nos representar com compromisso, com orgulho, com isenção, com sentido de estado, de missão, com exemplaridade, com superioridade.
Assim, por muito tentador que seja pensar em elencar aspetos mais criativos, mais inovadores, mais próximos do estado de evolução no paradigma de século 21, com que encetei este meu escrito, em consciência não consigo mais do que considerar que o que precisamos, mesmo, é de mudar na abordagem que temos sobre o nosso modelo social, ambiental, de governance.
O caminho faz-se caminhando, é cliché, eu também sei. Mas para quê almejar a mais se não tratamos das pessoas no expoente máximo da sua essência? Sob a grande lente da cidadania, da honestidade, transparência, paz, pão, saúde, educação, habitação, entre outros direitos básicos, será que fizemos já o que temos a fazer?
Enquanto continuarmos a destratar-nos uns aos outros sem apelo nem agravo, enquanto a verdade for relativizada em função dos interesses de cada um de nós, enquanto continuarmos a olhar para o lado quando somos abordados por dedos sujos em mãos que se estendem perante nós, enquanto continuarmos a sucumbir em exagerados períodos de espera hospitalar, enquanto continuarmos a não saber resolver cheiros de cartões em espécie de mantas com que tropeçamos à porta de casa, enquanto não formos capazes de colmatar o êxodo de tanto do talento que procura equidade e justiça noutros territórios, enquanto, enquanto, enquanto, de nada serve querermos operar as tais mudanças originais capazes de nos fazerem catapultar para o ranking dos mais evoluídos.
E, não, não é uma questão de dimensão territorial. É mesmo, e tão somente, uma questão de dimensão cultural. De mentalidades. Sejamos honestos, ruídos e nós no pensamento, nas emoções, na seriedade, na relativização com que nos movemos nos nossos ecossistemas são, de todo, dispensáveis. E, no dia em que conseguirmos gerir capazmente este tipo de ziguezagues, lancemo-nos para as mudanças que melhor nos paralelizem com as sociedades mais evoluídas com que queremos configurar-nos, também aqui ao lado,
neste nosso velho continente europeu.
É que, passos ambiciosamente mais ponderados podem ajudar-nos a redefinir trilhos que nos lancem para um percurso de horizonte mais longínquo, mais seguro, mais promissor, mais consistente, mais amado e, sobretudo, em que não caminhemos orgulhosamente sós.


