Até ao dia das eleições legislativas, 30 de janeiro, a Líder vai publicar diariamente as opiniões e contributos de várias personalidades a quem foi lançado o desafio de responderem à pergunta: O que precisamos mudar? Homens, mulheres, jovens, seniores, caucasianos, negros, crentes e não crentes, qualquer que seja a orientação sexual terão a sua opinião […]
Até ao dia das eleições legislativas, 30 de janeiro, a Líder vai publicar diariamente as opiniões e contributos de várias personalidades a quem foi lançado o desafio de responderem à pergunta: O que precisamos mudar?
Homens, mulheres, jovens, seniores, caucasianos, negros, crentes e não crentes, qualquer que seja a orientação sexual terão a sua opinião na Líder e serão capa.
Na Líder a capa é de todos.

Vitorino Mello Oliveira é Diplomata junto das Nações Unidas em Nova Iorque e Professor Auxiliar convidado de Sustainable International Business, Geoeconomics and International Relations, e do Field Lab em Parcerias para o Desenvolvimento Sustentável na Nova SBE. É ainda Youth Ambassador nas Conferências do Estoril.
Em 2022, a Organização das Nações Unidas celebra o seu 77.º aniversário, numa altura em que os desafios que o mundo enfrenta são cada vez mais globais e necessitam de um reforço do multilateralismo.
Desde a Conferência de São Francisco, a qual estabeleceu os princípios de uma nova ordem mundial pós-Segunda Grande Guerra, o sistema das Nações Unidas enfrentou vários desafios no seu mandato de promoção da paz e prevenção de conflitos. Mais recentemente, a pandemia de COVID-19 reiterou a importância da interdependência entre os seus Estados Membros e apontou a oportunidade de reformas, de maior cooperação e de maior solidariedade no mundo.
É neste contexto que, em 2021, as Nações Unidas apresentaram os resultados de um abrangente inquérito global1, que mereceu o contributo de cerca de um milhão e meio de respostas, procurando avaliar as prioridades para a recuperação socioeconómica pós-COVID-19 e o futuro do multilateralismo. O que deveria mudar em Portugal e no mundo?
A premissa era, no mínimo, preocupante. A COVID-19 revertera, em grande medida, o progresso no desenvolvimento humano global alcançado na última década, com o agravamento de desigualdades. Assim, cidadãos do mundo inteiro identificavam como prioritário o melhor acesso a serviços de base, como a saúde, a educação, a água e o saneamento. Muitos (principalmente nos países de médio ou baixo rendimento) apelavam ainda à definição de prioridades para as pessoas e comunidades mais afetadas.
No longo-prazo, as questões climáticas e ambientais eram apontadas como a principal ameaça global, sendo a América Latina e Caraíbas a região que mais valorizava esta problemática. Nas últimas décadas, o tema vinha surgindo como cada vez mais presente nas causas a defender pela comunidade internacional.
Dependendo do nível de rendimento de cada país, existiam perceções diferentes das demais prioridades como as oportunidades de emprego, os Direitos Humanos e as situações de conflito. No Norte de África e Ásia Ocidental, o respeito pelos Direitos Humanos figurava como a prioridade dos apelos à ação. A nível global, encontrávamo-lo consistentemente no top 3 das prioridades.
Apesar destas ameaças, 49% dos respondentes acreditavam que o mundo “estaria melhor” em 2045, sendo que apenas 32% tinham uma visão pessimista. Aqueles que viviam em países com menor classificação no Índice de Desenvolvimento Humano e aqueles que viviam em situações de conflito eram mais otimistas quanto ao futuro do que os residentes em países mais pacíficos e com nível de IDH mais elevado (como Portugal, com apenas 31% de pessoas a considerar que o mundo estará melhor daqui a 25 anos).
Um dos principais resultados do estudo destacava que 97% dos cidadãos acreditava que a cooperação internacional era importante para responder a estes desafios globais. O grau de importância variava entre regiões, sendo a América do Norte a que teria maior predisposição à cooperação. Em particular, a COVID-19 levava a maioria dos Portugueses a considerar que o mundo necessitava de maior cooperação para responder a desafios globais.
Várias respostas colocavam as Nações Unidas na liderança dessa cooperação internacional, para responder aos desafios imediatos e aos de longo-prazo, pedindo à Organização que se renovasse, inovasse e fosse mais inclusiva, comprometida e promotora de soluções com impacto.
Numa amostra maioritariamente jovem (mais de metade dos respondentes tinham menos de 30 anos), o que esperavam os Portugueses para o horizonte até 2045?
O apelo por maior proteção ambiental (44%), padrões de consumo e produção mais sustentáveis (45%), e o maior respeito pelos Direitos Humanos (49%) surgiam nas prioridades cimeiras por um mundo melhor. Com efeito, a resposta às alterações climáticas e desafios ambientais, como a poluição e desflorestação, surgia como a principal tendência de longo prazo (79%), seguida, com alguma distância, dos riscos à saúde pública (44%) que o contexto de pandemia certamente influenciava.
E ainda de acordo com este estudo, onde é que os respondentes portugueses colocavam a prioridade para a cooperação internacional? No acesso prioritário aos cuidados de saúde (54%), no acesso à água e saneamento base (33%), na resposta urgente às alterações climáticas (31%) e às desigualdades socioeconómicas.
Um ano após esse estudo pioneiro, podemos hoje analisar os resultados do relatório anual de riscos do Fórum Económico Mundial2, publicado em janeiro de 2022, numa perspetiva comparativa. Neste, uma avaliação das perceções de risco, ao nível global, confirmou algumas das tendências anteriormente identificadas, inclusive ao nível nacional. Precisamente, os riscos ambientais e as desigualdades sociais acentuaram-se desde o início da pandemia, com a erosão da coesão social, a crise dos meios de subsistência e a deterioração da saúde mental a ocupar posições cimeiras nas perceções internacionais. Outros riscos que se revestem hoje de maior destaque incluem a crise das dívidas, as bolhas financeiras, os riscos de cibersegurança, a desigualdade digital e o questionamento da ciência.
Apenas 11% das respostas mundiais acreditam hoje que os próximos anos serão marcados por uma aceleração da recuperação global, com 89% das perceções apontando para um panorama de imprevisibilidade no curto-prazo. 2022 começa assim com um sentimento pessimista para 84% das pessoas no mundo, que se dizem preocupadas com o futuro próximo. O estudo estima, inclusive, que o crescimento do PIB global seja 2.3% inferior em 2024, face ao valor que seria esperado pré-pandemia.
Nesse quadro, multiplicam-se os apelos a uma resposta conjunta à pandemia, que permitam o acesso universal à vacinação, a correção de lacunas digitais e a procura de novas fontes de crescimento económico.
Tanto um estudo como o outro ajudam-nos a identificar melhor os riscos e perceções mundiais e dos Portugueses em particular. Entre as diferentes respostas dos governos, empresas e sociedade civil, que venham a surgir na sequência destes apelos, uma prioridade parece certa: para responder a desafios comuns será necessária uma maior coordenação e solidariedade no seio da comunidade internacional.
Fontes:
- Estudo global por ocasião do 75.º aniversário das Nações Unidas, 2021.
- Relatório de Riscos Globais do Fórum Económico Mundial, 2022.


