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Home Leading Opinion Opinião Como chegámos aqui, à guerra?

Opinião

Como chegámos aqui, à guerra?

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31 Março, 2022 | 6 minutos de leitura

Tornou-se habitual dizer que o Ocidente humilhou a Rússia depois da desagregação da União Soviética (URSS), que se seguiu ao derrube do muro de Berlim. Não comungo, porém, de tal ideia. Pelo contrário, face ao que a URSS nos ameaçou – como povos e como cultura – a nossa reação foi comedida e branda. Coisa […]

Tornou-se habitual dizer que o Ocidente humilhou a Rússia depois da desagregação da União Soviética (URSS), que se seguiu ao derrube do muro de Berlim. Não comungo, porém, de tal ideia. Pelo contrário, face ao que a URSS nos ameaçou – como povos e como cultura – a nossa reação foi comedida e branda. Coisa diferente é o facto de coronéis do KGB e dirigentes com responsabilidades na ditadura comunista se sentirem humilhados. Em novembro de 1989, quando o muro de Berlim foi derrubado, o líder da Rússia, então URSS,

era Mikhail Gorbachev, Secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética. A ele se devem muitas transformações no mundo, nomeadamente depois de ter introduzido, através de livros e documentos por ele delineados, dois conceitos estranhos na URSS e, em parte, à própria Rússia Imperial, que antecedeu o regime comunista imposto em 1917.

Esses conceitos, Glasnot e Perestroika, que significam, respetivamente, transparência e reestruturação, viriam a humilhar grande parte da nomenclatura soviética. Como podia o Secretário-geral do partido vir dizer, por exemplo, que era intolerável uma nação que colocava naves espaciais em órbita, não conseguir fazer uma torradeira decente.

O exemplo pode parecer bizarro, mas não é. De facto, a URSS, após o fim da II Guerra, começou a ter um papel significativo no Mundo. Recorde-se, porém, que a União Soviética foi vencedora tardia da guerra, uma vez que Estaline começara por fazer um pacto com Hitler para a divisão da Polónia, deixando as mãos livres ao III Reich para invadir a França, tendo invertido essa posição apenas quando os nazis invadiram a própria URSS. De qualquer modo, participando na Conferência de Ialta (Crimeia), Estaline conseguiu assegurar uma zona de influência para a URSS na Europa, que incluía os países que, pouco depois, Churchill classificaria como estando para lá da Cortina de Ferro que se abatera sobre a Europa. Além dos Estados Bálticos, que voltaram a integrar a URSS, a Polónia, a Hungria, a Roménia, a Bulgária, a Checoslováquia (República Checa mais a Eslováquia), um quarto da Alemanha (a República Democrática Alemã), a Jugoslávia (hoje Sérvia, Croácia, Bósnia, Eslovénia, Macedónia do Norte e Montenegro) e ainda a Albânia, faziam parte dessa esfera.

O problema é que o Pacto entre eles era basicamente militar (o Pacto de Varsóvia), ao passo que a NATO (Aliança Atlântica) tinha complementaridades com zonas económicas, como a CEE e a EFTA e, depois, a UE. A partir de determinada altura, a distância em termos de riqueza, desenvolvimento, bem-estar e qualquer critério que se introduzisse, dava uma enorme vantagem ao Ocidente. Claro que os russos conseguiram o Sputnik (primeiro satélite em órbita) antes de os EUA; conseguiram ter o primeiro homem a viajar no espaço – Yuri Gagarine, o cosmonauta (no ocidente dizia-se astronauta) e a primeira mulher – Valentina Tereshkova –, mas essas “vitórias” apenas disfarçavam um facto real: a vida a Leste era uma pobreza total, em comparação com os níveis atingidos nos chamados “países capitalistas”. O facto de o primeiro homem a pousar na Lua, em 1969, ser norte-americano retirou essa superioridade aos russos. Daí em diante, a URSS concentrou-se no armamento, nomeadamente no nuclear, com mísseis de curto e longo alcance, e nos carros de combate que atemorizavam a Europa, uma vez que países como Finlândia, Suécia, Alemanha (Ocidental), Áustria, e mesmo a Grécia faziam fronteira com países que pertenciam ao Pacto de Varsóvia. A colocação na Alemanha Ocidental de mísseis de curto alcance Pershing, e a famosa “guerra das Estrelas” que possibilitaria aos EUA e à NATO destruir os mísseis de longo alcance, retiraram também a vantagem militar ao bloco comunista que, subitamente, se via mais pobre, menos forte e mais isolado.

Foi esta questão que Gorbachev veio colocar: por que razão se escondiam os fracassos? O facto de os automóveis, os frigoríficos, os telefones ou as torradeiras “capitalistas” serem muito melhores do que aquilo que era fabricado na URSS. De que modo se devia reestruturar a economia “socialista” para ter padrões de modo a competir com o Ocidente?

Gorbachev não teve resposta. O próprio Partido Comunista quis correr com ele, através de um golpe de Estado, de que Valentin Pavlov (mais tarde um banqueiro comprovadamente corrupto) seria o chefe.

A ação decidida do Presidente do partido na República da Federação Russa, Boris Ieltsin (que já vinha a criticar o Secretário-geral do PCUS pela demora das reformas), e o apoio popular que recebeu, pôs fim ao sistema. Gorbachev refugiara-se na Crimeia, e Ieltsin, que já era a favor da independência da Rússia face  a todas as outras repúblicas Soviéticas, ficou com o campo livre.

Putin pode vir dizer que o fim da URSS foi um enorme desastre, mas foi decidido por russos e não por estrangeiros. A Comunidade dos Estados Independentes, ainda tentada para manter as ligações privilegiadas entre as Repúblicas do que fora a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, acabou por fracassar. E assim nasceram todos os países que agora conhecemos – dos Bálticos, à Bielorrússia, Ucrânia, Arménia, Geórgia, Cazaquistão, etc.

Para explicar tudo isto seria necessário um compêndio. Apenas pretendo rever brevemente um passado recente e levar quem não sabe, ou não se lembra, a ter em conta que nenhuma humilhação existiu. A Rússia herdou o direito de veto da URSS no Conselho de Segurança na ONU, recebeu milhões de dólares em ajuda dos EUA e da Europa, negociou todas as fronteiras dos países que abandonaram a URSS.

O resto é uma história mal contada por Putin. Uma história semelhante à de outros ditadores, como Hitler, que pretendia reconstruir a “grande Alemanha” com todos os povos que falam alemão (ou falaram, o que envolvia a Áustria, parte da República Checa, parte

da Itália e parte da Polónia).

Chegámos a este ponto por acreditar que o chefe de uma das maiores potências mundiais não seria um fanático, mas sim alguém com quem se podia conversar. Enganámo-nos… e essa humilhação é nossa, antes de a humilhação que Putin há de sofrer por este passo em falso que deu.

 

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